Entrevista com a Senadora Marta Suplicy

 Uma Senadora que tem uma visão amplificada do que está acontecendo no mundo e no país. Nessa entrevista concedida para o Linkezine, ela é esclarecedora e profunda. Muito obrigado Senadora Marta Suplicy!
                                                                                                                                Por Josué Júnior

Senadora, a sua luta pelos direitos das mulheres, já conhecida, é bastante antiga. Hoje, vivemos um momento em que a mulher está ocupando cada vez mais o espaço em todos os seguimentos de nossa sociedade. Por que, na política e no governo, a mulher ainda não divide a mesma responsabilidade, ombro a ombro, com o homem?

 

Senadora Marta Suplicy:  Questão cultural. Na sociedade, como você assinala, a mulher já divide a responsabilidade com os homens, de modo crescente. Recentemente, pesquisadores cruzaram dados da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios, comparando informações de 2001 com as de 2015. Resultado: mais do que dobrou o número de famílias chefiadas por mulheres. Verificaram-se 29,8 milhões de famílias chefiadas por mulheres em 2015, contra 14,1 milhões em 2001. Houve 105% de aumento. Isso acentuado em famílias formadas por casais, com ou sem filhos. Também, é cada vez mais falado e visível o empoderamento feminino. A minha visão é otimista: estamos começando uma mudança forte, cultural, e, para mim, esse foi o maior obstáculo, até o momento, e que nos deixou aquém em representação – a questão cultural. De modo simples, como se via o “lugar da mulher”. Fomos, secularmente, vistas como menos capazes, mais frágeis, as que cuidam do lar, da família, as que têm de pedir permissão, submissas aos homens (irmão, pais, maridos). A mudança começou no século 20, com as sufragistas, depois os movimentos pela liberdade no comportamento, ainda direito ao corpo, sexualidade, e estamos, mais recentemente, incluindo todas as mulheres. O que começou como movimento branco, hétero, alimentado por uma elite intelectual de mulheres, no século 20, agora está nas ruas, nas favelas, no funk, na escola, nas tevês, nas campanhas de grandes marcas comerciais. Sempre defendi cotas para mulheres nas legendas de partidos e agora nas cadeiras dos legislativos como meio de alavancar a representação. Mas o importante é que esse debate possibilitou chegarmos nesse movimento maior do século 21: a transformação da sociedade, com mulheres de todas as etnias, de todas as idades e incluídas as “trans”. Chegaremos mais rápido do que eu pensava há uma década quanto a uma representação mais expressiva. É uma questão de consciência. Está em curso; não tem volta.

 

 

Foto: Divulgação

O caso da vereadora Marielle Franco, parlamentar assassinada, que aconteceu no Rio de Janeiro, calou uma voz que tinha 46 mil votos. Atinge também todos as mulheres eleitas em todo o Brasil? Fale um pouco sobre isso.
Senadora Marta Suplicy: A morte de Marielle chocou todos nós: quem é do Rio de Janeiro, quem não é e nem a conhecia, antes. Repercutiu no Brasil e no mundo. Assim, não há como calar nem os 46 mil votos dados a ela nem o que ela representava e continua significando, apesar da sua morte. O simbolismo dela é muito forte e vivo: são as lutas que continuam da mulher, da negra, da favelada, da jovem guerreira idealista. Marielle, presente!

 

Ainda falando sobre esse assunto tão polêmico em nosso país, e principalmente, no estado do Rio; estamos falando de um crime à democracia pontual, ou é um crime que intimida e se estende a todo o país? Como a senhora analisa esse crime?
Senadora Marta Suplicy: A meu ver, é, sim, um crime contra a democracia, no sentido de ela ter sido eleita, representar o povo, ter poderes instituídos e lutas claras. A representatividade da Marielle é, sem dúvida, ligada ao exercício da liberdade de manifestação, de voto, de ser vereadora. Verificamos em diversas reportagens que mais crimes políticos aconteceram no Rio de Janeiro e em outros locais, no país. Mas, no Rio de Janeiro, isso está de modo muito acentuado e preocupante, pois escancara o esgarçamento de estruturas do estado e sociais. Temos de avançar nas investigações, no esclarecimento desse crime e continuar agindo no apoio à recuperação do estado do Rio de Janeiro, nas mais diversas áreas. Não se limita à segurança. É preciso que Rio de Janeiro se reerga com oferta de serviços públicos de qualidade: na educação, na saúde, na assistência social. É um conjunto. Não é uma ação pontual.

