Entrevista com o Coronel Ubiratan Ângelo.

Foto : Divulgação

Coronel Ubiratan Ângelo, nasceu e foi criado em um morro da cidade do Rio de Janeiro e tem uma grande admiração pelo seu pai. Quando jovem prestou vestibular para UFF para matemática, mas a vida mostrou outro caminho e assim, ele entrou para a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, construiu uma carreira que o levou ao cargo máximo da Polícia Militar. Na gestão do governador Sergio Cabral, Coronel Ubiratan se tornou Comandante Geral da Policia Militar. Hoje ele segue como Coordenador de Segurança Humana do Viva Rio.

 

Entrevista com o Coronel Ubiratan Ângelo

Agradecimentos: Celina Côrtes e Vivian Guimarães- Viva Rio

 

Por Josué Júnior

 

   Quando criança, o senhor pensava em ser policial militar no Rio de Janeiro?

Ubiratan Ângelo: Nunca! Meu sonho de infância era ser trocador de bonde. Por quê? Porque, era o cara que tinha o dinheiro. Na época, era ele que andava com o dinheiro entre os dedos; aquilo me fascinava. Para mim, ele tinha o dinheiro! Já a minha infância foi maravilhosa, eu sou oriundo do morro de São João, minha mãe era lavadeira, meu pai serralheiro e eu, era moleque e a gente teve uma vida de pobre, uma vida apertada. Meu pai era muito inteligente, se ele tivesse 10% do estudo que eu tive, nem sei aonde ele chegaria, pois ele tinha um raciocínio para a matemática muito grande, uma boa percepção, escrevia mal, mas lia muito bem. Era um serralheiro de mão cheia, muito procurado. A máxima dele era: “ Temos que ter um teto e panela cheia! “. A única missão dele era isso. Lembro que galinha com batata era o almoço de Domingo, pois na favela era assim, quando o cara aparecia com a galinha debaixo do braço todo mundo já sabia que era o almoço de domingo. A polícia entrou na minha vida porque meu pai não ensinou a profissão dele para que eu pudesse estudar, ele só foi explicar isso quando eu já estava casado. Só que eu gostava de ter um dinheirinho. Quando criança vendia bala no cinema, fazia carreto na feira, e engraxava sapato perto do cinema. Até que um dia, descobri que sabia mais matemática do que os meus amigos. Aí quando fiquei adolescente decidi ser professor de matemática e investi meu estudo nisso. Então em 1975 eu mesmo pagava o pré-vestibular do Hélio Alonso. Passei no vestibular para matemática na UFF, fui o 10º. colocado no vestibular da UFF. Só que antes, um cara da minha turma do vestibular deu a ideia de fazer uma prova para a escola de Oficiais da Polícia, e eu nem sabia que existia isso. Fiz a minha inscrição no último dia, e eu passei nos dois. Fiquei na dicotomia, o meu sonho ou a polícia? Pensei como matemático da UFF, a licenciatura iria levar 4 anos, mais livros, passagem, comida e no final do curso, eu sou um pretinho favelado com o canudo debaixo do braço, procurando um emprego. Escola de Oficial da PM leva 3 anos interno, então eu teria casa, comida, uma ajuda de custo para eu pagar a minha passagem. E aí, no final de 3 anos eu sou um Oficial da Polícia com uma carreira, e posso até voltar e fazer matemática. Com isso, aconteceu o inesperado, fiquei apaixonado pela polícia.

 Depois que o Estado do Rio de Janeiro decretou estado de calamidade pública, podemos dizer que as UPPs estão sucumbindo perante a sociedade? 

Ângelo: Bem, são duas coisas apartadas que nunca se encontram como duas paralelas, e o K (constante), está lá na frente. O estado de calamidade foi decretado pela crise financeira. Não entendo muito sobre a questão política e financeira. Mas uma coisa é certa, para um Estado que tem como sua área central o lugar que já foi capital de dois países, o Rio de Janeiro já foi capital do Brasil e já foi capital de Portugal, em 1808 na época que a corte estava aqui. E chegar a um ponto desses, sendo o segundo maior estado do Brasil. Isso é uma má gestão pública.  Essa dúvida eu não tenho.

