Antes do fim anunciado: os padrões invisíveis do feminicídio no Brasil
Análise revela que o crime raramente surge sem avisos
A female leaning against the wall looking down in a hallway with blurred background in Alcatraz Island, SF.
Os dados não gritam, mas insistem. Em meio a pilhas de processos, votos e acórdãos, uma narrativa se repete com precisão inquietante. O feminicídio no Brasil, longe de ser um ato isolado ou imprevisível, segue trilhas conhecidas — e ignoradas. É o que revela uma análise inédita da Turivius, plataforma de inteligência jurídica, ao examinar 29.882 decisões judiciais relacionadas ao crime.
Somente em fevereiro de 2025, foram registradas 676 decisões de segunda instância sobre feminicídio, o maior volume desde a criação da qualificadora, em 2015. Em comparação, no mesmo mês de 2020, eram 214 julgamentos — um salto de 216%. No acumulado do ano, já são 5.731 decisões, sinalizando que 2025 pode se tornar o ano com maior número de julgamentos da série histórica. O aumento não é apenas estatístico; ele desenha um retrato persistente da violência contra mulheres.
A leitura automatizada dos dados, realizada pelo GPTuri, assistente de IA jurídica da Turivius, aponta um padrão quase constante: em mais de 85% das decisões há registros prévios de violência doméstica e familiar. Agressões físicas e psicológicas, ameaças reiteradas, descumprimento de medidas protetivas, controle da rotina da vítima e o inconformismo masculino diante do fim da relação aparecem como sinais recorrentes — capítulos anteriores de uma história que termina de forma letal.
Os números dialogam com a realidade fora dos tribunais. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 60% dos feminicídios ocorrem dentro da residência da vítima. Em aproximadamente 70% dos casos, o autor é o companheiro ou ex-companheiro. A casa, que deveria ser espaço de proteção, se transforma no cenário final de uma escalada de violência.
Para Danielly Vieira, coordenadora de Customer Success da Turivius e especialista em Direito e Jurimetria, a previsibilidade do risco é evidente. “Quando analisamos milhares de julgados e percebemos que os mesmos sinais se repetem, fica claro que o sistema poderia atuar de forma mais preventiva”, afirma. Segundo ela, as ameaças e o controle excessivo surgem como alertas antes do desfecho fatal, mas nem sempre são tratados com a urgência necessária.
Nos tribunais estaduais, o padrão se mantém. Em 2025, Minas Gerais lidera o número de decisões, com 978 julgamentos, à frente de São Paulo e Rio Grande do Sul. Os relatos do Tribunal de Justiça mineiro reforçam a lógica da reincidência: a maioria descreve episódios anteriores de agressão e uma progressiva intensificação da violência.
Enquanto isso, fora dos autos, o Observatório da Mulher Contra a Violência contabilizou 718 feminicídios apenas no primeiro semestre do ano. Os números seguem avançando. E a sensação é de que o fim, tantas vezes, já estava anunciado.
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