Misantropia infecciosa

 

 

– Falaram que é uma doença raríssima. Sempre desconfiei. Ele não se dá com ninguém, só com esses cachorros malditos. Vai ver é transmissível por contato ou, até pior, pelo ar! Eu é que não fico mais por aqui sem alguma razão — disse uma das mulheres da roda, ficando por ali sem alguma razão.

– Também ouvi isso. Um intelectual, aquele que perdeu a mão, diagnosticou a enfermidade como sendo doença que vem de berço — comentou outra.

– O menino evita as pessoas como se todos fossem leprosos! Ele deve ter parte com o capeta e a história dos cães só reforça minha teoria. Desde que seu livro foi lançado que os ataques dos cachorros às pessoas se tornaram coisa habitual.

– O livro que ele escreveu parece que foi ignorado pelos intelectuais por conta disso. O que ele narra é uma trama de cachorros brutais que despedaçam suas vítimas. Coisa absurda!

– Vendeu pouquíssimo. No início idolatraram-no, mas logo caiu no esquecimento.

– Isso mesmo. Quem iria ler tal heresia? Cães que atacam pessoas impiedosamente…

– Engraçado que dos cachorros do vilarejo esse menino é o único a não fugir…

– É mesmo. E os cães também não correm dele. Brincam, até.

– Curioso tudo isso. Esses animais da nossa circunscrição já mutilaram inúmeros insignes.

– Vai ver foram os perdigueiros que transmitiram esse cancro pro coitado do jovem escritor…

– Pode ser. Ele já foi atendido pelos médicos?

– Até onde sei, não deram jeito. A verdade é que o mal que se instalou em Andrews não afetou a sua pele, rins ou cotovelos. A coisa se manifestou mesmo foi em seus pensamentos…

– Que esquisito! Como é mesmo o nome dessa doença terrível? — ousou perguntar outra fofoqueira, fechando o rosto com as mãos em concha, como se isso a livrasse da contaminação.

– Ninguém sabe ao certo… uma virose…

– Misantropia infecciosa — o nobre que perdera o pavilhão auricular, mas não a audição, dava, enfim, uma explicação aparentemente sólida para o grupo de mulheres. — A doença é rara, mas sua característica principal é a insensatez. Ao deixar de ser tratada com o rigor necessário, pode levar a um estado completo de ignomínia não apenas o hospedeiro como quem com ele manteve contato.

Apesar de também não ser médico, o fidalgo acreditava que possuía conhecimento suficiente para comentar sobre o problema que afligia Andrews. O cão que decepara sua orelha tinha afetuoso vínculo com o garoto e isso marcou o homem a ponto de fazê-lo interceder pelo sacrifício do animal. A corte deferiu e, mais que isso, ampliou a decisão, permitindo que outros cachorros também fossem mortos. Muitos a pedradas na praça central. O objetivo da carnificina foi, antes de tudo, o de chocar o menino, mostrar que seu amor por bestas-feras era uma afronta aos bons costumes e ao agradável convívio outrora reinante no vilarejo; amor este que tomava viés ainda mais dramático com a aversão que Andrews demonstrava ter das pessoas. Afinal, ele não mantinha relações de amizade nem mesmo com garotos de sua idade.

Andrews, esgueirado atrás da cortina de seu quarto, observava o burburinho na rua sabendo que falavam dele. Sabia que nesses momentos entravam em cena o debate sobre sua repulsa ao ser humano e o conflito deste sentimento com a sagacidade literária que ele demonstrara ter. Um menino que escreve livros deveria estar junto dos homens cultos da cidade e não ao lado de cachorros hostis e malcheirosos. Os bichos estavam sendo massacrados mais por represália ao isolamento em que o prodigioso garoto se metera do que propriamente pelo fato dos intelectuais estarem sendo mordidos.

Os pais do jovem escritor emudeceram quando ouviram o ilustre decano da sociedade, este sem o pé direito, dizer que a que a misantropia de seu filho deveria ser encarada como grave problema social, já que, segundo ele, esta psicopatia estava intimamente ligada aos ataques dos cães. De acordo com especialistas locais, estes seres pareciam querer defender o menino, sendo que, na realidade, o elemento ultrajante em toda aquela história era mesmo Andrews.