  O senhor coloca a culpa em quem?

Ângelo: Coloco a culpa no Governo! O governo é composto de três elementos: Executivo, Legislativo e Judiciário. Acho que houve uma incongruência na percepção do que estava para acontecer e não foi por falta de aviso. Nessa linha, a UPP acaba sendo uma das vítimas também, pela inconsequência administrativa. Digo isso por causa da falência da UPP. Na gestão política partidária, a UPP ficou como o primeiro programa de segurança pública, e como primeiro passa a ser o principal. Só que ele foi o único. Diga outro programa de segurança que o Rio de Janeiro já teve?

Nenhum!

 

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Foto : Tamiris Barcellos

 

Foi um projeto que não deu certo? Ou podemos ter esperança?

Ângelo: A UPP é um projeto que tinha tudo para dar certo, mais foi hiperutilizado. Ele não foi hipervalorizado. Ele foi hiperutilizado e pouco valorizado. Por quê? Porque a UPP aparece no final de 2008 para 2009. Ela começa no Morro Dona Marta. Você vê que teve todo um prelúdio para iniciar. Vou lembrar: A polícia civil faz uma operação e acha várias armas escondidas; armas que estavam debaixo da terra. É uma favela que merece um carinho, fica em uma área nobre no entorno, então houve todo um preparo de investimento, um preparo de investimento social para o Dona Marta, aí entra a UPP. Foi um início silencioso. Com isso houve todo um aparato de mídia, foi colocado para ser dirigido, o comando da UPP, por uma mulher. Então teve todo um aparato de marketing muito bem feito acompanhado de um investimento social e um investimento privado. Por quê? Porque ele era um programa de governo! Então ela aparece como solução para reduzir a taxa de letalidade violenta, ou seja, os homicídios começam a cair a partir de pontos onde tinha mais homicídios. Isso serviu como grande marketing para garantir a segurança dos eventos que estavam por vir, como Copa das Confederações e Copa do Mundo, e lá na frente para que a gente pudesse ganhar, e foi com base nisso que tivemos a segurança nas Olimpíadas. Basta lembrar como eram as propagandas das Olimpíadas para o COI. No dia do anúncio, lá na sede do COI, estava uma comitiva brasileira e junto a ela estava a comandante do Dona Marta. Essa foi a única vez que se viu uma comandante da Policia Militar fazer parte da propaganda de governo, com vista de uma conquista da cidade do Rio de Janeiro de ser a sede dos jogos Olímpicos. Então é só buscar na memória que será lembrado, ela estava lá. Eu achei válido porque ganhar a sede Olímpica tem toda uma questão econômica, turismo, imagem. Só que o detalhe é que faltava algo. Ganhou? Faltava agora o quê? Pois bem! Vamos a um fenômeno político. Em 2006 houve eleição para governador, Sergio Cabral era o candidato, e dentro da sua plataforma tinha a questão da segurança pública, e nesse momento houve pela PM um seminário chamado a “Polícia que Queremos” e desse seminário diversas propostas foram entregues para os candidatos ao governo de estado. Se você olhar tudo que estava nessas propostas, fora as questões tecnológicas que não eram pensadas antes, para o reforço do policiamento das favelas porque já existia o GPAI, não precisava botar o nome UPP. O nome UPP é o nome político com que se começou o projeto ali. Só que já tinha começado em 1993, com o nome de GAP, e em 2000 o Garotinho colocou com o nome GPAI (Grupamento de Policia Militar Especiais), e o Cabral deu uma nova roupa com o nome Unidade de Policia Pacificadora. As diferenças que tiveram foram GAP e GPAI, que foram programas de polícia, já a UPP é um programa de Governo.  Então, o programa cresceu muito com  Dona Marta e Cantagalo, pois foram juntos com os programas sociais.

 Então existe uma esperança?

Ângelo: Claro que sim! Precisamos é injetar em conjunto as UPPs com os programas sociais, pois sem isso não dá certo. Agora é preciso lembrar que sem dinheiro também não se faz nada. Aí vem a pergunta: até quando a iniciativa privada estará junto? Porque quando ela sai, sai o dinheiro. Temos uma questão, os números de UPPs, está maior que as dos Batalhões, e cada área circundada de UPP tem um batalhão, que tem um número menor de homens que a UPP um uma área imensa. Eu lhe pergunto, e agora José?

