Há obras que atravessam o tempo sem perder o impacto — ao contrário, ganham novas camadas de sentido. É o caso de “Morte e Vida Severina”, poema dramático de João Cabral de Melo Neto, que volta aos palcos em uma montagem potente da Companhia Ensaio Aberto. O espetáculo faz temporada no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, entre 8 e 18 de janeiro de 2026, reafirmando a atualidade de um texto escrito há mais de meio século.
Dirigida por Luiz Fernando Lobo, com músicas de Chico Buarque e direção musical de Itamar Assiere, a encenação transforma a travessia do retirante Severino em uma crônica global sobre desigualdade, fome e exclusão. Para o diretor, que montou a peça pela primeira vez há 20 anos, o Brasil mudou — e o mundo também. Se antes a fome era associada aos sertões nordestinos, hoje ela se espalha pelas grandes metrópoles, atravessando fronteiras e continentes.
A montagem abandona qualquer leitura regionalista restrita. Os “severinos”, como propõe a encenação, estão agora nas periferias de São Paulo, nas ruas de Paris, nos subúrbios de Nova Iorque e nas margens esquecidas de Berlim. Dados recentes da Oxfam ajudam a dimensionar esse cenário: 1% da população mundial concentra 45% da riqueza global, enquanto quase metade da humanidade vive com menos de 6,85 dólares por dia. A fome, como alerta o espetáculo, não é exceção — é sistema.
Em cena, 25 atores e quatro músicos conduzem o público por uma narrativa densa, poética e politicamente urgente. Gilberto Miranda vive Severino desde a estreia internacional da montagem, realizada no Castelo São Jorge, em Lisboa. O rigor estético se completa com o cenário de J.C. Serroni, iluminação de Cesar de Ramires e figurinos assinados por Beth Filipecki e Renaldo Machado, elementos que contribuíram para os prêmios e indicações recebidos desde 2022.
Mais do que uma remontagem, “Morte e Vida Severina” se apresenta como um espelho incômodo do nosso tempo. Ao dar voz aos severinos de hoje, a Companhia Ensaio Aberto reafirma o teatro como espaço de reflexão, memória e resistência. No palco, a poesia de João Cabral encontra o presente e lembra, sem rodeios, que a morte severina ainda insiste em caminhar ao nosso lado.
Um clássico necessário, mais atual do que nunca. “Morte e Vida Severina” chega ao Sesc Pinheiros em 2026. 🎭🔥#TeatroBrasileiro #CulturaEmCena
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