Há histórias que insistem em retornar, mesmo quando o tempo tenta apagá-las. Em A Dança da Serpente, novo romance de Paulo Stucchi, o passado não repousa em arquivos: ele pulsa, atravessa gerações e reaparece nos corpos e nas escolhas de mulheres marcadas pelo medo que o poder sente do que não consegue controlar. Finalista do Prêmio Jabuti 2024 com O Homem da Patagônia, o escritor e jornalista agora mergulha em um romance histórico atravessado por camadas de ficção contemporânea, ambientado em Sabará (MG).
A narrativa se constrói em duas linhas temporais separadas por quase duzentos anos. De um lado, o século XVIII colonial, onde surge a figura real de Luzia Pinta, mulher escravizada trazida de Angola, reconhecida por seus rituais de cura ligados ao calundu. Mesmo após conquistar a alforria, Luzia foi perseguida, deportada para Lisboa e condenada pela Inquisição Portuguesa — um destino comum a mulheres que detinham saberes espirituais fora do controle oficial.
Do outro lado da história, o Brasil de 1977, em plena Ditadura Militar. É nesse cenário que vivem as irmãs gêmeas Cléo e Clarice, unidas desde a infância por uma conexão espiritual rara. Após uma tragédia, Cléo foge de Sabará, tentando negar os dons herdados das mulheres de sua família. Onze anos depois, retorna à cidade para reencontrar Clarice, agora conhecida como a “Sacerdotisa de Sabará”, figura que atrai seguidores e desperta o temor das elites locais.
O reencontro das irmãs funciona como um ponto de colisão entre passado e presente. Ao revisitar memórias traumáticas, Cléo é forçada a encarar uma herança espiritual que insiste em se manifestar. Stucchi constrói essa travessia com uma escrita intensa e sensorial, revelando como diferentes regimes — religiosos ou políticos — operam de forma semelhante quando se trata de silenciar mulheres que desafiam normas estabelecidas.
A Dança da Serpente investiga, com rigor histórico e sensibilidade literária, os mecanismos de perseguição que atravessam séculos. Ao iluminar trajetórias femininas marcadas pela resistência, o romance dialoga diretamente com questões contemporâneas como misoginia, intolerância religiosa e violência de gênero. Publicado pela editora Jangada, o livro reafirma Paulo Stucchi como um autor atento às continuidades sombrias da história brasileira — e à força de quem insiste em sobreviver a elas.
Quando o passado retorna para cobrar silêncio e coragem. Já leu Stucchi? #LiteraturaBrasileira
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