A saúde mental entra na pauta das empresas brasileiras
Afastamentos por transtornos mentais disparam no país
Há algo silencioso acontecendo nos corredores corporativos, nas cabines de caminhão, nas salas de teleatendimento e até nos hospitais. Não se trata de uma nova tecnologia ou de uma mudança repentina no mercado. É o crescimento constante do adoecimento mental relacionado ao trabalho — um fenômeno que vem redesenhando a relação entre produtividade, bem-estar e organização profissional no Brasil.
Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), analisados pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), mostram a dimensão do problema. Em 2017, cerca de 169 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais. Em 2024, esse número ultrapassou 460 mil casos — um salto superior a 170% em sete anos.
Por trás das estatísticas estão diagnósticos cada vez mais comuns no cotidiano profissional: transtornos de ansiedade, episódios depressivos, depressão recorrente e reações intensas ao estresse. Na prática, isso significa que ansiedade, depressão e esgotamento emocional passaram a ocupar espaço entre as principais causas de afastamento laboral.
Apesar do crescimento expressivo, muitos desses casos não são oficialmente reconhecidos como doenças ocupacionais. Para Ricardo Queiroz, CEO da Flora Insights, startup especializada em gestão de riscos psicossociais, essa lacuna revela um descompasso entre o que acontece no ambiente de trabalho e o que é formalmente registrado.
“Os afastamentos representam apenas a fase final de um processo de desgaste progressivo. O adoecimento começa muito antes, quando o trabalhador opera sob pressão constante e sem espaço real de recuperação psicológica”, explica.
Ao cruzar dados com a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), pesquisadores identificaram setores com maior concentração de afastamentos. Entre eles estão atendimento hospitalar, assistência social, transporte rodoviário, teleatendimento e parte da indústria de transformação.
Mais do que o setor em si, porém, o que parece definir o risco é o modelo de organização do trabalho. Ambientes com pressão contínua, ritmo acelerado e baixa autonomia tendem a concentrar maior vulnerabilidade emocional.
A análise dos dados aponta três padrões recorrentes. O primeiro é o modelo de urgência permanente, comum em operações comerciais e centrais de atendimento, onde a pressão por respostas rápidas nunca diminui. O segundo envolve profissões de alta carga emocional, como saúde e assistência social, nas quais o contato constante com sofrimento humano gera desgaste psicológico contínuo. O terceiro está ligado ao tempo como fator de pressão — realidade de áreas como transporte e logística, marcadas por prazos rígidos e pouca margem para erro.
Segundo Queiroz, esse conjunto forma uma espécie de “geografia organizacional” do risco psicossocial. Antes mesmo dos afastamentos formais, os impactos já aparecem dentro das empresas: queda de desempenho, aumento de erros, deterioração do clima interno e crescimento do turnover.
Diante desse cenário, especialistas defendem que a saúde mental deixe de ser tratada apenas como um problema individual e passe a integrar a gestão estratégica das organizações. Com novas exigências regulatórias e maior pressão social, o tema tende a ocupar cada vez mais espaço no debate corporativo — e também no futuro do trabalho.
Ansiedade, depressão e estresse já estão entre as principais causas de afastamento no trabalho. O debate sobre saúde mental nas empresas nunca foi tão urgente. #SaúdeMental #FuturoDoTrabalho
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