A que Psicologia Clínica nos referimos hoje?

Fonte: Jornal do CRP RJ  n 44

 

A Psicologia Clínica continua sendo o centro das práticas psicológicas ao longo destes 55 anos de regulamentação da profissão?

Se o olhar for dirigido aos programas de graduação, certamente a resposta será sim. Por vários motivos, e o primeiro deles é a tradição construída a partir de 1950, quando é proposto o primeiro curso de formação em Psicologia na PUC-Rio. Ativa no campo da Educação, na primeira metade do século XX, tendo cumprido papel relevante na formação de professores, nos cursos normais, e, até os anos 60, fortemente marcada pela avaliação psicológica realizada através dos testes, a Psicologia se direcionou para o campo da Saúde na modalidade clínica. O modelo de profissional liberal, já praticado por outras profissões, foi apropriado pela categoria, que passou a ter como ideal profissional o consultório, para os atendimentos sistematizados nas Psicoterapias.

Um outro motivo certamente é a concepção de prática psicológica que tem a população, associando o profissional da Psicologia à escuta “de problemas”. Esta representação social da profissão também é compartilhada pelos estudantes que ingressam nos cursos. Pode-se dizer, então, que a expectativa da grande maioria destes estudantes é ter como prática profissional o exercício da Psicologia Clínica. Na formação, são colocadas as oportunidades de conhecer melhor um ou outro sistema de pensamento psicológico, dependendo do corpo docente e seu alinhamento teórico. Nos últimos anos, surgiram questionamentos por parte de muitos estudantes: “no meu curso só se estuda psicanálise”, “no meu curso não estudei psicoterapia de família”, “no meu curso o forte é a TCC”, entre outros. Estas questões são colocadas na perspectiva da formação para a clínica privada, pois, sem terem sido provocados por outras possibilidades de atuação, seguem o rumo previamente traçado.

Entretanto, se o olhar se volta para as atuais demandas colocadas para as práticas psicológicas, a partir de políticas públicas, a resposta precisa contemplar outros elementos. As demandas colocadas pela inclusão da Psicologia como uma das especialidades oferecidas no SUS, compondo as equipes de todos os equipamentos de Saúde, da Saúde Mental aos postos de saúde, passando por todas as enfermarias dos hospitais gerais; colocadas pelo NASF, compondo as clínicas de família; colocadas pelo SUAS, nas atividades desenvolvidas nos CRAS e CREAS, mas também nos Conselhos Tutelares e nos Centros POP, entre outros equipamentos. O espaço privativo do atendimento psicológico foi deslocado para espaços compartilhados com outros profissionais, enfermarias, calçadas.  Honorários foram substituídos por salários. Modalidades de atendimento estão modificadas, registros em múltiplos prontuários desafiam nosso conhecimento. Nestes novos espaços, ouvindo crianças e adolescentes que tiveram seus direitos violados, vítimas de agressões, violências, abusos, mulheres vítimas de violência doméstica ou em profundo sofrimento psíquico frente às precárias condições em que vivem, junto às suas famílias; idosos vítimas de abandono familiar, moradores em abrigos de longa permanência; homens e mulheres que perderam empregos, laços afetivos, esperanças, certamente estamos fazendo clínica psicológica.

Mas a que Psicologia Clínica, então, nos referimos hoje? Os sistemas de pensamento psicológico estão dados e as práticas foram, a partir de demandas sociais, ampliadas a princípio com a saída dos consultórios privados. Seria apenas uma mudança de setting? Há um intenso chamado à mudança, à produção de conhecimento psicológico que se implique não apenas com estas outras possibilidades de intervenção, mas que colabore com o devir de novos saberes psicológicos. Uma Psicologia que inclua as complexidades das subjetividades que nascem e se desenvolvem em territórios tão diversos como os nossos. Povo múltiplo, com histórias, culturas, sociabilidades tão diferenciadas. Que a Psicologia, em especial a Psicologia Clínica, se enriqueçam a partir das experiências que estamos neste momento recolhendo diretamente no campo. Que a clínica psicológica avance junto com a diversidade social onde vem sendo praticada!

Sobre Josué Júnior (130 artigos)
Josué Júnior, carioca, fotógrafo profissional pós- graduado pela faculdade Cândido Mendes. Há mais de dez anos no mercado fotográfico com ênfase em moda e publicidade. Atualmente fotografa para o site Versão Masculina, especializado em comércio de produtos masculinos. Em sua empresa Arte foto Designer, desenvolve seu trabalho autoral, que pode ser apreciado na sua pagina : www.facebook.com/fotosjosuejunior?ref=bookmarks ,ou em seu Instagran .https://www.instagram.com/josuelbjr/

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