Longe dos corredores de mármore de Brasília e do ritual solene dos gabinetes oficiais, o poder também circula em chinelos. Às margens da represa de Xavantes, em Ribeirão Claro, no norte do Paraná, o resort Tayayá se tornou cenário de encontros reservados entre o ministro do Supremo Tribunal Federal José Dias Toffoli e nomes influentes do empresariado, do sistema financeiro e da política nacional.
Imagens obtidas pela coluna da jornalista Andreza Matais revelam um desses momentos. No registro, Toffoli surge com camiseta azul-escura, bermuda cáqui e sandálias, aguardando convidados em uma área isolada dos jardins do resort. A cena, capturada em 25 de janeiro de 2023, sintetiza a atmosfera de informalidade que marca o local, frequentemente utilizado pelo ministro como ponto de encontro fora da agenda pública.
O silêncio do entorno é quebrado pelo som de hélices. No heliponto em frente ao jardim reservado, pousa um Eurocopter AS365 Dauphin, helicóptero avaliado em cerca de 12 milhões de dólares. O prefixo da aeronave, PT-PCT, faz referência direta ao BTG Pactual, banco de investimentos comandado por André Esteves. Da aeronave descem, em sequência, o empresário Luiz Pastore, dono do grupo metalúrgico Ibrame, e, minutos depois, o próprio banqueiro.
As imagens mostram Toffoli caminhando até Pastore para um cumprimento caloroso, com abraço e beijo no rosto. Com André Esteves, o gesto é um aperto de mão seguido de um abraço. Em seguida, os três aparecem reunidos em uma roda de conversa, copos de bebida nas mãos, em um ambiente que mistura lazer, discrição e poder de decisão.
O episódio não é isolado. Segundo apuração, o Tayayá se consolidou como um espaço recorrente para encontros do ministro com empresários, banqueiros, políticos, artistas e outras figuras centrais do chamado “PIB brasileiro”. Um território híbrido, onde a formalidade institucional dá lugar a conversas privadas, longe dos registros oficiais e do escrutínio cotidiano da capital federal.
A revelação das imagens reacende o debate sobre os limites entre a vida privada de autoridades públicas e a necessidade de transparência nas relações entre magistrados e agentes econômicos. Embora não haja, em si, ilegalidade explícita em encontros informais, o contexto, os personagens envolvidos e o local escolhido despertam questionamentos sobre a natureza dessas conversas e seus possíveis reflexos institucionais.
Em tempos de vigilância ampliada e cobrança por ética pública, cenas como essa mostram que o poder, no Brasil, nem sempre se exerce sob luzes fortes. Às vezes, ele prefere a sombra das árvores, o silêncio de um resort exclusivo e a informalidade de um encontro à beira d’água — um cenário que diz tanto quanto os próprios gestos registrados em vídeo.
Quando o poder troca o gabinete pelo resort, o cenário também comunica. #PolíticaBrasileira #BastidoresDoPoder
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