Em boa companhia

Foto: Anna Gabriela Malta

 

 

Ano novo, vida nova. Sim? Não para mim. Nunca fui muito apegada a essa história de passagem de ano. Brinco, me divirto mas não sinto frio na barriga nem a expectativa crescendo dentro de mim. Não sonho acordada. Viagem solo, sem rumo ? 100%. A leveza toma, afasta as preocupações, cola um sorriso no rosto… a expectativa e o frio na barriga fazem o seu ninho, se aconchegam. Todos os sentidos despertam e afloram. Me sinto mais viva e inteira.

 

Por que estou falando isso agora? Estou na contagem regressiva para mais uma dessas grandes aventuras. Viajo para os EUA, com destino a Washigton para fotografar a posse do presidente-eleito Trump e a passeata das mulheres no dia seguinte para um projeto foto-documentário chamado Uma Janela para América (conheça um pouco mais no blog do projeto aqui). Em 2013 rodei 25 estados americanos, de trem, fazendo sempre a mesma pergunta a quem encontrava – O que você acha da América? O resultado são duas séries de fotografias: uma de retratos com um quadro negro em que cada um teve a chance de dar voz a sua opinião e, outra mais documental do dia-a-dia, fruto da minha observação. Retorno agora, quatro anos depois, a mesma Washington. Depois de 8 anos do primeiro presidente negro, os EUA terão agora o seu primeiro presidente ‘reality show’. Espero voltar em breve para fechar o projeto com a posse da primeira presidente mulher.  www.awindowtoamerica.wordpress.com

 

Mas voltando a viagens solo sem rumo. São libertadoras. Assustadoras… reveladoras.
Revelam muito mais sobre nós mesmos do que o destino em si. Somos obrigados constantemente a confrontar nossos medos e seguir adiante. Livres. Pode não acontecer nada. Pode acontecer tudo! Pode dar muito certo tanto quando pode dar muito errado. Depende de quanto estamos abertos e dispostos a ir ao encontro do outro. Depende principalmente de quanto nos conhecemos.  Sim, para viajar solo é pré-requisito gostar da própria companhia. Enfrentar o desconhecido com a bengala do álcool ou qualquer tipo de droga é fácil. Difícil é se colocar lá consciente de suas limitações. Estou falando aqui de pequenas coisas, nada muito complexo, como por exemplo flanar por uma cidade desconhecida, sem guia ou grupos de apoio. Ou ainda sentar em um restaurante sozinha para jantar. Vou confessar que levei um bom tempo para ter coragem para entrar em um restaurante sofisticado e pedir uma mesa para um. Lembro de passar sempre em frente a um restaurante que adorava quando morei alguns meses em Paris e não tinha coragem de entrar porque estava sozinha. Só ia quando acompanhada. Quase no final da temporada criei coragem e quebrei a barreira. Mais uma de muitas. E foram muitas desde a primeira vez que me vi sozinha em Amsterdã sem falar a língua ou conhecer alguém. Depois de chorar sentada na cama de um quarto mínimo e me perguntar uma dezena de vezes o que eu estava fazendo lá (era a conexão para Paris, e uma vez que nunca tinha ido porque não aproveitar alguns dias para conhecer?), tomei um bom banho e saí. Rodei por perto do hotel, almocei por ali e na fila da casa de Anne Frank conheci duas libanesas que estavam hospedadas um quarteirão do meu hotel. Resultado? Curtimos as noites indo de bar em bar e ainda fizemos alguns dos pontos turísticos nos dias seguintes. Amizades de viagens – passageiras mas intensas, uma das grandes vantagens de se viajar solo. Em pouco tempo nos abrimos ao outro, mostrando o mais profundo do nosso eu, sem medo. Afinal, cada um vai seguir para um lado… Ou gostamos tanto desse nosso lado e o do outro também, que resolvemos ficar mais um pouco… porque a pressa? A viagem não tem um destino fechado. É flexível, está aberta a surpresas…

Depois de Amsterdã e Paris, vieram o Caminho de Santiago de Compostela – primeira viagem de trekking e mochileira da minha vida! Me descobri a cada bolha, a cada obstáculo, a cada mão estendida para ajudar. Aprendi a ouvir meu corpo e a questionar os limites. Bangkok é um capítulo a parte. Primeira vez abrindo mão dos conhecimentos de línguas estrangeiras para falar em português mesmo, afinal não entendiam uma só palavra. Tchau inglês, francês, portunhol e bem-vindo sorrisos e a boa e velha mímica! Nunca ri tanto! Pessoas saindo do seu caminho para me ajudar a chegar nos lugares. O ser humano é incrível! Tem um autor americano que adoro, John Steinbeck, que fez uma viagem de costa a costa pelos EUA e no seu livro Travels with Charlie in search for America (Charlie é seu fiel escudeiro, um poder gigante) dá várias dicas de como viajar solo. Uma delas que é infalível é pedir ajuda. Nada melhor para abrir uma conversa. Bangkok foi a prova dos nove. A outra é a certeza que o outro é interessante. Basta fazermos as perguntas certas e silenciarmos para ouvir a história que surge a nossa frente. Pronto! Um mundo de oportunidades se abre. Me fascina conhecer uma pessoa e ouvir a sua história. Ser convidada para um café, passado na hora, em  um apartamento-cubículo em Havana com direito a salsa ou tomar uma cerveja em um rooftop em uma das mansões a beira mar de Charleston, Carolina do Sul, no por do sol. Ir ou não ir. Frio na barriga. Pode tanto dar tudo certo quanto pode dar tudo errado. Você. Dois caminhos. Uma escolha. Essa é a beleza da viagem solo. Não dá para dividir a responsabilidade das escolhas. É tudo ou nada por sua conta. E são tantas as possibilidades…

3-img_1689

Foto: Anna Gabriela Malta

Viajo para conhecer histórias. Para ter experiências. Não me pergunte qual o melhor restaurante ou a loja da moda. Mas se quiser saber onde encontrar pessoas circulando pela cidade com bodes pigmeus como cachorros em coleiras vou saber.

Steinbeck abre seu livro na primeira página já afirmando que ‘uma viagem é uma pessoa por si só; não existem duas iguais’. Volto quatro anos depois a Washington para a posse de mais um presidente americano, mas tenho certeza que não vou encontrar pessoas como Anna Elaine, da Georgia que foi com as irmãs, filhas, sobrinhas e netos assistir pela segunda vez algo que ela imaginou impossível na sua adolescência quando andava nos bancos de trás dos ônibus, reservados à pessoas de cor no sul dos EUA – um presidente negro. Quem eu vou encontrar em 2017? Uma caixinha de surpresa… conto quando descobrir. Feliz 2017! Desejo um ano com muitas histórias, surpresas e aventuras!

Anúncios
Sobre Anna Gabriela Malta (17 artigos)
Anna Gabriela Malta é fotógrafa documentarista e gestora da instituição sem fins lucrativos Sociedade Providência, dedicada a educação de crianças de baixa renda na Zona Sul do RJ. Acredita no trabalho de formiguinha para transformar o mundo através da educação e do envolvimento de cada um na sociedade. agmalta@gmail.com

1 comentário em Em boa companhia

  1. Queria ter essa coragem de viajar só…… Lindo !!!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: