Grupos da machosfera questionam voto feminino em eleição marcada por ataques a candidatas
Monitoramentos apontam ofensivas digitais e discursos que tentam deslegitimar direitos políticos das mulheres
Grupos da machosfera questionam voto feminino em eleição marcada por ataques a candidatas
Monitoramentos apontam ofensivas digitais e discursos que tentam deslegitimar direitos políticos das mulheres
A eleição de 2026 terminou, mas deixou um alerta que ultrapassa a disputa pelas urnas. Enquanto candidatas enfrentaram uma onda de ataques nas redes sociais, grupos ligados à chamada machosfera passaram a dar visibilidade a discursos que questionam um direito básico da democracia: o voto feminino.
Um levantamento do MonitorA, divulgado pelo InternetLab, identificou 1.101 ataques contra candidatas no X desde o início da campanha eleitoral, em 16 de agosto. Em 15 de outubro, 1.083 dessas publicações continuavam disponíveis. O estudo acompanhou mensagens dirigidas a 143 mulheres que participaram da disputa.
Em outro recorte, realizado entre 1º e 4 de outubro, foram analisados 2.202 comentários publicados em perfis de candidatas no Instagram, YouTube, X e TikTok. Cerca de 31% foram classificados como ofensivos. Entre os principais alvos estavam Erika Hilton, Marina Silva e Simone Tebet, atingidas por mensagens relacionadas à identidade de gênero, à idade e, sobretudo, à condição de mulher.
O debate ganha uma dimensão ainda mais preocupante quando se observam os discursos que circulam em comunidades masculinas online. Pesquisa da Fundação Getulio Vargas analisou 126 publicações sobre o voto feminino em 18 comunidades abertas da machosfera no Telegram, entre dezembro de 2020 e julho de 2026. Em 87% dos conteúdos examinados, havia manifestações explicitamente contrárias ao direito das mulheres de votar.
Para o economista Erik “Ahanti” Camarano, que há mais de duas décadas trabalha com grupos de homens, parte dessas correntes interpreta a ampliação dos direitos femininos como uma perda masculina. Essa inversão de perspectiva, segundo ele, ajuda a transformar conquistas históricas em alvo de ressentimento político.
Das redes sociais, o tema chega inevitavelmente ao debate institucional. A nova composição do Congresso, que assume em 2027, terá maior presença de partidos classificados à direita, enquanto a representação feminina na Câmara chegará a 109 deputadas — 21,2% das cadeiras. O percentual ainda está distante da participação das mulheres no eleitorado brasileiro.
A discussão sobre misoginia também permanece aberta no Legislativo. O avanço de propostas voltadas ao enfrentamento de crimes motivados por ódio às mulheres mostra que o problema deixou de ser apenas uma questão de comportamento nas redes.
A intimidação digital, porém, produz efeitos concretos: silencia vozes, afasta mulheres do espaço público e cria obstáculos à participação política. Quando o debate passa a questionar quem pode votar ou ocupar espaços de poder, o que está em jogo não é apenas uma eleição. É a própria qualidade da democracia — e uma discussão que, ao que tudo indica, continuará muito além de 2026.
Quando ataques às candidatas e discursos contra o voto feminino ganham espaço, a democracia também entra no debate. #PoliticaBrasileira #DireitosDasMulheres
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