A Improvável Jornada de Harold Fry

O texto de hoje é dedicado a você, que vai partir para a folga do feriadão de Corpus Christi. Para aproveitar os dias livres, nada melhor do que uma boa leitura.

 

Devo dizer que as primeiras páginas de “A Improvável Jornada de Harold Fry” não me empolgaram muito, porém, à medida em que o protagonista avançava em sua longa caminhada, conhecendo novas pessoas e paisagens, o livro foi  ganhando profundidade e significado. Talvez justamente aí é que resida um dos pontos altos da trama escrita por Rachel Joyce: traduzir, no ritmo da narrativa, a insossa vida de Harold até o momento em que ele recebe uma carta de Queenie, uma ex-colega de trabalho e amiga com quem perdeu contato havia mais de 20 anos, dando a notícia de que ela está sofrendo com um câncer terminal. Aos 65 anos de idade, o pacato aposentado acorda para a vida e, na tentativa de salvar a amiga (que tudo indica ter sido mais do que uma amiga), sai de casa apressado para enviar sua resposta pelo correio.

No caminho, Harold reflete sobre o texto que escreveu em resposta e, como tudo na sua vida até então, percebe que o conteúdo é frio e não traduz nenhuma das emoções que a mensagem de Queenie despertou nele. Durante o trajeto de sua casa até um posto do correio, Harold toma a decisão mais incrível de sua vida e decide partir de Kingsbridge rumo a Berwick a pé. Detalhe: 800 quilômetros separam as duas cidades, que ficam nas extremidades sul e norte da Inglaterra respectivamente. Não é só a vida de Harold que sofre uma transformação, a lenta narrativa inicial também acompanha e, agora sim, “A Improvável Jornada de Harold Fry” prende a atenção do leitor.

O aposentado sai apenas com a roupa do corpo, sem celular e seus sapatos docksides, deixando a esposa Maureen, com quem tem um casamento fracassado, para trás. Durante a trajetória, Harold supera uma a uma as limitações que ele mesmo havia imposto a si, conhece novas pessoas, quebra o gelo de sua timidez tipicamente inglesa e se libera de todas as amarras que o prenderam  ao longo da vida. Em meio à mudança de cenário à beira da estrada, Harold revisita o passado, da infância sofrida até o conflito com o filho, David, desnudando o quebra-cabeça que compõe a sua própria existência. Enquanto marcha para salvar a vida de Queenie, o protagonista reconhece erros, percebe injustiças cometidas e vai dando novos significados à sua vida. Em determinado momento, Harold se vê cercado de seguidores e sua caminhada ganha destaque da imprensa inglesa. As pessoas se juntam e se separam dele com a mesma rapidez das relações virtuais!

A jornada de Harold é uma bela metáfora sobre a vida,  um percurso cheio de desafios, medos, sombras e luzes. Após colocar um pé à frente do outro de forma incessante, Harold percebe que partiu de Kingsbridge para Berwick com o objetivo de salvar Quennie, mas, na verdade, ele salvou a si mesmo!

Vou parar por aqui para finalizar a leitura do livro. Dessa vez, quis escrever enquanto “caminhava” ao lado de Harold Fry. Agora é hora de deixar esse fantástico personagem seguir o próprio rumo…

Bom feriadão e boa leitura!

Sobre Antonio Munró Filho (15 artigos)
Formado em Jornalismo e Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Grande do Sul (PUCRS), tem larga experiência na área de comunicação. Entre 2001 e 2012 trabalhou na Zero Hora e O Sul, dois dos principais jornais do Rio Grande do Sul. Em 2012, deixou Porto Alegre para viver novos desafios no Rio de Janeiro, ao assumir a assessoria de comunicação de uma seguradora de atuação nacional. Cativado pelo universo corporativo, especializa-se na área de Marketing Digital pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Apaixonado por Literatura, mantém o blog cultural Alegria de Ser o que É (www.alegriadeseroquee.wordpress.com.br), no qual escreve sobre livros, filmes e música.

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