Ex-comandante Geral da Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro,coronel Ibis é entrevistado pelo Blog.

Foto : Josué Júnior / BlogVersãoMacuina

 

Ex-comandante Geral da Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro,coronel Ibis Pereira Silva um oficial de carreira que hoje está na ONG ViVa Rio,concedeu essa entrevista para o Blog do Versão Masculina.Com uma visão apontada para o futuro ele fala de educação, cidadania e Rio de Janeiro.

Coronel da Policia Militar Ibis Silva Pereira

Por Josué Júnior

Agradecimento : Cezar Tanner

Antes de ingressar na Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro, qual era o seu pensamento sobre a Policia de modo geral ?

Ibis Silva Pereira : Eu fui um jovem muito pobre, eu continuo pobre, entrei na Policia Militar basicamente porque precisava de um emprego. Fazia faculdade; na verdade sou órfão de pai. Meu pai era ferroviário, mas morreu muito cedo, se suicidou quando eu tinha 1 ano e 7 meses , deixou minha mãe pensionista do INSS. Então, minha mãe conseguiu me educar com muita dificuldade, lavando roupa para fora costurando, e em um determinado momento da minha vida eu me senti um fardo para a minha mãe. Fazia faculdade, os livros muitos caros, estudava no fundão naquela época. Faculdade era para rico, filho de pobre entrava na faculdade com muita dificuldade apesar de ser uma escola pública; os livros eram muito caros. Então a policia entrou na minha vida como uma opção, eu morava em Anchieta, a academia de oficiais era muito próxima da minha casa, então meu  ingresso foi um jeito de aliviar a minha mãe, no sentido dos meus estudos e ao mesmo tempo a proximidade da casa onde morava com ela, iria me permitir estar sempre próximo. A academia é em Sulacap, eu morando em Anchieta eu só pegava um ônibus. Eu tinha um pensamento sobre a Policia que qualquer jovem pobre da periferia tem, é um misto de temor, medo e respeito, eu nunca tive na minha adolescência nenhum problema com polícia, mas eu tinha um certo receio da policia. Mas foi a necessidade de não me tornar um peso para a minha família foi maior ( Nós éramos 3, eu , minha mãe e meu irmão), ,então eu entrei na policia por uma questão basicamente pragmática. E acabei gostando da Policia, e vi que a Polícia era uma profissão de um trabalho muito nobre e pode ser gratificante e te dar dignidade, então acabei me apaixonando pela policia; como sou apaixonado até hoje. E o que começou com uma escolha racional, por que foi o que a vida me apresentou em um determinado momento, acabou sendo uma coisa afetuosa amorosa.

 A polícia de hoje enfrenta muitas dificuldades que não é só desse momento e sim de outros governos. Como é enfrentar a tropa todo dia se falta muitos subsídios para alimentá-la?

Ibis : Os problemas que a gente coloca na segurança pública são seculares, são problemas que estão entranhados no estado brasileiro, que a gente está tentando superar isso com muita dificuldade. Eu acho que a primeira coisa que temos que fazer para superar essas coisas todas é ter um bom projeto, primeiro convicção, saber o que você quer fazer, e passar essa crença, essa determinação para os seus subordinados, através daquilo que a gente costuma chamar de exemplo. Então, apesar de toda dificuldade, quando se tem clareza aos desafios que se tem, aos objetivos que uma política de segurança deve ter e aos meios para atingir esses objetivos, e através do exemplo, você consegue superar as crises e as dificuldades de ordem financeira que a gente está assistindo ai.

 Quando as UPPs tiveram seu início elas foram alvo de estudo de muitos sociólogos e muitos jornalistas comemoravam o ir e vir da população que lá vive. Hoje, por diversas razões, estamos vendo uma deterioração do projeto em algumas áreas. Sem procurar culpados, quem ou o que foi o maior causador dessa deterioração?

