O aumento das temperaturas no Brasil já não é mais um risco distante: ele começou a redesenhar, de forma silenciosa e profunda, a vida nas florestas do país. Mesmo em áreas oficialmente protegidas, espécies de aves enfrentam perdas severas, revelando que a crise climática avançou para dentro dos últimos refúgios naturais. O alerta é do biólogo Pedro Develey, diretor da SAVE Brasil, organização dedicada à conservação das aves e de seus habitats.
Os dados confirmam a gravidade do cenário. Segundo a atualização mais recente da Lista Vermelha da IUCN, 61% das espécies de aves do mundo estão em declínio populacional. No Brasil, 138 espécies já figuram como ameaçadas, conforme levantamento da BirdLife International. O calor excessivo, combinado à perda de habitat, tornou-se um fator decisivo nessa equação.
“Não basta apenas manter a floresta em pé. Precisamos pensar em ações de manejo que garantam a sobrevivência dessas populações”, afirma Develey. Um dos impactos menos visíveis — e mais críticos — é a redução de insetos causada pelo aumento das temperaturas. Muitas aves dependem diretamente deles para se alimentar. Com menos comida disponível, a reprodução cai e as populações entram em declínio. “As aves estão nos avisando do que está acontecendo”, alerta.
Na Amazônia, o papa-formiga-de-topete ilustra bem essa fragilidade. A espécie vive associada às formigas de correição, capturando os insetos que elas afugentam. Com o calor alterando esse equilíbrio, até mesmo florestas intactas deixam de oferecer condições adequadas. “O ‘calorão’ já interfere diretamente nessa dinâmica”, explica o biólogo.
Na Mata Atlântica, o risco é ainda mais dramático. O crejoá, ave de plumagem vibrante e altamente exigente quanto ao habitat, pode desaparecer completamente caso a temperatura suba 5ºC. “Ele perde 100% da área de distribuição e não consegue se adaptar”, diz Develey. Mudanças na vegetação, provocadas pelo aquecimento, tornam o ambiente simplesmente inviável.
Espécies extremamente restritas, como o bicudinho-do-brejo-paulista — hoje presente em apenas seis municípios de São Paulo — enfrentam um cenário ainda mais delicado. Pequenos distúrbios climáticos já são suficientes para comprometer toda a população.
Um estudo publicado em 2025 por pesquisadores da UFRJ analisou mais de 20 mil modelagens e concluiu que, mantido o ritmo atual do aquecimento global, mais de 90% das espécies brasileiras sofrerão impactos negativos. Cerca de 25% correm risco real de extinção por perda de habitat climático.
Ainda assim, há caminhos possíveis. Limitar o aquecimento a 1,5–2ºC, como prevê o Acordo de Paris, pode reduzir pela metade o número de espécies ameaçadas. Conectar áreas protegidas, investir em reflorestamento e envolver comunidades tradicionais são estratégias-chave.
“As aves são mensageiras do clima”, resume Develey. “Elas estão mostrando agora o que pode acontecer em larga escala se não agirmos rápido.”
As aves estão dando o alerta 🌡️🐦 O calor já ameaça espécies brasileiras, mesmo dentro das florestas protegidas. #CriseClimatica #MeioAmbiente
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