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América, uma caixinha de surpresas

Foto: Anna Gabriela Malta

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– A mídia não está sendo justa. Eu estava lá. Não dava para se mexer de tão lotado. – Não estava não. É só ver as imagens de 2009 e de sexta. A administração Trump está negando todas as evidências… e agora com esse papo de “fatos alternativos”? O que é isso?

Estou no trem de Washington para Chicago depois de ter participado desses dois eventos tão distintos: a posse do Trump e a Marcha das Mulheres. Já contei que adoro viajar de trem? Trens não são sobre ir correndo de um ponto a outro.  São viagens em si. Encapsuladas.

Nesse trem em particular – 18horas de viagem!, dois terços eram anti-Trump e foram à Washington exclusivamente para protestar – na posse e/ou na Marcha no dia seguinte.  Um terço era de eleitores de Trump que foram comemorar a vitória na posse na sexta-feira. Não podiam ser mais diferentes. Mas no trem sentaram juntos e aproveitaram a oportunidade para baixar um pouco a guarda e conhecer o outro lado.  Tempo era o que não faltava!

David é o típico eleitor do Trump – branco, 47 anos, nasceu em West Virginia e hoje mora em Ohio onde trabalha em sistemas para uma corporação de petróleo. Mora em uma casa grande no subúrbio e dirige dois carros – fez questão de mostrar as fotos. Foi a Washington comemorar. Finalmente o país estava se voltando para si.  Apesar da alegria de ter ganho a eleição e participado de um dos bailes de posse, o incomoda o sentimento de ódio em ambos os lados. Pergunta o que o futuro nos reserva se continuarmos a ensinar ódio e rancor em relação a quem pensa diferente de nós. Acredita que depois de Obama e Trump em algum momento os EUA encontrarão um ponto no meio do caminho.

Richard, 70 anos, vestindo roupas camufladas, gastas do tempo e com a barba por fazer é um  aposentado de Chicago. Foi à Washington para marchar em defesa da sua neta. Se emocionou ao falar sobre estar entre tantas pessoas protestando por direitos iguais – quando na verdade já era tempo de não precisamos mais fazer isso, contou ele. Sua filha, mãe da sua neta, é eleitora de Trump. Richard perguntou a ela por que? – Porque ele é um de nós. – Mas e Hillary, perguntei? Ela sim é uma de nós.  Ele fez que sim com a cabeça e encolhendo os ombros disse que é preciso que cada um ache a sua voz. Ele nunca tentou influenciar seus filhos, mas dar espaço para que eles se encontrem.

Duas Américas bem distintas e distantes entre si geograficamente – eleitores de Trump se concentram no meio dos EUA e nas cidades médias e pequenas, enquanto os liberais estão localizados nas costas e nos grandes centros. Ambos querem a América Great Again (slogan da campanha do Trump) mas acreditam que o que faz a América Great são coisas diferentes. Diferem basicamente em relação a tudo: imigração; impostos; saúde; educação e a lista continua…

 

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Foto: Anna Gabriela Malta

Durante a Marcha, no sábado, conversando com a Sally levantei a questão de uma parte da América ter encontrado eco em Trump. Ela disse estar tentando entender essa mensagem ainda. Ela acredita que a eleição dele deve dizer alguma coisa sobre uma parcela de americanos que se sentiram abandonados no meio do processo para tornar a América mais liberal e segura para todos. Que é preciso levar essa parcela em consideração e tentar entender como estão se sentindo.  Confessei a ela que fui a posse no dia anterior para tentar entender e conhecer de perto os eleitores de Trump (realmente estava vazia, mesmo comparando a segunda posse de 2013 do Obama), mas não consegui me conectar. E olha que tenho minha parcela republicana… Mas Trump é um animal a parte. Ele não é republicano ou democrata. Ele é Trump.  Pura e simplesmente. Com um quê narcisista que namora de perto o fascismo. Ele assusta. Assim como alguns de seus eleitores. São minoria, mas ganharam um megafone.

Foto: Anna Gabriela Malta

Cheguei hoje à Chicago e já me apaixonei pela Windy City. Vamos ver se até o final da viagem consigo encontrar mais pessoas que possam me ajudar a entender essa nova America de Trump.

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