Entrevista com Dr Amaury Mendes Jr

Sexólogo carioca, Dr Amaury Mendes Jr, vem se destacando nas palestras que ministra, e em seu consultório, aconselhando e tratando de casais e pessoas com algum problema na questão do sexo. Nessa entrevista ele dá dicas e aponta algumas direções. Vejam abaixo a entrevista

 

 

 

                                                                                                              Por Josué Júnior

 

 

Muitos casais frequentam seu consultório. Dessa procura a um especialista de casais, qual seria o motivo mais comum em seu consultório?

 

  Amaury Mendes Jr :  A terapia sexual engloba os aspectos biológicos, psicológicos e sociais que interferem na felicidade de cada uma das pessoas envolvida na relação afetiva. Os problemas interpessoais se entrelaçam e ampliam o grau da dificuldade relacional.

O sintoma principal entre os casais ou solteiros na clínica de terapia sexual diz respeito sobre a atitude sexual insatisfatória inter ou intrapessoal. A questão sexual é o sintoma que necessita ser ampliada em terapia como a ponta de um iceberg, onde abaixo da superfície existiriam questões importantes e delicadas, que, quando trabalhadas de forma saudável, afastam tabus, mitos e preconceitos que interferem no comportamento sexual.

A maioria das pessoas nasce com certa predisposição erótica para uma vida sexual saudável, porém a sociedade, a família e os relacionamentos ao longo da vida, tanto podem estimular como inibir uma atitude saudável. Como são duas as pessoas envolvidas dentro de uma conjugalidade, em alguns momentos das relações, questões mal resolvidas ou recalcadas podem interferir na continuidade de uma intimidade saudável.

Outro ponto interessante em terapia sexual é que ninguém pode ser considerado, por si mesmo, como muito ou pouco erótico. A relação entre o casal poderá sinalizar apenas quem gosta mais ou menos de sexo, sem que necessariamente alguém precise ser rotulado como doente. Para algumas pessoas, manter sexo cinco vezes na semana pode ser pouco, enquanto que outra pessoa poderá se considerar feliz com sexo semanal.

É preciso tratar o sofrimento, seja ele conjugal ou individual, no restante o terapeuta irá trabalhar com as inadequações que precisam ser corrigidas.

O sexo pode envolver uma guerra de poder entre o casal, onde aquele que tem maior apetência sexual detém o domínio, a posse e o controle. O resultado desta disputa resulta no sintoma sexual. No caso do homem, pode ocorrer na maioria das vezes em uma disfunção erétil ou em uma Ejaculação Precoce situacional. Já entre as mulheres é comum o surgimento de Anorgasmia (ausência do orgasmo) ou Desejo Sexual Hipoativo (pouco desejo sexual).  Existe hoje em dia uma procura grande de homens jovens, inseguros que só conseguem fazer sexo com uso de medicamentos estimulantes da ereção.  Este comportamento é resultado de uma deseducação familiar, onde os papeis homem e mulher eram bem estabelecidos com o pai provedor e a mãe dona da casa submissa. O rapaz frente à mulher independente, não sabe colocar seus sentimentos de igualdade e reciprocidade, e desta forma procura demonstrar superioridade e poder, investindo apenas em relação ao desempenho sexual isento de trocas afetivas. O problema é que muitas vezes, o tiro sai pela culatra, pois o remédio só funciona se houver investimento emocional por parte do homem.

Assim temos os problemas mais frequentes entre os casais homo e ou hetero.

 

Hoje tanto o homem, quanto a mulher querem viver em harmonia dentro do casamento. Quando algum problema fisiológico perturba essa harmonia, geralmente, de quem é a iniciativa para começar uma terapia? E quais são os casos mais comuns entre os casais?

   Amaury Mendes  Jr: Antes do advento das pílulas contraceptivas em 1950, a mulher socialmente era sempre considerada culpada pelos problemas sexuais dentro de uma relação.  Após este período, o sexo antes reprodutivo pode ser vivenciado de modo prazeroso e libertário. Com isso, a mulher ficou de igual com o homem, até então considerado o sexo forte.  O gênero feminino passou a cobrar o gozo antes negado, não valorizado e depreciado.  Com esta exigência, o homem percebe que seu poder antes baseado apenas em conceitos sociais, não tem mais amparo na falsa superioridade orgânico como supunha. Seu pênis está em cheque, e demonstra toda instabilidade e insegurança com as disfunções sexuais que comprometem sua autoestima e o afastam do convívio socioafetivo.

A síndrome da ansiedade do desempenho que acomete o homem geralmente evolui para ejaculação precoce e disfunção erétil.

Este comportamento do macho que faz sexo mecânico e performático, isento da participação afetiva da parceira, obteve como resposta que algumas mulheres optassem por parceiros menos ameaçadores, e mais submissos como forma da não conviver com papéis secundários dentro de uma conjugalidade.  Os problemas se agravam pela ausência de um ambiente que não encontra espaço para um sexo erótico e despreocupado.