“A matilha marcial” nasceu como um livro festejado pela elite. Quando souberam que quem o escreveu fora um menino, congelaram. Como poderia? Tentaram, mas não conseguiram cooptá-lo para o grupo. Com isso, a inveja sobre o fantástico jovem corroeu-lhes o ego. Somou-se a isso o estranho incidente envolvendo os cães de rua que passaram a atacar, sem motivo aparente, os intelectuais, arrancando-lhes pedaços do corpo. A carreira de Andrews foi, então, associada ao satanismo.

As edições encalharam. Ninguém mais queria saber do livro e Andrews acabou conseguindo o que queria quando viu tanto papel junto: criar um forro para os cães que dormiam ao relento pelas ruas do vilarejo. Ao contrário do que muitos pensavam, Andrews jamais se deprimiu com a queda das vendas. Comunicava-se por literatura, mas não fazia questão que fosse ouvido. Seu trabalho exauria-se em si mesmo, pouco importando a expectativa dos fãs ou a recepção dos críticos.

Foi sua irmã quem quis mostrar para o mundo o potencial do irmão. Levou rascunhos de “A matilha marcial” para o soberbo dono da gráfica local — sujeito este que viria a perder o nariz alguns dias depois. Ao ler a obra crua, o sofisticado homem teria exclamado: “magnífico!”. O que ele não sabia é que, após a publicação, os sangrentos ataques começariam.

A irmã, acompanhando toda aquela situação, dizia para Andrews:

– Você pode não querer conversar com ninguém, pode ser vetor desta doença, pode viver em seu próprio mundo, mas eu não o discrimino. Sei, mais que qualquer um, que você é inteligente e pode provar sua vocação. Escreva outro livro. Um livro decente, que prenda as pessoas de tal forma que elas não consigam se afastar das folhas. Um livro diferente deste primeiro, que era bom, mas cujo teor violento não agradou aos formadores de opinião. Que sirva de estímulo a nossa situação de poucas possibilidades. Nossa família carece de recursos, você sabe. Precisamos ganhar dinheiro e estar perto da nata social. Você não pode desperdiçar este talento com cachorros raivosos!

Ele não respondia. O asco que sentia dos humanos chegava à irmã com pouca intensidade. Com ela, o sentimento predominante era de pena. Dó daquela menina magra e de andar curvado que queria ser atraente e elegante como as amigas abastadas. Muitas dessas namoravam os intelectuais da cidade porque isto — apesar do incômodo que sentiam por estarem lidando intimamente com aleijados — era algo, acreditavam, que lhes emprestava grande status.

Andrews foi para o pátio brincar com alguns dos cachorros enquanto pensava na confecção de outro livro para prover algum acalanto às súplicas da irmã. Teria de ser um livro obediente aos ditames mercantis de maneira que quanto mais contrário aos padrões do jovem escritor viesse, mais comercializável ele seria. Algo que abastecesse com eterno entretenimento as mentes daquela cidade e que, com isso, fizesse dinheiro jorrar para a família. No novo arranjo os cães não poderiam ser ferozes. Deveriam ser mansos, tal como declarava o líder religioso, cuja metade do abdômen fora dilacerada por um já esperado ataque canino: “os mansos é que herdarão o Reino dos Céus!”.

Decidiu que iria além: os cachorros-personagens não atuariam somente como fofos coadjuvantes, seriam o motor da mudança, agiriam como verdadeiros insignes, trajando cartolas e fraques. E foi aí que surgiram os primeiros problemas. O menino teve dificuldade para iniciar o livro por não saber exatamente quais as atribuições dos nobres e ilibados cidadãos de destaque. Qual era o papel deles na sociedade? Não curavam, pois não eram médicos. Não construíam pontes, pois não eram engenheiros. Não faziam doces, pois não eram confeiteiros. Além de afirmar que os outros estavam doentes, que seriam misantropos, que outra utilidade eles possuíam? Andrews viu que teria de usar muita imaginação nesta nova obra. Não para inventar persuasivos cães falantes, mas para conseguir dar algum sentido à vida dos intelectuais.

