Aprendemos a lição?

 

 

Sentados na sala todos os olhos estavam presos no mesmo ponto.  Da telinha colorida, saía o último boletim de saúde daquele que representava a esperança de uma sociedade democrática e tempos melhores depois de tanto sofrimento e sangue com a ditadura militar.  Tancredo Neves deixou todo o país na expectativa, pedindo por um pouco mais de tempo. Eu tinha 10 anos. Desde então acompanhei três vice-presidentes assumirem o maior cargo do país; dezenas de planos econômicos e cinco moedas.

Pintei o rosto de verde e amarelo, combinei com os amigos do colégio  e fomos às ruas pedir o impeachment do primeiro presidente eleito por voto direto. Minha mãe, estudante de direito da UERJ de 68 e atuante no movimento estudantil se emocionou ao ver as três filhas sairem de casa para exigirem seus direitos. Vivíamos uma democracia de fato depois de tantos anos. Tinha 17 anos. Logo depois entrei para a universidade e comecei a trabalhar em uma livraria, onde me deparei com a loucura da troca de preços quase que diariamente. Difícil explicar essa logística complexa para as gerações que nasceram com uma moeda estável. Para essas gerações o obvio é comprar no supermercado apenas aquilo que se precisa para a semana, ou no máximo para duas semanas. Eu ainda lembro do tempo em que ajudava meus pais nas compras de mês com quatro carrinhos abarrotados, filas quilométricas com todas as famílias fazendo o mesmo, logo no início de mês, e da necessidade de ter freezer e dispensa grandes para guardar todas as compras porque se não comprássemos na hora, nosso poder de compra caia pela metade logo depois. Me assusta ver esse comportamento voltar pouco a pouco aos supermercados…

Itamar, o vice que se viu presidente de um país quebrado deixou sua marca na história nos dando as direções para uma estabilidade econômica e política de que precisávamos. Trouxe Fernando Henrique e o Plano Real. Democracia incipiente, imatura, mas fazendo-se valer.

Quando o país do futuro se mostrou de fato viável, com uma moeda estável; com Lei da Responsabilidade Fiscal; instituições democráticas fortalecidas chegou a hora da prova de fogo de qualquer democracia: experimentar a alternância de poder. Lembro-me do orgulho do Fernando Henrique em passar a faixa presidenciável à Lula.

Até semana passada o país tinha sido reprovado nessa prova. Quando o PT assumiu o governo, assumiu com um plano de poder de 20 anos. Chegou quase lá, mesmo que para isso tenha quebrado o país e pisado nas instituições democráticas.

Aos 40 anos pintei novamente o rosto de verde e amarelo e fui às ruas pedir o segundo impeachment na minha vida – espero sinceramente que seja o último, mas se precisar irei novamente às ruas. Impeachment é uma ferramenta legítima da democracia. Golpe é tirar esse direito. Alguns pilares de uma democracia saudável são o respeito à regras, o cuidado com a coisa pública e o direito a diferenças. Dilma e seu governo faltou com todos eles. E continua faltando quando conseguiu fatiar a Constituição e garantir seus direitos pessoais à cargos públicos, sobre o interesse da nação.

Novamente nos vemos com um vice que chegou lá sem passar pelo voto direto. É um ponto de interrogação. Pode ser um Sarney e nos entregar um país sem rumo ou um Itamar que fez seu dever de casa direitinho.  Rezo que seja a segunda opção. Já perdemos os últimos anos bagunçando a casa que finalmente tinha ficado em ordem. A questão que se coloca hoje mais forte do que nunca é: a sociedade brasileira ganhou maturidade, ao longo desse longo e penoso processo, para exigir os seus direitos e interesses indiferente de qual partido esteja no poder?

Como otimista que sou e crente no poder e no papel da sociedade em uma democracia, acredito que sim. Amadurecemos. Como Lula gostava de falar – nunca antes na história desse país se discutiu tanto política. Isso é um bom sinal. Ficamos, como sociedade, adormecidos e com medo de nos envolver ainda como uma herança da ditadura militar. Hoje não mais. Nos bares, nas mesas de jantar em família, nas escolas, todos estão acompanhando e, o principal, fazendo a ligação direta entre corrupção e precariedade nos serviços essenciais do Estado – saúde e educação. Quanto mais corrupção, mais a população sofre com serviços e perde seus ganhos financeiros.

As eleições municipais trazem ao debate o desencanto do eleitor com os políticos mas também o envolvimento pessoal de cada um. Uma democracia se faz com indivíduos e política. Não adianta lavar as mãos e entregar o poder a outros sobre a nossa própria vida. Em última instância somos nós, eleitores, que pagamos todas as contas – queiramos ou não. Então é melhor ir para rua e defender suas ideias. Cobrar de vereadores propostas realistas. Conhecer o passado de cada candidato à prefeitura. Não temos mais espaço para dois perfis – o do candidato e o do ocupante do cargo. Um ponto que o impeachment da Dilma deixou claro é que não é mais viável uma campanha eleitoral baseada em uma realidade paralela fictícia, porque uma vez ganha a eleição, não se tem como fugir da realidade.

 

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Sobre Anna Gabriela Malta (17 artigos)
Anna Gabriela Malta é fotógrafa documentarista e gestora da instituição sem fins lucrativos Sociedade Providência, dedicada a educação de crianças de baixa renda na Zona Sul do RJ. Acredita no trabalho de formiguinha para transformar o mundo através da educação e do envolvimento de cada um na sociedade. agmalta@gmail.com

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