Geralmente ocorrem vários problemas relacionados à disfunção sexual que a terapia pode trabalhar e ajudar na reflexão da reavaliação de atitudes convenientes e ou defensivas

 

 

Tem  um vídeo da Miley Cyrus onde ela permite, em um show, que seus fãs a toquem nos seios e partes íntimas. Esse tipo de atitude, vindo de um ícone mundialmente conhecido, perante uma juventude tão sedenta de experiências novas e diversificadas, pode gerar algum tipo de comportamento inadequado, que gerará consequências futuras? Quais seriam e como os pais poderiam orientar de forma adequada?

  Amaury Mendes Jr : O modelo paradigmático do adolescente contemporâneo, induz a comportamentos  transgressores que estão inseridos dentro de normas próprias, estabelecidas pelo coletivo pertinente ao grupo a que se pertence. Diferenciam-se copiando uns aos outros. O índice de doenças sexualmente transmissíveis e AIDS, aumentou consideravelmente nesta faixa etária que transgride como necessidade de identificação com o grupo, seguindo modelos ícones de expressão sexual isentos de lógica, postura madura e reflexão.

O alto índice de doenças sexualmente transmissíveis em ambos os sexos é um reflexo do peculiar pensamento mágico e onírico típicos do adolescente movido pela necessidade de identificação com seu grupo

As graves consequências podem interferir, comprometendo para sempre a saúde sexual e emocional, pois afastam o adolescente de seu grupo com o rótulo estigmatizado da doença sexual.

AIDS, verrugas nos genitais, esterilidade, doenças inflamatórias pélvicas, Sífilis, são algumas das consequências de uma iniciação sexual  sem convicção e ou suporte psicoemocional.

Alguns pais não permitem o diálogo sexual com os filhos, talvez por ignorância ou por medo de estimular atividade sexual precoce.  Porém, a melhor forma de proteção quanto a possíveis problemas causados por uma atividade sexual desprotegida, ainda é uma boa conversa que deixe de lado mitos e tabus preconceituosos, que julgam atitudes sem compreender as causas.

Muitos pais ficam atônitos quando o assunto é sexo, pois também trazem a tona velhas recordações, e ou questões mal resolvidas e ocultas. Nunca é tarde para tratar problemas que possibilitem uma visão mais saudável sobre antigas castrações.

Praticar sexo é sinal de bem estar, pois é uma resposta de um corpo saudável e do emocional equilibrado, que resultam na possibilidade de trocas afetivas com outra pessoa dando um feedback de aceitação e erotismo.

 

Geralmente falar de sexo causa constrangimento ou gargalhadas, mas tudo é um grande pano de fundo para tirar dúvidas. Em qual momento em suas palestras, no qual o senhor ministra, consegue identificar quando falam na hora da pergunta, que o amigo ou amiga é, na verdade, a própria pessoa?

 Amaury Mendes Jr : É preciso entender a inibição natural de falar sobre sexo no grupo social. O profissional deve responder de modo natural sem sugerir desconfiança ou indagações, que comprometam a confiança do individuo, pois a conduta sexual abrange aspectos sobre autoestima, educação, tabus, mitos, preconceitos e intimidade.

Não interessa para quem é a pergunta, esta deve ser avaliada e seu teor pode ser desenvolvido com o grupo ou posteriormente.

Respeitar, evitar comentários e dar leveza ao assunto para que o indivíduo adquira  coragem de se colocar de acordo com as suas ansiedades.

A maioria do público usa a terceira pessoa pelo medo de julgamentos da platéia, mas devemos aproveitar esta oportunidade que pode ser única na vida daquele individuo, para esclarecer e trazer paz e segurança em suas indagações sexuais. O objetivo é estimular e esclarecer de forma natural, lúdica e cientifica para que outras pessoas possam ser encorajadas a falar.

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Amaury, atualmente temos várias polêmicas, e uma delas é a questão dos transgêneros . Aqui no Rio de Janeiro o colégio Pedro II, liberou  a saia para meninos e calça para meninas. Sabendo-se que o Pedro II é um colégio tradicional, onde as meninas usavam saia e meias três quartos e o menino calça, qual o impacto que isso tem no desenvolvimento da sexualidade desses jovens?

  Amaury Mendes Jr : Atitudes corajosas que incentivam o diálogo, rompendo barreiras preconceituosas,  principalmente quando vindas de orientadores  e formadores de opinião,  são desejadas e necessárias . Esta iniciativa pode corroborar para que os alunos possam ter dentro da sala de aula, discussões com profissionais de saúde a respeito de sexo, sexualidade e gênero.

É preciso cautela e orientadores preparados para conversar sobre tão intimo assunto.

A reflexão pode levantar questões importantes a respeito do tratamento igualitário para os diversos tipos de orientação sexual.

Colocar o dedo na ferida pode encorajar,  estimulando pais e filhos ao diálogo, muitas vezes evitado dentro do próprio  lar.