Ibis : Uma causa você já apontou na tua pergunta o entusiasmo. Eu acho que nós comemoramos cedo demais, e essa nossa comemoração precipitada de achar, de supor que a gente tem que resolver o problema da criminalidade entupindo favela com policiais. Essa euforia dos primeiros momentos deixou que a gente expandisse esse programa de uma maneira rápida demais, sem que um conceito e sem que a crítica do que a gente estava fazendo tivesse amadurecido suficiente para a gente expandir na velocidade que expandiu. O primeiro problema talvez tenha sido esse sucesso inicial, que pode ser um paradoxo, mas o primeiro grande problema foi o sucesso que impediu que a gente olhasse, que a gente olha até hoje com aquele olhar crítico que é fundamental para qualquer ideia inicial frutificar.

Então, eu acho que esse foi o primeiro problema, o segundo problema que me parece muito evidente é que a UPP começou com um programa e até hoje, apesar de tudo que se diz, ela não conseguiu se transformar em uma política pública, ela não é uma política pública. Eu digo política pública em um sentido amplo de ser ou de compor um conjunto,  harmonioso, coordenado de outras ações. Dou o  exemplo para ilustrar o que eu quero dizer. Todo mundo sabe que anualmente a policia perde uma grande quantidade de pessoas que se aposentam, que se fere em serviço, que se licenciam, a baixa é superior a mil por ano. Então, desde 2008 quando esse programa começou, todo o esforço foi carreado para esse  programa, então todos os batalhões que continuaram com a responsabilidade de atender a população no asfalto deixaram de ser realizadas. Isso é falta de política pública. Se a gente tivesse uma política de segurança pública adequada, com uma visão mais ampla, a gente não teria permitido esse desequilíbrio, porque isso é uma política de pessoal, isso é uma política de segurança básica.

Ibis 2

Foto : Josué Júnior / BlogVersãoMacuina

 Foi algum erro de estratégia?

Ibis : Eu diria que foi o nosso entusiasmo. É claro que foi um erro de estratégia. Foi isso! È indiscutível dizer que não foi  tapar o sol com a peneira, como a sabedoria popular costuma dizer. Agora esse erro de estratégia, tem muito a ver com a realidade da tragédia muito particular do carioca. Com relação a isso na questão de segurança, essa cidade já chegou a ter 50 mortos por 100 mil habitantes no inicio dos anos 2000, então a gente tem que tentar compreender um pouquinho isso. Quando a UPP começa em 2008 e a gente de uma hora para outra começa a descer as taxas de homicídios ali nas primeiras comunidades. Isso evidentemente entusiasmou a todos e a gente embarcou nessa experiência esquecendo que segurança pública é muito mais do que policia. E outro grande problema, a gente não pode esquecer que há uma demanda por drogas, então a gente não pode colocar policias em um território onde se vende drogas. Essa demanda não diminui sem repensar a política de drogas, é uma ingenuidade, beira a ingenuidade você colocar policiais em território que vende drogas sem discutir, sem repensar política de drogas, e é o que está acontecendo agora em alguns territórios. O tráfico, inicialmente, muda sua estratégia depois, passa a ficar entusiasmado também pela retomada dos territórios, então enquanto não discutir a política de drogas a gente não vai avançar, porque a gente não vai vencer essa questão que não é só no Brasil, é uma questão contemporânea com guerra, não é essa, definitivamente, a melhor estratégia. Outra coisa também que acabou contribuindo nessa crise no programa que estamos vivendo hoje, é a questão do tráfico de armas. Essa é uma questão que a gente precisa do governo federal; a gente precisa que ele se engaje de uma maneira efetiva no controle de armas, essas armas continuam chegando no Estado do Rio de Janeiro. Porque a gente precisa ter em nível nacional, é claro que em nível estadual também, mas principalmente em nível nacional. Precisamos de uma política mais efetiva de controle de armas. Então isto é o que poderia ser feito, todas essas ações que estou falando aqui que envolvem, não apenas o governo estadual, mas também o federal. Isto é o que poderia catapultar o programa das unidades pacificadoras efetivamente, em uma política pública de segurança. Agora enquanto nós continuarmos reduzindo a policia, que é o que estamos vendo, quando se fala de segurança pública, a gente fala em policia a gente não vai a lugar nenhum.

 Como você vê o crescimento populacional das comunidades e fazendo um paralelo com a violência, o abandono e a falta de oportunidade. Qual seria o caminho para essas crianças que estão quase perdidas? Você acredita que a lei da maior idade penal ajudaria a conter aqueles que pensam em entrar para o crime?

