Entrevista com a Deputada Federal de São Paulo Mara Gabrilli

Foto :Alexssandro Loyola (PSDB na Câmara)

“Mara Gabrilli é deputada federal por São Paulo, defendendo os direitos da pessoas com deficiências com afinco, esperança e determinação. Ela surge no panorama político como uma esperança de todas as vozes daqueles que, até o momento, não tem sido ouvidos, nem respeitados pelo poder público. Com isso, percebemos o reflexo desse descaso através dos cidadãos que não conseguem respeitar nem compreender as limitações, que podem ser superadas com adaptações e afeto.”- Crystiani Venuto, Psicóloga clínica e escolar, especialista em educação inclusiva.

 

Entrevista com a Deputada Federal de São Paulo Mara Gabrilli 

Por Josué Júnior

 

Vencer desafios é importante na vida. Isso acontece quando as pessoas com deficiência vão às ruas e enfrentam a falta de respeito do poder público e a falta de consciência de alguns cidadãos. Como podemos reverter esse panorama?

Mara Gabrilli: Em primeiro lugar, falta informação sobre o universo da pessoa com deficiência. Em geral, as pessoas ainda não conhecem exatamente as necessidades de uma pessoa com deficiência. Costumo dizer que as barreiras de acesso físico são fáceis de quebrar. Se falta uma rampa, basta chamar o pedreiro, comprar tijolos e cimento. Agora, derrubar barreiras de atitude é muito mais complexo. Para acabar com o preconceito é necessário um árduo trabalho, que diz respeito à maneira como o ser humano olha para o outro. Não fomos educados para conviver com o “diferente” e isso acaba excluindo milhões de pessoas de desfrutarem seus direitos. Esse é um trabalho que não ocorre de um dia para o outro, pelo contrário, é gradativo, mas temos avançado. E é muito mais fácil quando esse trabalho começa desde cedo, quando criança. Por exemplo, uma criança que convive com outra com deficiência será um adulto preparado para lidar com a diversidade humana. Saberá respeitar as necessidades de cada um e, fazendo isso, estará apto a cobrar para que outras pessoas façam o mesmo. Mas inclusão não se faz apenas com convivência. É preciso que os acessos sejam iguais para todos, ou seja, os serviços precisam ser disponibilizados a todas as pessoas da mesma maneira. Hoje, são 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência e que durante muitos e muitos anos tiveram subtraído o direito de frequentar uma escola, de ter transporte público, de ter um trabalho digno, de ter saúde, cultura e acesso ao esporte. A Lei Brasileira de Inclusão (LBI), que relatei na Câmara dos Deputados e entrou em vigor no início deste ano, garante muitos destes direitos. Agora precisamos trabalhar para efetivá-la e tirá-la do papel.

 

 

No dia 16/06/2016, a senhora esteve na ONU. A Lei Brasileira de Inclusão foi bastante enaltecida. Podemos dizer que esse reconhecimento e as metas que a ONU determinou até 2030 de não deixar ninguém para trás, significa que teremos um sopro de esperança para as pessoas com deficiência?

Mara Gabrilli: Eu acredito que sim, é para isso que trabalho todos os dias. Durante a reunião da ONU tive a certeza de que tem muita gente boa trabalhando por isso também, em diversas partes do mundo. É claro que as mudanças não virão da noite para o dia, é um processo longo, de mudança, de conscientização. Se olharmos para trás, temos avançado bastante ao longo dos anos. Sabemos que ainda tem muita coisa a fazer, mas acredito sim que dias melhores virão por aí.

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Foto :Alexssandro Loyola (PSDB na Câmara)

A Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos das Pessoas com Deficiências, foi extinta dela ex-presidente Dilma Roussef em abril de 2016. A senhora tem como mensurar o impacto que essa triste notícia tem sobre as pessoas com deficiência, e tudo pelo qual lutaram suas famílias?

Mara Gabrilli: A notícia pegou todo mundo de surpresa. A Secretaria exerce um papel fundamental de acompanhamento das ações do governo, colocando o olhar para a pessoa com deficiência nos projetos e programas nacionais. Acredito que a extinção tenha ocorrido por um equívoco da ex-presidente, não acho que ela tenha feito de propósito. Até porque, alguns meses antes, quando Dilma ainda era presidente, estive reunida com ela, que se mostrou muito interessada em trabalhar pela causa. Assim que soube da extinção, procurei o então vice-presidente, Michel Temer, que quando assumiu interinamente a presidência, recriou a Secretaria Especial de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, trazendo mais tranquilidade para milhões de brasileiros.

 

A senhora foi conversar com o então Presidente, na época vice- Presidente, Michel Temer para que ele continue avançando nas leis e investimentos para as pessoas com deficiência. A conversa foi produtiva? As pessoas com deficiência desse país podem ficar tranquilas? Ou teremos tempos difíceis?