Esta atitude inovadora do colégio estimula uma oportunidade, para a família deixar de lado os medos pertinentes ao assunto sexo e prazer.  Existe muita preocupação dos progenitores quanto a falar sobre sexo saudável e prazeroso. Geralmente a conversa aborda os perigos e os riscos, como se a atividade sexual fosse um bicho de sete cabeças.

A prática do bullying mostra como a opressão e o a medo, quanto aos sentimentos de desejo diferentes dos da maioria, dentro de um determinado grupo, pode trazer danos a futuros adultos que não se enquadram nos papeis exigidos e cobrados, independentes da forma de como cada individuo gostaria de se expressar.

 

Outra questão que vivemos é a inclusão das pessoas com deficiências. Como é a orientação sexual para essas pessoas? Pode dar algum exemplo?

 Amaury Mendes Jr : A medicina sexual com seus medicamentos  tem importante papel no que se refere à possibilidade de oferecer medicamentos que facilitem  o erotismo desejado.

Por exemplo, em relação a homens paraplégicos com problemas de ereção o uso de medicamentos injetáveis intra cavernosos, facilita a ereção e possibilita a gravidez dentro da conjugalidade.

Por outro lado, a terapia sexual trabalha as questões psicoemocionais para que o indivíduo reformule e amplie  de forma saudável  seus prazeres sensoriais,  com toques e massagens que possibilitem  sensações além da genitalidade.

É preciso enfatizar que ao redor dos genitais existe um corpo que não deve condicionar seu funcionamento apenas na genitalidade

  

Fiz uma pesquisa que cita um aumento considerável dos casos de AIDS dos jovens entre 15 a 24 anos (em 02/02/2015 do Ministério da saúde). O que está faltando em nossa sociedade para diminuirmos esse número crescente de infectados? Haja vista que ainda não existe uma vacina para a erradicação da doença? 

Amaury Mendes : O Brasil é um país que investe bastante na distribuição de medicamentos retro virais que ajudam no combate a doença.

A questão é que a geração Z não tem memória sobre os aspectos danosos do vírus, e os tratamentos atuais, quando iniciados precocemente, conseguem estabilizar o organismo e até mesmo impedir o avanço da doença. AIDS para muitas pessoas não tem um aspecto tão sério como deveria ter.

Falar sobre sexo engloba aspectos religiosos, políticos e sociais, e fica difícil concatenar de forma desmistificada e isentas de manipulações, aspectos importantes e esclarecedores. Associar sexo a doença ou morte não é a melhor forma de falar sobre relação sexual. Educar não é proibir, mas sim esclarecer. Desta forma, uma orientação sobre saúde sexual desde o curso básico, compartilhado pelos pais é uma campanha isenta de falsa moral, onde grupos de risco pudessem participar como forma de inclusão, e poderia ajudar a prevenir quanto aos cuidados para aproveitar a sexualidade de forma saudável e prazerosa.

 

Qual o conselho que você daria para quem está começando na sua vida sexual em tempos com tanta diversidade?

  

 

 Amaury Mendes Jr:  A puberdade no adolescente sinaliza com a possibilidade de fazer sexo.

Entre as mulheres, o inicio das menstruações sinaliza que o corpo está apto a reproduzir, enquanto que, no sexo masculino as poluções noturnas revelam  a maturidade sexual . A atividade sexual se livrou da conotação reprodutiva com o advento das pílulas contraceptivas, e hoje em dia a iniciação sexual acontece cada vez mais precocemente.

O lado saudável é que o aprendizado natural e necessário da sexualidade faz com que os adolescentes tenham mais experiências e, portanto, mais clareza sobre as escolhas de seus objetos sexuais, fantasias e identidade de gênero.

O problema principal é a porta fechada da comunicação e orientação nas casas onde o sexo fica do lado de fora da casa. Não existindo conversa, os adolescentes ficam a mercê do mercado sexual, onde todos os prazeres são válidos e livres.

A pornografia na internet, medicamentos estimulantes, sexo desprotegido, exposição a pessoas degeneradas e doenças que lesionam os órgãos reprodutores, podem causar fuga sexual, baixo autoestima, diminuição do desejo e depressão.

Conversar com os pais, professores, médicos, psicólogos ou profissionais preparados para entender, esclarecer e orientar é um passo importante que possibilita a iniciação sexual segura e protegida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre Josué Júnior (143 artigos)
Josué Júnior, carioca, fotógrafo profissional pós- graduado pela faculdade Cândido Mendes. Há mais de dez anos no mercado fotográfico com ênfase em moda e publicidade. Atualmente fotografa para o site Versão Masculina, especializado em comércio de produtos masculinos. Em sua empresa Arte foto Designer, desenvolve seu trabalho autoral, que pode ser apreciado na sua pagina : www.facebook.com/fotosjosuejunior?ref=bookmarks ,ou em seu Instagran .https://www.instagram.com/josuelbjr/

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  1. Entrevista ao site Link e Zine - Dr Amaury

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