Ibis : Primeiro que crescimento populacional no Brasil seja problema. Acho que pelo contrário, temos um território imenso. Brasil é um dos países maiores do mundo, a densidade demográfica no Brasil é relativamente baixa, penso que gente não é problema. Agora pessoas abandonadas é problema. Se temos uma população crescendo, se tem uma juventude crescendo,  que tá ai chegando para o mercado de trabalho e chegando despreparada para o mercado de trabalho para procurar emprego em um pais onde há todo o apelo pelo consumo, onde o jovem vê  sua identidade pelo consumo, afirma sua identidade com o tênis que ele usa ou com a roupa de grife que ele usa, porque é assim que somos educados. A gente é educado para se sentir mais gente se utilizarmos, ou a bugiganga que o mercado empurra na nossa garganta, 24 horas por dia através dos veículos de comunicação, ai temos um grande problema porque o garoto, vai querer usar a mesma roupa de marca que o coleguinha está usando, pois ele está sendo educado para isso, ele está sendo educado para desejar comprar. Então enquanto nós enxergarmos nossa cidadania pelo quanto se pode comprar, vamos viver em um inferno. Cidadania é mais do que isso,  muito mais do que isso. E esse país aqui se quiser deixar de ser uma Republica de Banana!!!  Ele precisa investir maciçamente em Educação , Educação , Educação, Educação , mas não é só educação. Para você se transformar em consumidor, Educação para você aprender a viver com o outro, educação para cidadania, educação no mais amplo dessa expressão. Penso que aqui temos um grande desafio, temos um estatuto da juventude. Caramba! O Brasil  fez um estatuto que é uma legislação extremamente avançada, princípio e lógica.  Se você pega o estatuto da juventude você vê um programa que é tão  didático, que ele ensina a fazer política pública para essa garotada, para essa juventude. Agora qual é a política pública no Brasil para esses jovens? Qual é? Jovem pobre e morador de periferia!!! Qual é a política pública para essa juventude a não ser policia? Então o grande desafio que temos nesse país é acordar para o desafio da educação, o Brizola já dizia isso  lá na década de 80. O Brizola disse isso lá atrás, falou que se a gente não botasse essas crianças na escola, teríamos problemas no futuro e estamos tendo. Essa garotada aí, que agora temos jovens de 14 anos  no tráfico. Temos hoje uma garotada de 25 anos que ficou fora. Então isso não se trata de profecia, isso se trata de uma mínima visão; a longo prazo teremos dificuldade com isso. Aqui sempre temos que resolver tudo agora! O que precisamos fazer é plantar uma sementinha aqui para dar fruto daqui a 20, 30 anos.

  Essa semente se chama Educação?

