Sedação

Tive a impressão de ter visto Solange saindo da padaria, ou poderia ter sido a Tatiana. Eu teria falado com qualquer uma delas, sem problemas. Entretanto, lembrei que não me viam como antes, que agora conseguiam me identificar como alguém portador de um determinado vício, algo que para elas tinha viés realmente condenável, e aí pediram para que as ignorasse quando as visse.

Assim foi também com Nívea, que me gelou quando notou minha conduta, ações que Alexandra tratou como promíscuas, Luana como desonestas e Sabrina, mais elegante, como inadequadas. Uma delas, a Louise, veio com maior requinte, citando compulsividade e infantilização do ego. E era mesmo divertido conviver com os novos adjetivos, rótulos dos mais diversos, frescos, todos invariavelmente incidindo em um conceito pejorativo, alertando sobre uma reputação que desmoronava, se é que algum dia esteve em base sólida.

Sim, eu admito, estava fora de controle. Queria todas, e afirmava que as amava. Talvez até as amasse mesmo, não sei mensurar. Ainda que fosse mentira, havia um toque de vontade e elas, eu sei, queriam meu encaixe no estereótipo tradicional, algo para resolver seus anseios — todos iguais. Eu topava esse jogo de construções sobre verdades que nasciam forjadas, intimidades enquadradas entre o afeto e o sexo que de fato eu pretendia.

Foi precisamente nessa encruzilhada corrupta, onde prazeres trafegavam entre beijos viscerais e indiferenças cruéis, que alguém interveio. Deveria haver um limite para o ataque às ingenuidades, uma contenção que evitasse mais sofrimentos e de fato esse momento chegou, soturno, sem grandes avisos e sem deixar vestígios de remorsos. Só não consigo dizer de que maneira veio.

Precisei da sedação. Sim, sair daquela condição de lobo voraz para a de um sujeito que não se afeta pela magnitude das mulheres. Não sei como ministraram, nem sei se me traria alguma vantagem descobrir quem foi o responsável e o método utilizado. O efeito colateral, porém, foi tamanho que uma apatia floresceu, se estendendo da necessidade de ter de explicar a incrível mudança até o fato de não conseguir mais distinguir mentalmente a fisionomia de todos os rostos femininos que habitavam minhas memórias.

Tantos e tantos foram os flertes e insinuações, sexos sem comprometimentos que já não mais sabia quais foram as receptoras de minhas investidas… Rúbia, Virgínia, Marília, Vanessa, Rafaela… todas se assemelhavam, assim como também iguais eram antes da minha sedação. Agora, contudo, num sentido invertido, como se aquela situação bizarra virasse o atestado que precisavam para ter a garantia que, de fato, lidavam com um maníaco ou algo do tipo.

Essa sedação não me foi bem explicada. Fui medicado à revelia, acho que numa noite em que exagerei no ansiolítico. Acredito que uma pessoa de boa índole, alguém que encontrou em mim pessoa também de bom caráter, entrou em meu quarto em momento oportuno e me propôs enxergar, enfim, como aquele teatro da lascívia estava se tornando meu único e possível mundo. Desejar tantas mulheres simultaneamente — todas quem sabe — poderia não me fazer ser o monstro ceifador de paixões, mas era o hábito corrosivo que não me levaria a nada mais além de experiências sensoriais descartáveis.

Se um dia imaginei que as mulheres precisavam de maturidade para saber que faz parte do enredo da vida certa dose de cinismo, a tal sedação me fez compreender agora que transformar essas pequenas porções em barris intermináveis de sarcasmo também não agregaria nenhum humor ao meu surrado personagem. Ao contrário, me mostraria um ser desprezível por baixo de tanta vontade de se fazer simpático, de se mostrar como aquele capaz de saciar desejos carnais como se um eterno cio pairasse sobre as relações.

Desisti de entender e de resmungar sobre a origem e o autor da minha letargia. Restava era tentar direcionar meus resíduos de energia a outro campo, o trabalho, o lazer, ou até ao amor. Não lembro se tinha uma namorada antes de todo meu perfil ser modificado, alguém para quem eu verdadeiramente declarasse meus sentimentos, para quem demonstrasse minhas carências mais secretas, para quem recitasse poesias sem interesses.

Se havia uma mulher que me proporcionava carinho genuíno, certamente ela me abandonou bem antes do processo de sedação ser finalizado. Viu que não haveria como construir família com sujeito tão entregue ao hedonismo, mulherengo contumaz, repleto de inseguranças emocionais, vivendo perto do precipício das doenças e da falência moral. De certo modo teve razão em ir, muito embora ela também não estivesse de todo isenta de crítica, já que não teve personalidade, nem tolerância, para agir diferentemente das demais.

Enfim, não tenho como tentar passar essa culpa para outro. Tenho de, pelo menos, assumir meus antigos posicionamentos, encarar a velha faceta de aliciador de corações e recriar a minha identidade. Assumo a culpa por ocasiões que agora se mostram toscas, por ter quebrado tantas expectativas. E aí tenho de concordar com o ser misterioso que me dopou, já que alguém que possui tamanha capacidade de sedução precisava de sedação no mesmo grau.

Ser contido, apresentado a uma vida com aventuras que não fossem tão egoístas, um cotidiano que não colocasse em risco a normalidade das pessoas que em mim confiavam. Prometi união com cada uma delas, mas quantas eu desiludi na busca insensata por noites que acabavam apenas em bocas cheias de um gosto amargo… Eu agora estava sedado, bem verdade, o que não impediu a manifestação de minha tristeza. E essa era legítima, restauradora inclusive, mais coerente comigo do que a alegria dos tempos em que atuava.

Mostrando minha resignação, quis até agradecer a quem me levou a esse estado neural renovado. Tocar-lhe as mãos e revelar que meu único lamento não foi não mais poder desfrutar da gangorra sexual, da perversão ou da adrenalina irresponsável entre um orgasmo e outro, mas, sim, de não saber se daquele turbilhão eu ainda conseguiria extrair o amor. Tão tímido agora, a possibilidade de encontrá-lo estivesse reduzida, quiçá eliminada. Talvez o responsável por tudo isso sentisse pena, ou quem sabe, se eu estivesse com alguma sorte, também se abrisse dizendo que o tipo de sedação utilizado foi apenas um beijo, vital, derradeiro, aquele carregado de sabores sinceros.

Dizem que de tantos, um se sobressai, vinga. Não tenho certeza, mas uma delas, me recordo, abalou meu coração, sim. Mas quem? Teria sido a Larissa? Ou a Amanda, que falou em casamento certa vez? Lívia me olhava de um jeito diferente, recusando uma entrega fácil. Mas não lembro se era esse seu nome e nem se eram essas suas qualidades. Poderia ser um sorriso trapaceiro e não um olhar cativante, um sussurro malicioso ao invés de um gemido cúmplice. Seria ela a estar me convencendo, não o contrário… e poderia ser a Cíntia e não a Lívia… ou ainda a Bianca, a Natália ou quem sabe até a Solange. Vou voltar na padaria. Quem sabe ela ainda está por lá, ela gostava de sonhos.

Sobre Léo Borges (5 artigos)
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