 Coronel, estamos em Guerra? Com tantas armas entrando no estado e com nossas fronteiras abertas, e com a quantidade de balas perdidas para todos lados, tendo como consequência o   aumento dos índices de mortos na cidade. Presumo que existe sim, uma guerra não declarada em andamento? O que o senhor acha?

Ângelo:  A revista Veja de 1981 diz que o Rio de Janeiro está em guerra. Estamos falando de um período que ainda tinha regime militar na década de 80, então olha quanto tempo já estamos em guerra. As armas não entram para combater a polícia, elas entram pelo boom da droga. Veja, a droga abaixa o preço do consumidor final, com isso, aumenta a demanda e, consequentemente, aumenta a demanda de oferta. Ora! Consequentemente a demanda de oferta é feita com plantio ilegal, transporte ilegal, tratamento ilegal e espaço ilegal para estocar. Então na ilegalidade esses espaços são disputados na força ilegal. Foi assim com o álcool nos Estados Unidos, e é assim com a droga no mundo, onde ela é ilegal. Então essa guerra foi declarada porque todos os ilegais querem os melhores espaços, seja para vender, para estocar, enfim, para tudo. Isso começa a ser um problema de território. Começa com a interceptação nas ruas, e com os transportes de drogas. Com isso, começou a criar o olheiro, o fogueteiro sai e entra o rádio que é tecnologia. Equipes de contenção bem treinadas, tudo isso é para combater as invasões. Só que quando tem uma invasão com o grupo A contra o grupo B, quem vai para lá? A Policia, para evitar o quê? A violência. Digo que não é o tráfico de drogas que a polícia combate, porque se você combate o tráfico de drogas você não deixa a droga chegar. Isso o policial tem que ter em mente. Depois que a droga está naquele local você vai ter uma resposta violenta e você tem que entrar também com uma resposta violenta. Se eu quisesse combater o tráfico de droga eu teria que fazer isso a partir da fronteira. A polícia do estado do Rio de Janeiro não tem conexões internacionais para conter esse avanço.

 E como conter o avanço de armas no Estado?

Ângelo: Temos as responsabilidades federais. Nós temos as mesmas questões em todo estado do Rio? Não! Então temos que pensar nas áreas e nas divisas das áreas onde temos concentração de estoque e concentração de venda. Pegar a área metropolitana do Rio de Janeiro é muito menor do que a fronteira do Brasil, então o investimento é evitar que isso entre na divisa do estado do Rio de Janeiro, que é uma espetacular área de consumo e, consequentemente, uma excelente área de revenda e uma espetacular área de recepção e estoque. Se nós pensarmos em Brasil, é simples, é só cada Estado fechar e fazer um pente fino em tudo que entra e sai. Então a área metropolitana do Rio é menor que a da divisa do Estado. A venda de droga na área metropolitana do estado do Rio é muito menor que a do sul fluminense e do que a do norte fluminense. Você vai tratando onde está o problema. Agora se quiser enfraquecer o tráfico através de incursões que só vai gerar violência nas áreas metropolitanas, você vai ter letalidade da polícia, morte de inocentes e assim por diante. Agora se a gente fechar na fronteira do Estado, teremos outro caminho. Agora temos também que conscientizar os consumidores de entorpecentes. Só existem armas porque existe consumo. Vou exemplificar. Onde você vê conforto e incursões da polícia? Digo na favela! Eu pergunto e no posto 9 em Ipanema? Você vê incursão da polícia? Você vê Caveirão? Claro que não! Por quê? O tráfico na zona sul não é violento, e se não é violento você não vai ter uma resposta violenta.

Créditos_Vitor_Madeira

Foto : Vitor Madeira

O senhor me fez lembrar de uma frase do secretário da polícia Hélio Luz,  que “a zona sul brilha a noite”, o senhor concorda com isso?

