Entrevista com Maitê Gauto

Não podemos abrir mão de construir um mundo mais igualitário todos os dias….

 

Maitê Gauto, mestre em Gestão de Políticas Públicas pela FGV e bacharel em Ciências Sociais pela USP, é Gerente de Programas & Incidência da OXFAM – Brasil. Nessa breve entrevista Maitê comenta como está a difícil vida do brasileiro. Com vocês Maitê Gauto!

Agradecimento:

Jorge Cordeiro / Coordenador de Comunicação e Mídias Digitais – OXFAM – Brasil

Domingos Peixoto, fotógrafo do jornal O globo, realizou uma foto que traduz o momento que estamos vivendo. A imagem da foto contém um homem recolhendo ossos de boi com pedaços de carne para comer. É um verdadeiro assombro para os dias de hoje. Para você como poderíamos sair desse momento?

Maitê Gauto: Nesse momento de crise econômica e de escalada da fome, é fundamental a priorização das políticas de transferência de renda, com a definição de valores de benefício que sejam adequados e suficientes para garantir condições básicas de alimentação das pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade social e econômica. Também, é fundamental que as políticas voltadas para a soberania alimentar e nutricional sejam resgatadas e fortalecidas, como a manutenção de estoques de alimentos que são reguladores dos preços, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar e a recriação do CONSEA.


Muitas ações de distribuição de alimentos em todo o Brasil estão sendo feitos, principalmente para áreas de extrema pobreza, e mesmo assim, a ajuda não está sendo suficiente. Qual seria o plano eficaz para tentar diminuir a ausência do governo nesse auxílio à população carente?

Maitê Gauto: Não há como enfrentarmos o aumento da fome no país sem o compromisso e a atuação qualificada e prioritária do governo federal. Dito isso, as organizações da sociedade civil de todo o país está ação é mobilizadas para seguir com suas campanhas de mobilização de recursos para a distribuição de cestas básicas em todo o país. A Oxfam Brasil é parceira da Coalizão Negra por Direitos na campanha Tem Gente com Fome, que já beneficiou 100 mil famílias em todo o país.


Em locais longínquos já se tem notícias que muitas casas adotaram o fogão à lenha, uma solução barata que também traz muito desconforto para as famílias. Pode se dizer que é uma métrica para a pobreza, quanto menos acesso mais retrocesso. É possível pensar em um Brasil com mais acesso?

Maitê Gauto: A falta de acesso ao gás de cozinha, que força as famílias a usarem o foção a lenha, fogareiros e outros métodos arriscados, é um dos fatores que demonstram o aumento da insegurança alimentar, considerando que o empobrecimento da população faz com que as pessoas tenham que escolher entre comprar comida (da mesma qualidade ou de menor qualidade) ou usar a pouca renda que tem para comprar um botijão de gás, por exemplo. E quanto mais pessoas perdem renda e o preço do gás de cozinha aumenta, maiores são as chances de que as famílias tenham que recorrer ao fogão à lenha e outros métodos para poder cozinhar os alimentos.

A linha da pobreza está subindo e a fome também de forma acelerada aqui no Brasil. O IBGE não divulga informações por causa da pandemia, e por esse motivo não se sabe ao certo a quantidade de famílias vivendo nessa linha da pobreza. Mesmo assim, é possível quantificar o número de famílias na linha da pobreza. Como projetar um futuro melhor para elas?

Maitê Gauto: É fundamental que o governo federal garanta todas as condições para que seja realizado o Censo 2020, que foi adiado para 2022. O Censo é uma ferramenta fundamental para que conheçamos a realidade do país e para que possamos planejar políticas públicas de qualidade. Sem o Censo, teremos um apagão de dados que impactará políticas públicas em todos os níveis – Municípios, Estados, Distrito Federal e as políticas nacionais. Ainda, em relação à pobreza, é fundamental que o governo federal não acabe com o CadÚnico.

A desigualdade social está presente em boa parte do mundo, inclusive em países do primeiro mundo como os Estados Unidos. É possível pensar em um mundo igualitário?

Maitê Gauto: Não podemos abrir mão de construir um mundo mais igualitário todos os dias. Essa construção é possível, mas precisa que desmontemos as estruturas que reproduzem as desigualdades, que eliminemos os privilégios das pessoas brancas, dos homens e das pessoas mais ricas. Somente assim termos um mundo mais igualitário.

Sobre Josué Júnior (563 artigos)
Josué Júnior, carioca, pós- graduado pela faculdade Cândido Mendes. Atua no mercado com sua empresa Arte Foto Design é proprietário do site de conteúdo Linkezine. Registro Profissional: MTb : 0041561/RJ

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