Mara Gabrilli: Michel Temer demonstrou muito interesse em trabalhar pela causa. Um primeiro gesto foi recriar a Secretaria Especial de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência. A nomeação da Rosinha da Adefal para essa secretaria e da Flávia Piovesan para secretária de Direitos Humanos foram muito bem recebidas, pois são pessoas engajadas, muito competentes e com histórico de luta. Temos muito a trabalhar, principalmente na regulamentação de alguns artigos da LBI. Vamos esperar para ver o que será feito na prática pelo novo governo. Continuaremos de olho, aplaudindo as boas práticas, fiscalizando, criticando e cobrando o que não estiver sendo feito.

 

Participar das Paralimpíadas carregando a tocha deixou a senhora orgulhosa? Conte um pouco dessa emoção.

Mara Gabrilli: Foi uma honra e uma imensa alegria participar do revezamento da tocha paraolímpica. Fui contagiada com aquela chama, contagiada pelo espírito olímpico. Naquele momento, carreguei comigo a força de superação dos mais de 45 milhões de brasileiros com deficiência que fazem nosso Brasil diverso e único.

Revezamento da Tocha Paralimpica para os Jogos Paralimpicos Rio 2016

Foto : Alexssandro Loyola (PSDB na Câmara)

 

O que muda para o Brasil quando a Paralimpíada acabar?

Mara Gabrilli: Tenho certeza que as Paralimpíadas deixarão um legado social muito grande. Infelizmente, a TV aberta optou por não transmitir o evento, mas diferente do que muitos imaginavam, as paralimpíadas estão sendo um sucesso, tanto de público quanto na internet e redes sociais. Os brasileiros estão acompanhando e levando a cada prova, uma mensagem, uma história de superação, de inclusão. Imagine só quantas crianças com deficiência que estão acompanhando a competição não sonharão em ser um atleta, um nadador, um jogador de futebol de 5, de golbol, em competir nas paralimpíadas. Podemos dar uma alavancada muito grande no paradesporto e o esporte é uma das plataformas mais eficazes de inclusão.

 

Para que algumas crianças ou jovens com deficiência possam frequentar uma escola regular particular, é necessário que tenha um mediador. Por lei ,hoje, esses indivíduos tem direito a ter esse profissional contratado pela instituição onde estuda. Sabemos que o mediador não é um profissional regulamentado ainda, por isso, sua remuneração oscila de forma absurda.Algumas instituições, por conta dessa dificuldade de compreender a necessidade desse apoio que a pessoa com deficiência demanda, mesmo sendo lei, ainda procura repassar tal despesa para as famílias, que acabam aceitando. Como a senhora pensa ser a regulamentação adequada desse profissional perante tantas dificuldades encontradas por essas famílias?

Mara Gabrill: Em primeiro lugar, gostaria de reforçar que a Lei Brasileira de Inclusão (LBI – Lei 13.146/2015) também proíbe a cobrança de valores adicionais em razão da deficiência. Fizemos isso, alterando o Artigo 8º de uma legislação que vigora desde 1989 (Lei 7.853/89), acrescentando a cobrança de valores adicionais entre os crimes previstos que impedem a inclusão desse público.

Sobre a regulamentação do profissional de apoio escolar previsto na LBI, estamos trabalhando junto ao Ministério da Educação (MEC) para que, na regulamentação da lei, já tenhamos as atribuições definidas segundo as características de cada deficiência, as necessidades de aprendizagem, levando em conta também as particularidades de cada indivíduo e o nível de ensino. O objetivo sempre será único: o desenvolvimento de habilidades e a promoção da autonomia. E, da mesma maneira que a LBI foi uma construção coletiva, também queremos a participação da sociedade nessa discussão.

A regulamentação da LBI já ajudará a solucionar as diversas dúvidas que ainda são comuns em relação a esses apoios no cotidiano escolar, que podem ser desde a mediação nos processos de aprendizagem e aquisição de competências, quanto a ajuda física propriamente dita na alimentação, locomoção e higiene, que muitas vezes são de necessidade permanente. Lembrando sempre que oferecer o profissional de apoio escolar não substitui a oferta, também obrigatória, do atendimento educacional especializado, que é complementar ao ensino comum.

Quanto à regulamentação da profissão em si, a discussão será feita também junto ao Ministério do Trabalho para definir, em conjunto com o MEC, as questões de formação técnica, cursos e exigências acadêmicas para o exercício da função, de acordo com cada especificidade de atuação do apoio escolar.

 

No ano de 2018 teremos novo pleito. O que seus eleitores podem esperar da Deputada?

Mara Gabrilli: Costumo dizer que a minha felicidade está diretamente ligada à minha vontade de realizar. Ainda não estou pensando em 2018, mas meu desejo é de continuar trabalhando para avançar na garantia de direitos e melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiência do nosso país.

Sobre Josué Júnior (151 artigos)
Josué Júnior, carioca, fotógrafo profissional pós- graduado pela faculdade Cândido Mendes. Há mais de dez anos no mercado fotográfico com ênfase em moda e publicidade. Atualmente fotografa para o site Versão Masculina, especializado em comércio de produtos masculinos. Em sua empresa Arte foto Designer, desenvolve seu trabalho autoral, que pode ser apreciado na sua pagina : www.facebook.com/fotosjosuejunior?ref=bookmarks ,ou em seu Instagran .https://www.instagram.com/josuelbjr/

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