Roberto Tardelli apresenta “O Espelho das Bruxas”
Conhecido por sua trajetória de mais de três décadas no Ministério Público de São Paulo e por sua atuação na área criminal, Roberto Tardelli .
Roberto Tardelli apresenta “O Espelho das Bruxas” ao Linkezine
Conhecido por sua trajetória de mais de três décadas no Ministério Público de São Paulo e por sua atuação na área criminal, Roberto Tardelli . É integrante do IDDD (Instituto de Defesa do Direito de Defesa), da ABJD (Associação Brasileira dos Juristas Democráticos), da Comissão Estadual de Direitos Humanos da OAB/SP e do Grupo Prerrogativas.Colunista da revista Carta Capital, Tardelli também atua como palestrante e conferencista. É autor de “Ainda Não Mudou. Direito e (in)justiça no Brasil” e “O Espelho das Bruxas”, seu livro mais recente, ambos publicados pela Emó Editora. Escritor e colunista da CartaCapital, ele acaba de lançar O Espelho das Bruxas, publicado pela Emó Editora.
Na entrevista ao Linkezine, conduzida pelo jornalista Josué Bittencourt, Tardelli fala sobre o novo livro, sua escrita e os caminhos que o levaram a transformar experiências e reflexões sobre Direito, justiça e sociedade em literatura.
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Depois de mais de 30 anos no Ministério Público e de atuar em julgamentos de grande repercussão, o que levou você a transformar essa experiência em literatura? Em que momento percebeu que a ficção poderia dizer algo que o Direito, por sua própria natureza, não consegue alcançar?
Tardelli : Quando me despedi do Ministério Público, em 2014, escrevi uma carta em que fazia algumas promessas tardias. Uma delas era escrever mais coisas da vida e menos coisas da lei. Levei doze anos para cumpri-la, o que, para quem passou três décadas convivendo com prazos processuais, pode até ser considerado pontualidade. O Direito trabalha com a certeza, ou ao menos precisa fingir que a tem. Um processo começa com uma denúncia e termina com uma sentença; no meio, tudo o que não cabe em autos vai sendo cuidadosamente descartado. O medo, a culpa, o desejo, a solidão que eu via nos olhos de tanta gente sentada no banco dos réus, nada disso tem número de folha. A literatura, ao contrário, vive exatamente daquilo que o processo joga fora. Não houve um momento de iluminação, confesso. Houve um acúmulo. O caso Richthofen me tirou do gabinete e me colocou diante do país; de promotor, virei um contador de histórias que viajava de faculdade em faculdade. Em algum ponto percebi que as perguntas que as pessoas me faziam não eram jurídicas. Ninguém queria saber do artigo 121. Queriam entender como alguém chega àquele ponto. O Direito não responde a essa pergunta, nem pretende. A ficção pelo menos tem a honestidade de tentar, e a elegância de não carimbar a resposta.
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2. “O Espelho das Bruxas” coloca no centro da narrativa personagens marcadas por traumas, violência e desejo de reparação. Como você trabalhou literariamente a fronteira entre justiça e vingança, especialmente quando a dor de uma vítima começa a interferir na maneira como ela compreende o que seria fazer justiça?
Tardelli : Essa fronteira é muito menos nítida do que os manuais gostariam. Passei a vida inteira ouvindo que a justiça é a vingança civilizada, domesticada pelo Estado, e passei boa parte dela desconfiando de que a domesticação às vezes falha, e o sistema simplesmente veste a vingança de toga. No livro, eu não quis resolver essa tensão. Quis habitá-la. Lilith e Circe são duas mulheres marcadas pelo mesmo passado, e a dor que carregam é legítima; ninguém tem o direito de lhes dizer como sofrer. O problema começa quando a dor passa a redigir a sentença. A vítima tem todo o direito à sua dor, mas a dor é uma péssima juíza: não admite recurso, não conhece dúvida razoável e raramente se satisfaz. A literatura me permitiu fazer algo que o tribunal nunca permitiu: acompanhar esse deslizamento de dentro, sem precisar pedir condenação nem absolvição ao final. Como promotor, eu tinha de escolher um lado às sete da noite de um dia qualquer. Como escritor, posso ficar olhando, e deixar que o leitor sinta o desconforto de concordar com quem não deveria. Se em algum momento ele se pegar torcendo pelas bruxas, e depois se perguntar por quê, o livro terá feito o trabalho dele.
