Entrar no MASP, a partir de agora, é atravessar uma grande rede de relações. Do segundo ao sexto andar do Edifício Pietro Maria Bardi, a exposição Histórias da ecologia ocupa todos os espaços expositivos do museu e propõe um deslocamento profundo: olhar a ecologia não como paisagem distante, mas como trama viva que envolve corpos, territórios, memórias e disputas. A mostra segue em cartaz até 1º de fevereiro de 2026.
Reunindo mais de 200 obras de artistas, ativistas e movimentos sociais de 28 países, a coletiva internacional coloca em diálogo comunidades, ecossistemas e temporalidades diversas. Colômbia, Islândia, Japão, Nova Zelândia, Peru e Turquia são alguns dos pontos desse mapa expandido, que recusa a ideia de uma natureza separada da experiência humana.
A curadoria de André Mesquita e Isabella Rjeille parte de uma premissa clara: ecologia é um sistema de relações entre humanos e mais-que-humanos. Animais, plantas, rios, florestas, montanhas, fungos e minerais compartilham o mesmo plano de existência. “Não conseguimos pensar a natureza separada do humano”, resume Mesquita. A exposição assume, assim, um viés político ao evidenciar como gênero, raça e classe atravessam a crise climática global.
Organizada em cinco núcleos — Teia da vida; Geografias do tempo; Vir-a-ser; Territórios, migrações e fronteiras; Habitar o clima —, a mostra constrói uma narrativa linear que se expande a cada andar. Em Teia da vida, cosmovisões indígenas e disputas de poder se encontram, como no vídeo The Political Life of Plants, de Zheng Bo, que transforma uma caminhada pela floresta em reflexão científica e sensorial.
Geografias do tempo rompe com a lógica ocidental da linearidade. O artista indígena Aycoobo apresenta um calendário amazônico guiado pelas transformações da floresta, enquanto Ana Amorim traduz o tempo urbano em registros noturnos íntimos e repetitivos. Já em Vir-a-ser, obras de Rosana Paulino e Castiel Vitorino Brasileiro exploram hibridismos, metamorfoses e existências que escapam às categorias fixas.
O núcleo Territórios, migrações e fronteiras evidencia deslocamentos forçados e ecocídios. A escultura Refugee Astronaut XI, de Yinka Shonibare, sintetiza essa errância contemporânea: corpos à deriva, marcados por perdas ambientais e políticas. Por fim, Habitar o clima reúne práticas artísticas que imaginam outras formas de ocupar o mundo. Destaque para a instalação inédita de Cristina T. Ribas, que reflete sobre as enchentes no Rio Grande do Sul e suas marcas na geografia e na vida de mais de 650 mil pessoas.
Histórias da ecologia integra o ciclo curatorial de 2025 do MASP e reforça a noção plural de “Histórias”, que acolhe ficção, ciência, ancestralidade e ativismo. Ao final do percurso, a sensação não é de encerramento, mas de continuidade: a crise climática não é um evento isolado, e a exposição deixa claro que pensar ecologia é, antes de tudo, repensar como habitamos o planeta — agora e daqui para frente.
Ecologia não é paisagem: é relação, disputa e futuro em construção. #MASP #ArteContemporânea
disponível para venda na Amazon: https://a.co/d/0gDgs0S
