Que tipo de homens e mulheres estão saindo dos bancos do Ensino Médio?

 

 

Educação é um direito de todos. Mas qual educação queremos dar aos nossos filhos? Temos o direito de pedir educação para todos, mas garantir que nossos filhos tenham uma educação melhor e mais – uma educação que combine com os nossos valores nas várias opções da inciativa privada, enquanto a maior parte dos pais brasileiros são obrigados a aceitarem a massificação e qualidade inferior da educação pública?

A escola atual está sofrendo o choque das gerações sólida e líquida, ainda segundo Bauman. De uma lado os professores e diretores com suas crenças modernistas de progresso, sindicatos, hierarquia, aulas expositivas e um entendimento do mundo puramente racional. De outro, os alunos que já nasceram em uma sociedade touch screen, colaboradora e sensorial com um entendimento do mundo em que as relações são mais importantes que a posse. O ser supera o ter. Para esses alunos o futuro é construído de pequenos agoras. Por enquanto os alunos estão pagando o alto preço da inadaptabilidade da escola. Eles estão se formando no Ensino Médio sem o mínimo para enfrentarem o mundo lá fora. Podem até passar no ENEM e entrar para uma faculdade, mas carecem de conhecimentos relevantes para viverem uma vida plena – tanto profissional quanto emocional. Cada vez mais escolas — em geral as privadas – estão buscando diminuir esse gap com projetos que trabalhem as habilidades sócio-emocionais de seus alunos. Mas esses projetos ainda são isolados não conversando com a estrutura da escola. Michel Maffesoli, professor da Universidade de Paris, acredita que estamos retornando ao período tribal, em que as sociedades eram organizadas por um sentimento de solidariedade, misticismo e permitiam diversas camadas de identidade.

Vemos renascer hoje o homem plural. Esse homem não cabe mais em uma caixa única e bidimensional. Ele é plural nos seus interesses e áreas de atuação. Ele é uma obra em construção. Enquanto perde-se tempo discutindo a alteração curricular do Ensino Médio e o currículo padrão para todas as escolas (não que não seja importante frear o cancelamento de disciplinas como filosofia e sociologia – as que mais falam para essa nova sociedade, e principalmente que tipo de história estamos repassando para as futuras gerações), perdemos de vista as grandes questões da Escola – qual mundo esse aluno vai viver? Que tipos de conhecimentos e habilidades ele precisa ter para dialogar com essa sociedade? Não a sociedade de hoje, mas a sociedade daqui a 10, 20 anos? Para responder a essas questões precisamos urgentemente abandonar velhas crenças, enxergar o ambiente escolar com novos olhos – desde a decoração das salas de aulas com suas fileiras de carteiras individuais a que tipo de conteúdo estamos priorizando e como ele está sendo construído em conjunto com os alunos. Olhar para trás e aprender com os gregos como eram as Academias e como formar seres humanos completos, acima de tudo pensantes – e não mão-de-obra. A tecnologia hoje nos proporciona uma oportunidade única de sairmos da prisão da sala de aula para conquistar os espaços públicos, para de fato, trazermos a cidade para dentro da escola e levarmos a escola para a cidade – juntas e misturadas. Precisamos de uma vez por todas abandonar a ideia de que educação para todos pressupõe educação pública. Não. Existe um espaço gigantesco para ser ocupado por instituições menores, sem fins lucrativos, e personalizadas com modelos e valores que falem a um pequeno grupo de pais. Sim. Não é porque uma família não tem condições financeiras que ela não pode ter liberdade de escolha que tipo de educação quer para seu filho.

O Terceiro Setor é a personalização dos valores da sociedade tribal que Mafessoli nos fala – construção de uma rede solidária em torno de interesses em comum e liberdade de movimento e mudanças. Em resumo, uma alta conectividade com as duas pontas interessadas: o público beneficiado e o público que financia a instituição. Claro, que aqui não estou falando de ONGs que vivem de doações do governo, mas sim daquelas que estão no mercado atendendo uma demanda e buscando recursos na iniciativa privada, a qual prestam contas do resultado e por ele são avaliadas. O brasileiro precisa perder o medo da iniciativa privada, deixar para trás a dependência de um estado inchado e principalmente abraçar a participação da sociedade civil nas questões mais sensíveis como educação e saúde. A reforma da escola só será verdadeira quando tirarmos as vendas dos olhos e começarmos a discutir o papel da escola para a sociedade que ela está inserida, sem medo de ferir sensibilidades pessoais e sindicatos. Quando a sociedade, como um todo, entender que educação é um problema de todos e não do governo. Quando pais assumirem a co-responsabilidade nas escolas que seus filhos estudam, sejam elas públicas ou privadas. Aí sim vamos ter uma discussão relevante sobre educação no Brasil.

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Sobre Anna Gabriela Malta (17 artigos)
Anna Gabriela Malta é fotógrafa documentarista e gestora da instituição sem fins lucrativos Sociedade Providência, dedicada a educação de crianças de baixa renda na Zona Sul do RJ. Acredita no trabalho de formiguinha para transformar o mundo através da educação e do envolvimento de cada um na sociedade. agmalta@gmail.com

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