Ibis : Esse é o nome não tem outro. Tem que educar se você quiser ter crescimento econômico, você tem que ter mão de obra qualificada. Adianta abrir uma indústria de primeiro mundo aqui e ai  vem técnico de fora, não adianta então no mundo, ou melhor em uma sociedade do conhecimento que é o que parece ser ,ou você educa ou você vai estar sempre na periferia do conhecimento, do mundo, E é claro que uma elitezinha vai estar sempre bem enquanto uma massa de miseráveis vai ter que, cada vez mais ,ser administrada por policia. Então esse país é Educação, Educação e Educação. Esse outro ponto que você aborda que é outro aspecto grave da nossa sociedade é  a redução da lei da maior idade penal. Parece, ao meu ver, ser uma discussão  altamente equivocada, se temos, de fato tem adolescentes que estão ingressando no mundo, não me parece, e eu respeito profundamente quem pensa diferente, que o código penal seja remédio para isso se tem adolescentes ingressando no mundo do crime, temos que tirar esse adolescente, acenar para esses garotos com o código penal é desistir deles. Em 2010, se entrar no site do ISPER,  eram presos 2000 adolescentes, em 2015 foram presos 10.000, em cinco anos foi quintuplicado o número de adolescentes apreendidos. Isso não resolve. Agora querem botar esses meninos na cadeia, isso vai resolver? A nossa população carcerária é imensa. Em 2010 ainda tá lá no ISPER, nas estatísticas, prendeu-se em 1 ano e pouco, mais de 19  mil pessoas, em 2015 foram mais de 40 mil, e está tendo resultado. O Brasil hoje tem uma das maiores populações carcerárias do mundo, alguém se sente seguro com isso, o direito penal em um estado democrático de direito, ele só serve para uma coisa, conter o poder punitivo, usar o direito penal como promessa para que as pessoas se sintam mais seguras,  é mentira! Isso é propaganda enganosa! Se quisermos viver em uma sociedade mais segura, temos que fazer aquilo que a constituição diz lá, que é construir uma sociedade mais justa, mais livre e mais solidária. O caminho é esse, se a gente quiser viver com mais paz temos que ter mais justiça social, não é mais policia, não é mais cadeia e não é mais direito penal. Enquanto se apostar nisso vamos viver em um inferno e infelizmente aqui no Brasil, que ainda tem uma sociedade muito hierarquizada, uma sociedade que não gosta de justiça social, não gosta de igualdade, quando se fala nisso parece que está se falando uma maluquice, mas o direito penal também serve para isso,  serve para hierarquizar a sociedade e colocar os excluídos no lugar deles. É para isso que serve em última análise. Então quanto mais ampliar o escopo do direito penal, mais violento seremos. O caminho é da justiça social e da educação, como diz a constituição de 1988. Muito sabia, e acertadamente. Um estado de direito não pode ter a terceira população carcerária do mundo. Se é assim que queremos construir uma sociedade livre e igualitária, é melhor parar!  Não trancando que vamos construir essa tal sociedade livre,  justa e solidária.

  Olimpíadas! Fala-se muito sobre o assunto e até alguns acreditam que o Rio pode sofrer atentado terrorista. Realmente estamos prontos? Faltam algumas arestas para serem resolvidas? Está tudo tranquilo e favorável? Rsrs

Ibis : Eu acredito em Deus,  tenho muita fé que essas olimpíadas correrão bem. Como Deus é brasileiro acho que tudo vai ficar bem. A minha preocupação é depois das olimpíadas. E tenho orado mais ainda por conta disso.

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Foto : Josué Júnior / BlogVersãoMacuina

  Você tem algum recado para a Cidade do Rio de Janeiro? Não é um alerta e sim qual o caminho que podemos seguir?

Ibis : Acho que a primeira coisa que temos que entender é que essa cidade é nossa. Nossa! Nossa! De todo o carioca, essa cidade é de quem mora no Leblon, de quem mora na Fazendinha, Santa Cruz, Favela do rola, Favela do Aço.  Essa cidade é de todos nós!  A partir do momento que tivermos essa compreensão, a de que todos têm o direito a essa cidade, direito a esse estado, e que segurança pública tem que envolver a todos nós. Ver uma pessoa baleada em uma favela isso tem que me incomodar, ainda que eu não more lá, mesmo morando no Leblon de frente para o mar. A sorte de quem mora na favela tem que me afetar, se isso não acontecer vou viver em um inferno. Eu vou viver dentro do meu condomínio, eu vou ter que usar carro blindado. Temos que entender que estamos no mesmo barco. Esse é o recado que eu quero dar, estamos no mesmo barco! E a sorte de todo mundo depende dessa consciência, enquanto uns se sentirem no convés e não se preocuparem com quem está no porão, ai não vai ter cidade para todos. Ou essa cidade é de todos ou não será de ninguém. É esse  o recado!

 

 

Sobre Josué Júnior (145 artigos)
Josué Júnior, carioca, fotógrafo profissional pós- graduado pela faculdade Cândido Mendes. Há mais de dez anos no mercado fotográfico com ênfase em moda e publicidade. Atualmente fotografa para o site Versão Masculina, especializado em comércio de produtos masculinos. Em sua empresa Arte foto Designer, desenvolve seu trabalho autoral, que pode ser apreciado na sua pagina : www.facebook.com/fotosjosuejunior?ref=bookmarks ,ou em seu Instagran .https://www.instagram.com/josuelbjr/

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