Precisamos falar sobre liberdade.

 

Todo mundo exige, mas nem todos querem pagar seu preço. E pior, muitos a pisoteiam em nome dela.

 

Nunca antes vivemos em uma era com tantas liberdades e com tantos direitos. Pelo menos em grande parte do globo. Claro que em muitas partes ainda existem mulheres apedrejadas por suspeita de adultério e assassinatos por diferenças de crenças. Mas, graças a Deus, são pontos isolados no mapa mundi. Se pensarmos no mundo na pré-guerras avançamos muito em liberdade de escolha, liberdade de ser. As minorias conquistaram seus direitos e diferentes vozes fazem parte do cenário global.

 

No entanto, essa liberdade que todos demandam e usufruem muitas vezes é desrespeitada sem nos darmos conta. São pequenas transgressões no dia-a-dia e, quando nos damos conta, somos reféns de alguns poucos. Cresci com a voz da minha avó, uma nordestina “arretada” do início do século passado, sempre repetindo “a sua liberdade acaba quando começa a do outro” e também “todo direito vem acompanhado de um dever”. Quando olho para as gerações que estão saindo do ensino médio me pergunto aonde foram parar esses ditados antigos. Eles não perderam sentido, mas perderam importância pelo empobrecimento da cultura no nosso país.

 

Por que estou falando em liberdade e ditados antigos? Porque as manchetes dos jornais me fazem pensar na minha avó, no que ela me ensinou. No modelo de liberdade que aprendi a buscar e respeitar. A liberdade que respeita a diferença e o espaço do outro. Que não invade sem ser convidada. Hoje, temos no país mais de 240 escolas ocupadas. Para começar, não entendo esse termo. Como assim ocupadas? Então antes eram prédios vazios, sem vida? Esses estudantes que lá estão vivendo hoje não estudavam nessas escolas?  Não faziam parte do seu corpo? Por causa deles, milhares de outros estudantes perderam a chance de fazer o ENEM para entrar na faculdade na data correta. Um exame que por si só já é extenuante e demandante em termos de pressão psicológica. Um grupo de poucos estudantes se acham no direito de invadir uma propriedade – sim porque as escola são públicas, mas de propriedade do Estado – impedir a realização de uma prova agendada há meses afetando milhares de pessoas, estudantes e famílias, e claro, gerando com isso um prejuízo de milhões para o Estado – que nada mais é do que todos nós, a nossa coletividade que compõem  a sociedade.

 

Aparentemente é um movimento livre, com jovens buscando a própria voz. É politicamente incorreto mostrar que esses estudantes são mais uma vez uma massa de manobra de movimentos políticos com uma agenda própria. Se olharmos para trás, a primeira onda de ocupação das escolas aconteceu em Sao Paulo no ano passado, porque o governo do estado resolveu fechar, sem comunicação prévia, determinadas escolas causando danos reais no dia-a-dia desses estudantes.

 

Na primeira ocupação em SP, os estudantes se manifestaram contra o fechamento da própria escola; contra a falta de diálogo entre governo e sociedade na busca por uma solução melhor para que pudessem continuar estudando. Nesse evento, se organizaram internamente para que cada grupo fosse responsável por refeições, limpeza, e por que não, pelas aulas para que não perdessem o semestre. Algumas escolas foram exemplos vivos de como é urgente a escola se reinventar com a participação ativa dos alunos. Eles têm muito a contribuir e a ganhar com essa renovação.

 

Assim como as manifestações de junho de 2013, quando jovens de todo país acordaram e tomaram as ruas contra o aumento da tarifa de ônibus, a ocupação das escolas em SP surpreendeu pela força e pela organização. Ambos eram movimentos genuínos, organizados pelas redes sociais, sem ajuda de sindicatos ou partidos, em resposta a uma ação errada do Estado. Ambos foram libertadores e inspiradores. Como diz Michel Maffessoli, professor francês da Sorbonne, que se dedica ao tema da educação, estamos vivendo uma volta a sociedade tribal em que ela é autora e coadjuvante dos acontecimentos – o que prevalece é a pulsão comunitária que induz a fazer, a ser, a pensar como o outro, e sobretudo, em função do outro. Esse é o verdadeiro ser pós-moderno. A liberdade na sua essência. Individual, mas sempre, e sobretudo, em comum acordo com a liberdade coletiva. Não submissa ao coletivo como nos sistemas totalitários, mas em comum acordo. Respeitando as diferenças e convivendo junto, e misturado. O oposto do que vemos acontecer hoje na segunda onda das ocupações das escolas.

