A energia nuclear, historicamente vista com ceticismo nas cúpulas climáticas globais, emergiu como um tema central na COP29, realizada em Baku, Azerbaijão. Seis novos países assinaram o compromisso de triplicar o uso mundial da tecnologia nuclear até a metade do século, ampliando o grupo para 28 nações. Esses países veem na energia nuclear uma aliada contra o aquecimento global, enquanto enfrentam os desafios de emissões e demandas energéticas crescentes.
A Mudança de Perspectiva
A defensora da causa nuclear Sama Bilbao y Leon, diretora da Associação Mundial Nuclear, testemunhou a transformação da energia nuclear de tabu a solução potencial. Durante anos, antinucleares dominaram o debate climático, mas, nesta COP, o tom mudou: com grandes potências, como Estados Unidos e França, e países emergentes, como Quênia e Nigéria, promovendo a expansão de suas capacidades nucleares.
O primeiro-ministro da República Tcheca, Petr Fiala, resumiu o otimismo atual: “Acredito firmemente que a energia nuclear é essencial para atingir as metas climáticas.”
O Novo Interesse pela Energia Nuclear
Vários fatores estão impulsionando a energia nuclear para o centro do palco nas discussões climáticas:
- Segurança Energética: Com a guerra na Ucrânia, países da Europa Oriental, como Romênia e Polônia, buscam alternativas ao gás russo, vendo na energia nuclear uma fonte de energia segura e estável.
- Complemento às Energias Renováveis: Países como Reino Unido e Estados Unidos apontam a necessidade de uma fonte de energia constante para complementar a geração solar e eólica, que variam com o clima.
- Compromisso dos EUA: A administração Biden divulgou um plano ambicioso para triplicar a capacidade nuclear americana até 2050, com apoio bipartidário no Congresso.
O governo americano também anunciou um empréstimo de US$ 979 milhões para o desenvolvimento de reatores na Polônia e está incentivando reatores menores, como os da startup NuScale na Romênia, para ampliar o uso da tecnologia nuclear de forma acessível.
Desafios e Controvérsias
Apesar do entusiasmo, a expansão da energia nuclear enfrenta obstáculos. O Japão, por exemplo, expressa ceticismo sobre os altos custos e incertezas envolvidas. Países como Alemanha e Japão abandonaram a energia nuclear após acidentes, e o risco de acidentes e a gestão de resíduos nucleares ainda geram preocupações.
Do lado ambientalista, grupos como a Acción Ecológica do Equador protestaram contra a inclusão da energia nuclear nas soluções climáticas. “A energia nuclear não é limpa se considerarmos a poluição envolvida em sua produção,” disse Ivonne Yanez, presidente do grupo.
Por outro lado, defensores nucleares, como o grupo Nuclear for Climate, promovem a ideia de que a radiação gerada por usinas nucleares é mínima e segura, com analogias para desmistificar o tema. Um deles, inclusive, comparou a radiação de uma usina nuclear a de uma banana.
Energia Nuclear: Essencial ou Complementar?
Com países de diferentes perfis adotando a tecnologia nuclear como peça-chave de suas estratégias climáticas, a COP29 reforça a tendência de considerar a energia nuclear como uma ferramenta na transição para uma matriz energética livre de carbono. Entre apoio crescente e críticas, a energia nuclear se consolida como uma parte relevante do debate global, sinalizando uma mudança na percepção de líderes e público quanto a seu papel na luta contra a crise climática.