 

Foto : Divulgação

O Brasil vive várias mazelas, uma delas é o cenário político em que estamos vivendo, com a corrupção sendo devastada e mostrada. A senhora acredita que, nas próximas eleições, teremos um sopro de esperança em relação à uma renovação no congresso e nos estados?
Senadora Marta Suplicy: A esperança de recuperação social, de retomada do crescimento econômico, de empregos e de uma vida melhor sempre está em debate nas eleições. O eleitor tem de votar consciente. Tem de buscar saber quem é o candidato ou a candidata, qual é a história dessa pessoa e quais são suas propostas. No Congresso Nacional, faz anos, o resultado das urnas tem evidenciado uma escolha majoritária do eleitorado de candidatos conservadores. Esses, na questão da mulher, das liberdades individuais, são a favor de retrocessos. Não apoiam pautas que melhoram as condições de vida das mulheres, por exemplo. As estruturas político-partidárias não estão, hoje, voltadas para, de fato, empoderar mulheres. Estamos, mesmo com boas notícias, como a possibilidade de ampliação de recursos para candidaturas de mulheres – fiz essa emenda na reforma política de 2015 –, remando contra a maré.

 

Existem muitos movimentos que estão surgindo, como o Movimento Agora e o Acredito. Esses movimentos estão sendo vistos como uma renovação, pois abrigam muitos jovens que pretendem ingressar na política com novos valores. Como a senhora analisa esses movimentos?

 

Senadora Marta Suplicy: O Agora e o Acredito surgem como grupos de jovens que buscam uma agenda de políticas públicas que possa ter equilíbrio entre aquilo que defendem os esquerdistas e o que pregam os liberais. Pregam inclusão social, responsabilidade fiscal e modernização dos costumes. O primeiro, incorporou como membro Luciano Huck e isso causou dissidências. O Acredito já foi chamado de MBL progressista. Dizem “pensar o novo”. Na política, isso sempre é bem-vindo, mas, pelo menos na apresentação, já foram retratados como “mais da velha política” ou “mais do mesmo”: grupos com maioria de homens, brancos e ricos, ou classe média alta, entre 30 e 40 anos e que têm apoiadores tradicionais, tanto na economia quanto na política. Não são, expressivamente, do povo, ou das favelas. Eles falam do povo e da favela, embora, sim, tenham perfis oriundos de classes menos favorecidas e apresentem histórias de empreendedorismo, porém, a crítica que recebem é que são movimentos diferentes dos que apoiam perfis como os da Marielle. A Marielle tem a questão do “lugar de fala”, cada vez mais valorizado entre militantes de outros movimentos: feministas, negros ou LGBT. “Lugar de fala” é o fim da mediação: quem sofre preconceito fala por si, e é protagonista da própria luta e movimento. Então, nesse caldo social, ainda estamos para ver se, nestas eleições, realmente, influenciarão e crescerão, pois alguns dos seus mais destacados membros são influenciadores em mídias. A conferir. Aqui não é França e não estamos discutindo Macron.

 

 

A senhora já vivenciou muita mudança na política brasileira, mas o que se vive hoje, posso afirmar que é inédito, com o povo, pela primeira vez, acompanhando os resultados, e exigindo transparência dos seus governantes. Podemos dizer que, em 2019, o povo será realmente representado pelos seus parlamentares eleitos pelo povo?

