Há livros que não pedem leitura apressada. Eles exigem pausa, respiração funda e certa coragem para seguir adiante. “Retratos de Mulher”, novo livro da escritora e professora Jeanine Geraldo, nasce desse lugar incômodo onde a literatura deixa de ser abrigo e passa a ser espelho. Em 19 contos inéditos, a autora investiga uma pergunta simples e, ao mesmo tempo, inesgotável: o que significa ser mulher?
Quarto livro de sua trajetória e o primeiro lançado pela editora Urutau, a obra constrói um mosaico de experiências femininas atravessadas por violência, silenciamento, culpa e sobrevivência. O horror, aqui, não vem do sobrenatural. Ele se manifesta no cotidiano, nas relações de poder, nos gestos aparentemente banais que moldam destinos.
O conto de abertura, “A enforcada”, apresenta uma narrativa que flerta com o terror clássico apenas para desmontá-lo. A história é narrada do ponto de vista de uma menina que acompanha o pai, vigia noturno, em seu local de trabalho. Entre galpões vazios e histórias assustadoras contadas por um “tio”, o medo ganha contornos concretos. O impacto do texto não está no susto, mas na revelação: a violência mais devastadora não precisa de fantasmas.
Essa escrita nasce, como a própria autora afirma, da forma como ela experiencia o mundo. Mesmo quando não parte do autobiográfico, a narração carrega observação atenta e sensível da realidade. Em “Lençóis Manchados de Vinho”, Jeanine aborda a sexualidade após a maternidade e desmonta a imagem idealizada do maternar. A narradora revela a perda de identidade e o conflito entre desejo, corpo e expectativas sociais, em um texto que incomoda justamente por sua honestidade.
A coletânea também percorre outros territórios: vida e morte, medo e mar, memória e linguagem. Alguns contos assumem caráter metalinguístico, como “Quem tem medo do escuro?”, em que a própria tentativa de lembrar uma história se transforma no centro da narrativa. A literatura olha para si mesma enquanto provoca o leitor a fazer o mesmo.
No conto que encerra o livro, “Retratos de Mulher”, Jeanine propõe uma inversão perturbadora. A personagem é vítima de um sistema opressor, mas também algoz, utilizando os mecanismos legais como forma de vingança. Não há absolvições fáceis. Apenas a constatação de que estruturas violentas produzem ciclos difíceis de romper.
“Retratos de Mulher” se debruça sobre um irreal profundamente real: dores sem nome, fantasmas persistentes e emoções que se acendem no peito de quem lê. Ao transformar inquietação em linguagem, Jeanine Geraldo reafirma a literatura como espaço de confronto — e, paradoxalmente, de reconhecimento contínuo.
Literatura que inquieta, provoca e faz olhar para dentro. “Retratos de Mulher” já nasceu necessário. #LiteraturaBrasileira #MulheresQueEscrevem
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