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3. O livro também aborda o chamado “julgamento paralelo” e a exposição de crimes nas redes sociais. A partir da sua experiência profissional e agora como escritor, o que mais mudou na maneira como a sociedade acompanha e interpreta casos de violência?E quais são os riscos quando a opinião pública passa a ocupar o lugar de investigador, juiz e, às vezes, executor de uma sentença?
Tardelli : Quando o caso Richthofen foi a júri, em 2006, a exposição já era enorme. Havia fila na porta do Fórum, câmeras em cada esquina, especialistas de ocasião na televisão. Ainda assim, para condenar alguém, era preciso ao menos o esforço de sete jurados isolados, sem celular, ouvindo acusação e defesa por dias a fio. Hoje o veredicto chega por notificação, e o conselho de sentença tem alguns milhões de integrantes, nenhum deles incomunicável. O que mudou não foi o apetite. Esse sempre esteve aí; toda sociedade quer punição, e poucas conseguem superar esse desejo. O que mudou foi a escala e a velocidade. Na carta de despedida, falei de uma fúria condenatória que via crescer dentro das instituições. Não imaginei que ela seria democratizada com tamanha eficiência.O risco é que se inverte tudo o que o processo penal levou séculos para construir. O tribunal das redes não conhece contraditório, não admite a dúvida e não prevê prescrição: a pena é perpétua e o arquivamento, impossível. No júri, eu costumava lembrar aos colegas que não existe bola dividida: havendo dúvida razoável, não há culpado. Nas redes, a dúvida é tratada como cumplicidade. E a vítima, curiosamente, não sai dali protegida. Vira conteúdo, e conteúdo tem prazo de validade.
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4. Lilith e Circe carregam marcas profundas de experiências traumáticas. Ao construir essas personagens, você buscou investigar não apenas o crime, mas também suas consequências psicológicas e afetivas? Que papel o trauma ocupa na estrutura de “O Espelho das Bruxas”?
Tardelli : Buscar o crime nunca me interessou tanto quanto buscar o que sobra dele. O processo termina, transita em julgado, vai para o arquivo. O trauma não. O trauma é a única coisa que desconhece a coisa julgada. Uma das lições que levei tempo demais para aprender foi a de chamar as pessoas pelo nome. Réu e vítima são palavras que retiram o rosto de quem as carrega; servem ao processo, não às pessoas. Ao escrever Lilith e Circe, quis fazer o caminho de volta: devolver nome, voz e interioridade a quem, na vida real, costuma aparecer apenas como qualificação nos autos.O trauma é, de certo modo, o espelho do título. É nele que as personagens se enxergam, e é por ele que se deformam. A violência sexual na infância e a violência contra a mulher, que atravessam o livro, não são cenário nem tempero de suspense; são a estrutura que sustenta tudo. Não quis explicá-las, porque explicar é quase sempre uma forma de encerrar o assunto. Quis mostrar como elas continuam operando anos depois, em escolhas que parecem livres e não são. Um thriller costuma perguntar quem fez. Este livro prefere perguntar o que foi feito com quem sobreviveu.
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5. Você chega ao Rio de Janeiro para lançar o livro em 9 de outubro, na Blooks de Botafogo. Depois de concluir essa passagem do universo jurídico para o thriller psicológico, o que você gostaria que permanecesse no leitor ao fechar “O Espelho das Bruxas”: uma reflexão sobre justiça, uma inquietação sobre a violência ou a percepção de que a literatura pode revelar dimensões humanas que os processos judiciais não conseguem registrar?
Tardelli : Como advogado, aprendi a não me contentar com um pedido só; aprendi a formular pedidos cumulativos. Fico, portanto, com as três alternativas, e peço que sejam deferidas em conjunto. Mas, se tiver de escolher uma, fico com a inquietação. Na despedida do Ministério Público, prometi nunca mais permitir que certezas se instalassem na minha mesa de trabalho. Gostaria que o leitor fechasse o livro com a mesma desconfiança: das próprias convicções, dos julgamentos rápidos, da facilidade com que todos nós, em algum momento, nos sentimos autorizados a sentenciar. E, de quebra, que perceba que os processos judiciais registram muito, mas nunca registram tudo. Há uma parte da verdade humana que não cabe em termo de audiência, e é justamente ali que a literatura trabalha. Chegar ao Rio para falar disso, em Botafogo, numa livraria, e não num plenário, é para mim uma pequena revanche da vida sobre a lei. Espero encontrar ali leitores dispostos a conversar. E um último pedido, este sem qualquer ironia: não basta comprar o livro. É preciso lê-lo.


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