 

Assim como nas manifestações de junho de 2013, aos poucos, os jovens livres e tribalistas foram sendo substituídos por black blocs com suas agendas prévias, sua violência e suas máscaras. Resultado: a força das ruas foi esvaziada.

 

Em comum os black blocs de então e os novos estudantes que ocupam escolas têm em comum o uso da violência, a degradação de propriedades e, principalmente, o desrespeito ao direito e liberdade do outro. Tanto os black blocs quanto esses estudantes que privaram outros, teoricamente iguais a eles, no direito de fazerem o ENEM, têm em comum a crença que sabem o que é melhor para todos. Assim como os antigos reis e déspotas acreditavam que eram enviados diretos de Deus para governar os homens.

 

Os estudantes que invadiram as escolas espalhadas pelo país não se deram ao trabalho de estudar a PEC 241 a qual se rebelam. Não se deram ao trabalho de ouvir as palavras do senador de esquerda Cristóvan Buarque sobre o tema. Cristóvan, como um político antenado com seu tempo, atualizou suas crenças e reconhece hoje que a esquerda no Brasil ficou parada no tempo. É preciso alcançar ganhos reais para a sociedade como um todo, em especial para a classe menos favorecida, mas esses ganhos só são possíveis se formos responsáveis com as despesas. Gastar mais com educação não significa necessariamente gastar melhor em educação. Basta ver o resultado dos últimos anos e um olhar atento para as escolas públicas. É preciso buscar a eficiência nos gastos para investir em educação. Não gastar em educação. Investir x gastar – coisas bem diferentes. Mas investir pressupõe trabalho, avaliação, resultado… enfim, eficiência. Nem todo mundo que diz querer mais educação para todos está disposto a todo esse trabalho… Uma pena… Eles, estudantes que ocupam as escolas, são frutos de uma educação que não ensina a pensar, apesar de todo o discurso contrário. São frutos de uma educação tacanha, com o objetivo claro de usar o sistema democrático para tomada do poder de uma minoria que, como toda minoria, acredita saber o que é melhor para a maioria, sem respeitar as diferenças e trabalhar com elas. Me faz lembrar uma frase usada lá atrás por um inglês sobre a fraternidade jacobina – “seja meu irmão, ou eu o matarei”. Tudo em nome da liberdade, fraternidade e igualdade. Parece que as aulas de história acabaram no início da Revolução Francesa. Só se esqueceram de dar o devido valor nos bancos da escola para as consequências da revolução ‘Rousseauniana’ – a Era do Terror.

 

Voltando as ocupações atuais das escolas, me pergunto como fica a questão dos salários de todos os funcionários que não podem trabalhar. Eles recebem sem trabalhar? É justo? E se não recebem, é justo quando não estão trabalhando por força maior? Quem paga por esses prejuízos? As famílias dos alunos que ocupam os prédios e impedem que muitos alunos estudem e alguns profissionais trabalhem?

 

Como dizia a minha avó, a liberdade de um termina quando começa a do outro. Tão simples e tão eficaz … Será que alguém pode ensinar o conhecimento dos antigos para os jovens nessas escolas? Eles estão precisando…

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Sobre Anna Gabriela Malta (17 artigos)
Anna Gabriela Malta é fotógrafa documentarista e gestora da instituição sem fins lucrativos Sociedade Providência, dedicada a educação de crianças de baixa renda na Zona Sul do RJ. Acredita no trabalho de formiguinha para transformar o mundo através da educação e do envolvimento de cada um na sociedade. agmalta@gmail.com

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