Morre Manga: o goleiro que parava tudo — menos a própria história
Ele não usava luvas. Exibia dedos tortos como troféus de guerra. Jogava com camisa comprida, short curto e uma personalidade que ocupava todo o gol. Manga, ou Haílton Corrêa de Arruda, partiu nesta terça-feira (8), aos 87 anos, após longa batalha contra o câncer de próstata. E com ele vai uma era em que goleiro era sinônimo de presença — e de polêmica.
Ídolo eterno no Botafogo e no Internacional, campeão em quase todos os clubes por onde passou — incluindo Grêmio, Nacional (URU) e até o Barcelona de Guayaquil — Manga foi muito mais do que um goleiro eficiente. Foi uma figura, um símbolo. Um personagem à parte no futebol brasileiro e sul-americano.
Goleiro de muitos títulos — e de muitos capítulos
Nascido em Recife, Manga ganhou o apelido ainda no Sport, por lembrar o então goleiro do Santos. Mal sabia que se tornaria o “Manga do Botafogo”, um dos maiores rivais do time da Vila Belmiro. No clube de General Severiano, viveu duas gerações históricas: foi o último guardião da era Garrincha, Didi e Nilton Santos, e o primeiro da era Jairzinho, Gérson e PC Caju. Foram 20 taças, entre títulos oficiais e amistosos — o maior vencedor individual da história do clube.
Pela Seleção Brasileira, jogou a Copa de 1966. E embora não tenha sido convocado para outras edições, nunca passou despercebido. Nem em campo, nem fora dele. Quando dizia que “o bicho era certo” contra o Flamengo, provocava a torcida adversária — e geralmente cumpria.
Entre glórias e confusões
Manga também foi protagonista de histórias que beiram o absurdo: foi acusado de suborno por João Saldanha e, anos depois, quase levou um tiro ao confrontar o jornalista durante uma comemoração de título. Essa mesma intensidade o levou a encerrar a carreira no exterior com títulos e prestígio. No Nacional, do Uruguai, levantou a taça da Libertadores e um Mundial. No Equador, terminou como campeão nacional pelo Barcelona de Guayaquil, aos 45 anos.
Últimos tempos, último carinho
Vivendo no exterior, foi aos poucos sendo esquecido no Brasil. Até ser resgatado pela solidariedade de torcedores, amigos e jornalistas em 2020, quando retornou ao Rio de Janeiro para tratamento. Lá, reencontrou o carinho que nunca deixou de merecer. Em dezembro de 2023, recebeu em casa a taça da Libertadores conquistada por seu eterno Botafogo, e se emocionou.
Manga não verá os 88 anos que completaria em 26 de abril. Mas essa data segue celebrada como o Dia do Goleiro — uma homenagem viva à sua história.
Ele não deixou a vida passar. Pegou tudo. Pegou até a eternidade.
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