As pessoas souberam que Andrews estava preparando novo livro e especulavam se nesta nova versão os cães seriam dóceis e obedientes. A mais feliz de todas era a irmã, que agora tinha certeza de que ficaria rica. O grupo dos intelectuais aplaudiu a idéia, pois viu que o incrível menino estava amadurecendo, aparentemente parando de se misturar com cães fétidos e, principalmente, dando mostras de que pretendia se unir à classe, deixando-a mais forte, quiçá com possibilidades de se tornar potência política.

Quando os papéis de “A matilha quimérica” ficaram prontos, a irmã foi correndo levá-los para o soberbo editor sem nariz que, ao ver o material, exultou: “esplêndido!”. Teve certeza de que todos, assim como ele, leriam. Só não sabia que não parariam mais de ler.

A irmã foi a primeira a ter acesso à obra pronta. Sentou-se na cadeira da sala e submergiu na admirável trama com grande atenção. Não parou mais.

– Andrews, sua irmã gostou mesmo do livro! Ela acreditou em você e você provou que estava certa: está relendo “A matilha quimérica” pela quarta vez. Ele será um sucesso! Com as vendas dessa obra pagaremos nossas dívidas! — disse a mãe com uma felicidade incontida.

Andrews não comentava. Limitava-se apenas a ir brincar com os cachorros na pracinha onde antes eram executados. O livro saiu rápido das livrarias e virou coqueluche. Todos liam e reliam. Andrews foi chamado para o meio intelectual e recebeu a Medalha de Nobreza. Teve seu rosto fotografado e estampado nos jornais. Mas mantinha sua introspecção, que agora era classificada como uma simples “timidez”. A misantropia do garoto, de acordo com os homens de grande cultura, fora curada.

Alguns sevandijas que adulavam o pequeno escritor queriam compartilhar de seu brilho, ainda que para isso precisassem abraçar a hipocrisia com desfaçatez.

– Seu livro é muito bom! — disse um dos bajuladores. Andrews sabia que ele mentia porque se tivesse mesmo lido, certamente ainda o estaria fazendo.

Todos os leitores permaneciam sendo isso: leitores. Liam, reliam e liam outras dezenas de vezes. Abandonaram seus trabalhos e muitos começaram a perecer, pois não largavam o exemplar nem para comer — e menos ainda para dormir. O transporte público virou um caos com os motoristas absortos em uma leitura infinita. O mendigo não pedia mais esmolas, pois alguém lhe dera o incrível livro e ele agora se nutria de quimeras. A bailarina não se apresentava mais, maravilhada que estava com a obra de Andrews. Aposentados abandonaram os dominós e passavam os dias nos bancos da praça, sob sol ou chuva, mergulhados no “A matilha quimérica”.

– Andrews, sua irmã está há dias lendo seu livro ali na sala! Ela não se alimenta e está definhando. Não fala mais com ninguém. Todos que leram, ainda estão lendo. Viraram zumbis. O que você fez com nosso povo, meu filho? — perguntava o pai, chorando.

O pai de Andrews, antes pobre, ficou rico. Antes feliz, ficou triste. O que era um livro abençoado estava se tornando catastrófico. Os milhares de leitores sucumbiam. Nem mesmo operários munidos com pás e alicates conseguiam fazer os obcecados fãs soltarem as encadernações das mãos. Os poucos intelectuais que sobreviveram viram o quão perigoso era aquela literatura e fizeram fogueira com os exemplares restantes de “A matilha quimérica”. Passaram a acusar Andrews de ter contaminado a região com sua satânica misantropia infecciosa e concluíram que a praga derradeira não eram os cachorros selvagens, mas simples folhas de papel com mágicas letras impressas.

– O que está escrito nesse livro, pelo amor de Deus? — quis saber uma mulher desesperada com perda da filha, leitora morta por carência de vitaminas, debruçada sobre a página cento e quatro, após sua ducentésima trigésima nona leitura consecutiva. Assim como os demais, esta também foi para o sepulcro agarrada às folhas.

Quando lhe perguntavam coisas desse tipo, ele apontava com os olhos para o livro em cuja capa havia a estampa de doces cães engravatados cumprimentando homens. Ele só se comunicava com os humanos por meio de textos e, desta vez, parece que muitos não queriam mais parar de escutá-lo.

 

Sobre Léo Borges (5 artigos)
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