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Crítica de Cinema: “Maria Callas” – Um Retrato que Não Faz Justiça à Diva da Música Clássica

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O filme “Maria Callas”, que estreou nesta quinta-feira (16), tinha a ambiciosa proposta de explorar os últimos dias da lendária cantora lírica, considerada por muitos a verdadeira definição de diva da música clássica. Dirigido por Pablo Larraín, o longa marca o encerramento de sua trilogia sobre mulheres icônicas, iniciada com “Jackie” (2016) e seguida por “Spencer” (2021). No entanto, o resultado final é um filme que não está à altura da grandeza de sua biografada.

Uma Representação Pouco Inspiradora

Apesar de suas qualidades técnicas, como a belíssima fotografia de Ed Lachman, os elegantes figurinos e a direção de arte impecável, “Maria Callas” falha em capturar a essência da personagem-título. A narrativa, escrita por Steven Knight, opta por uma abordagem convencional e fragmentada, deixando o espectador sem um entendimento mais profundo da complexidade de Callas. O roteiro apresenta a diva como alguém distante e arrogante, o que dificulta a criação de empatia, mesmo nos momentos mais dramáticos.

O filme acompanha Callas, interpretada por Angelina Jolie, em uma espécie de exílio na Paris dos anos 1970, convivendo apenas com seus empregados, Ferruccio (Pierfrancesco Favino) e Bruna (Alba Rohrwacher). Enquanto relembra momentos difíceis de sua vida, como os traumas da Segunda Guerra Mundial e seu tumultuado relacionamento com o magnata grego Aristóteles Onassis (Haluk Bilginer), Maria decide retomar sua carreira musical. No entanto, enfrenta os limites de sua voz, já desgastada, enquanto revive dores do passado.

Falhas no Roteiro e na Execução

O roteiro peca por apresentar situações desconexas, que pouco acrescentam à construção da personalidade de Callas. Questões relevantes, como seu relacionamento com Onassis e o impacto de sua carreira na vida pessoal, são tratadas de forma superficial. Além disso, momentos que poderiam trazer tensão ou surpresa são previsíveis, como uma tentativa de criar mistério sobre um dos personagens, que é facilmente desvendado nos primeiros minutos.

Outro problema crítico está na execução musical. Jolie estudou canto lírico para as cenas em que Callas se apresenta, mas a mistura de sua voz com gravações da cantora original muitas vezes não convence, revelando falhas de sincronização que comprometem a imersão. Para um filme sobre uma das maiores vozes da história, esse deslize é imperdoável.

Angelina Jolie: Uma Atuação Irregular

No papel principal, Angelina Jolie entrega uma performance intensa, mas que em vários momentos parece exagerada. Sua interpretação é marcada por expressões dramáticas que muitas vezes soam artificiais, como se buscasse claramente a atenção da Academia para uma possível indicação ao Oscar. Ainda assim, há momentos em que a atriz brilha, especialmente em cenas emocionais, como a conversa de Callas com sua irmã (Valeria Golino) ou o confronto com John F. Kennedy sobre a infidelidade de Onassis.

O restante do elenco cumpre bem seus papéis, com destaque para Pierfrancesco Favino, como o leal mordomo, e Kodi Smit-McPhee, que traz um toque de leveza ao filme como um repórter que se torna confidente de Callas. Contudo, a dinâmica entre os personagens parece estar sempre a serviço de engrandecer Jolie, o que nem sempre é alcançado.

Méritos Visuais e Atmosféricos

Se há um ponto em que “Maria Callas” realmente se destaca, é na recriação do ambiente da época. A fotografia de Ed Lachman captura com maestria a Paris dos anos 1970 e as memórias do passado de Callas, com cenas em preto e branco que evocam um tom nostálgico. Os cenários, repletos de detalhes, ajudam a reforçar a sofisticação da personagem, ainda que a narrativa não consiga explorar plenamente sua profundidade.

“Maria Callas” é um filme que tinha tudo para ser memorável, mas acaba se perdendo em escolhas narrativas frágeis e uma execução que não faz jus à grandiosidade de sua protagonista. Embora conte com aspectos visuais e técnicos de qualidade, a falta de emoção e a representação desinteressante de uma figura tão fascinante deixam a sensação de uma oportunidade desperdiçada.

Para quem já conhece e admira a história de Maria Callas, o filme pode frustrar. Para os que ainda não a conhecem, será um retrato raso e distante de uma mulher que foi muito maior do que o longa consegue transmitir.

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