 

Senadora Marta Suplicy: Disse, no começo, que sou otimista. Mas acredito em mais tempo para transformações significativas na questão da representação. Os partidos não mudaram, efetivamente. Vão para as urnas candidatos que já estão nos partidos, e mesmo tendo trocado de sigla, na maioria, conhecidos. O receio é que a gente tenha um Congresso Nacional até mais conservador. Então, mais uma vez, é importante o eleitor votar consciente. Você é a favor de mais respeito ao ser humano? É a favor de direito das mulheres? É pelo respeito à diversidade? Quem você vai escolher? O contraponto ao conservadorismo está no voto. Nós, mulheres, estamos precisando de mais votos. Quer mais sensibilidade de mulher na votação do Congresso Nacional? Não falo que somos melhores que os homens, mas pensamos de modo diferente. O olhar é mais social. Quem decide é o eleitor. Então, o eleitor é que pode eleger o novo ou quem melhor representa o novo, mesmo estando na política há mais tempo.Muitos jovens estão saindo do país procurando por novas oportunidades. O Brasil já vivenciou um momento em que os jovens conseguiam viver, estudar e trabalhar, com uma perspectiva de um futuro melhor.

 

 

Foto : Divulgação

Qual foi o erro do Brasil com os seus jovens e o futuro que eles teriam? Quais as políticas que o Brasil precisa realizar para voltar a se desenvolver e crescer como nação, e manter o sonho dos nossos jovens aqui?
Senadora Marta Suplicy: Virou e mexeu, sempre se fala em procurar novas oportunidades fora. Mais recentemente, alguns têm citado, por exemplo, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Noruega. Estamos falando, porém, de jovens mais bem preparados e com algum apoio. Claro, já tivemos fluxos de pessoas com menos recursos e sem diploma indo para fora, trabalhar em obras. Alguns bem-sucedidos e outros não. No entanto, o que a gente tem de pensar, quando está na política, é como fazer para que os nossos jovens escolham ficar. Principalmente, os mais bem preparados. Vamos ter de encarar nossos problemas de frente. E o começo, para mim, é na escola. Depois da família, é o convívio social que se apresenta para o início de tudo. Estamos num forte debate para um novo modelo de escola: na creche e no ensino fundamental em andamento; daqui a pouco no ensino médio. Temos de focar e este é o norte: formar mais e bem, preparar para a vida. Alunos mais capazes de ler, de interpretar, de raciocinar, de desenvolver competências. Hoje, qualquer lugar do mundo está a praticamente um clique. Se você for jovem, poderá experimentar o mundo todo, mas o Brasil é um país com muitas oportunidades. A crise é cíclica. Vai passar. E a construção de uma sociedade solidária está no nosso horizonte. Não vou falar de erros, temos bastante, claro, mas o mundo lá fora não é tão acolhedor, como parece. Fenômeno das migrações, refugiados, diferenças culturais. A esperança é construir um país que a gente quer.

 

A senhora acredita que 2019 o Brasil será melhor? Se sim, como?
Senadora Marta Suplicy: Acho que as pessoas pensam sempre no curto prazo, na melhora imediata. Algumas coisas já melhoraram, de dois anos para cá. Estávamos numa situação de crise econômica, política e de desemprego desesperadora, um fundo do poço. Hoje, não estamos em céu de brigadeiro. Há muito por fazer. Contudo, a economia já começa a reagir a medidas e acertos na nossa economia, por isso estamos registrando queda da inflação, dos juros, começa a retomada do emprego e algum crescimento da indústria. Precisamos manter a serenidade, trabalhar sério. A sociedade brasileira passa por transformações que não são apenas internas. Estamos em compasso e descompasso com o mundo: digitalização versus desemprego, nova cultura de economia e poupança, novos valores em relação à mulher. Vê? Não adianta a fuga para o exterior. A aldeia global está cada vez menor.

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Sobre Josué Júnior (123 artigos)
Josué Júnior, carioca, fotógrafo profissional pós- graduado pela faculdade Cândido Mendes. Há mais de dez anos no mercado fotográfico com ênfase em moda e publicidade. Atualmente fotografa para o site Versão Masculina, especializado em comércio de produtos masculinos. Em sua empresa Arte foto Designer, desenvolve seu trabalho autoral, que pode ser apreciado na sua pagina : www.facebook.com/fotosjosuejunior?ref=bookmarks ,ou em seu Instagran .https://www.instagram.com/josuelbjr/

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