Pau-brasil: a árvore que nomeou o Brasil e agora luta para não desaparecer
Pau-brasil: a árvore que nomeou o Brasil e agora luta para não desaparecer
Cinco séculos depois de ser explorado à exaustão pelos colonizadores, o pau-brasil — símbolo do nascimento econômico do país e que deu nome à nação — ressurge como elemento-chave de recuperação ambiental e cultural em territórios indígenas, fazendas agroflorestais e até na indústria musical. A árvore, que já foi sinônimo de riqueza imperial, hoje precisa de esforços organizados para sobreviver no século XXI.
Em Aracruz (ES), indígenas da etnia tupiniquim assumem a vanguarda na preservação da espécie. Após décadas de monocultivo de eucalipto, que secou nascentes e empobreceu o solo, plantios de pau-brasil e outras espécies nativas estão ajudando a restaurar a fertilidade da terra e a reativar cursos d’água.
A engenheira florestal Bárbara Tupinikim representa essa nova geração. Ela alia ciência acadêmica à sabedoria ancestral para desenvolver sistemas agroflorestais sustentáveis com pau-brasil, feijão, frutas nativas e essências. “Estamos em um processo de restauração produtiva”, afirma. A iniciativa também é uma alternativa econômica, com sementes nativas sendo comercializadas por cooperativas indígenas.
Outro exemplo vem da Bahia, onde o agricultor Edmond Ganem plantou milhares de mudas para sombrear cacaueiros. O sistema cabruca, tradicional da Mata Atlântica, aproveita o pau-brasil para fixar nitrogênio, reter umidade e regenerar o solo — além de melhorar a qualidade dos cultivos.
Por outro lado, entraves legais e burocráticos travam a expansão de projetos. Para abater uma árvore plantada legalmente, o produtor precisa provar a origem e obter o Documento de Origem Florestal (DOF) — algo que esbarra na falta de integração entre sistemas estaduais e federais. Sem isso, não se avança nem na pesquisa, nem na produção legal de itens como arcos de violino, que dependem da madeira.
O pau-brasil está na lista de espécies ameaçadas desde 1992, e seu uso é altamente restrito. Ainda assim, o contrabando persiste, como revelado pela operação Dó-Ré-Mi, da Polícia Federal, em 2018. A indústria nacional de instrumentos musicais sofre: produtores legais enfrentam entraves, enquanto o mercado internacional lucra com madeira extraída ilegalmente.
Há também iniciativas como a da Fundação Nacional do Pau-Brasil, liderada por Ana Cristina Roldão, filha do professor Roldão de Siqueira Fontes — responsável por plantar, direta ou indiretamente, quase 3 milhões de mudas da espécie. Com recursos próprios, ela mantém viva a missão de multiplicar e proteger a árvore que batizou o Brasil.
O que está em jogo?
O futuro do pau-brasil depende da regularização legal dos plantios, do estímulo à pesquisa e do fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis. Mais que uma árvore simbólica, o pau-brasil é solução agroecológica, resgate histórico e potencial econômico ainda inexplorado.
Em tempos de urgência climática e reconstrução identitária, o pau-brasil pode voltar a ser — com raízes firmes e galhos abertos ao futuro — parte da resposta que o país precisa dar ao mundo e a si mesmo.
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