Ângelo: Claro que não! Ela brilha o dia inteiro e também a noite! Eu estou complementando o que o Helio Luz disse. A sociedade civil e a sociedade policial têm comportamentos diferenciados com as áreas consideradas nobres economicamente. Isso é uma discriminação social. Isso faz com que haja uma seletividade de injeção de produtos de políticas sociais.

Como o senhor vê o estatuto do menor? Hoje o que temos é população indignada a cada assalto de um menor. A polícia prende e solta. O menor nas ruas fazendo pequenos e grandes delitos?  Esse estatuto já caducou?

Ângelo: Acho que ele não caducou, ele nunca foi usado, é diferente, porque o cara só olha a parte penal, mas não olha o que faltou para ser implementado lá na lei do estatuto, que não foi feito. Então ele não chegou a ser usado, só foi usada a parte criminal. O artigo 4 do estatuto, é extremamente protetivo ao menor, vê se é feito isso? Então não caducou! Ele não chegou a ser usado. Sabe qual é o grande problema da sociedade? É a Polícia! Sabe por que eu posso te afirmar isso? A polícia prende mais de cem pessoas por dia, ela tem que parar de prender. Sabe por que não tem onde botar a criança? E não tem onde botar preso e não tem tornozeleira para colarinho branco. Se a polícia parar de prender, vai resolver o problema social, econômico, prisional e judiciário. Quando eu estou falando que ela é culpada estou falando de uma forma sarcástica, claro. Então eu acho que a solução dos problemas políticos é culpar a polícia. Se eu fosse deputado federal eu pediria para trocar os nomes da polícia eu iria sugerir: Jeni.

Como o senhor vê o pós Olimpíadas? Estaremos seguros? No dia 19/07/2016, aconteceu um ato sem explicação onde carros estacionados foram incendiados por motoqueiros na Tijuca. Se a violência está dessa forma antes das Olimpíadas, como ficará o pós?  

Ângelo: Eu vi várias matérias sobre esse fato e achei interessante que ora a mesma emissora falava assim “ Criminosos incendiaram os carros .“, ”Vândalos incendiaram os carros “, há suspeitas que foram traficantes, ou seja, não faz o menor sentido criminosos fazerem uma coisa dessas, porque atingiram o carro de quem? Para que? Não faz sentido! Então acho que primeiro tem que saber o que foi que ocorreu. Se não qualquer opinião é mera especulação. Agora o pós Olimpíadas, eu tenho certeza que vai ficar bem complicado. Nós começamos a conversar falando da crise do Estado. Policia não anda sem dinheiro. Por quê? Polícia, gasta gasolina, munição e assim vai. Polícia tem custo! E ela não deve ser medida pelo gasto, ela deve ser medida pela efetividade. Para que ela seja efetiva, vai precisar de dinheiro. Agora se polícia é cara, imagina a segurança pública.

 

O senhor vê alguma esperança para o Estado do Rio de Janeiro? Caso sim, qual seria?

Ângelo: Eu nasci no Distrito Federal quando era o Rio e nunca me mudei, ou seja, nasci aqui no Rio de Janeiro. Então eu amo a minha cidade. Amo mais ainda o meu Estado, porque fui um servidor público por 32 anos. Parafraseando Fernando Pessoa, “ Acreditar é dar um presente ao futuro.“. Eu tenho que acreditar que o Rio tem solução. Não vai acontecer de uma hora para outra, tem que ter muita vontade política e muita vontade social. É muito simples culpar o político, mas o combustível do político é o voto, então ele fica querendo entender o que aqueles que regem os seus votos querem e, assim ele vai tentar atendê-los.

 

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Sobre Josué Júnior (103 artigos)
Josué Júnior, carioca, fotógrafo profissional pós- graduado pela faculdade Cândido Mendes. Há mais de dez anos no mercado fotográfico com ênfase em moda e publicidade. Atualmente fotografa para o site Versão Masculina, especializado em comércio de produtos masculinos. Em sua empresa Arte foto Designer, desenvolve seu trabalho autoral, que pode ser apreciado na sua pagina : www.facebook.com/fotosjosuejunior?ref=bookmarks ,ou em seu Instagran .https://www.instagram.com/josuelbjr/

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