Entrevista com Mariana Castelar Presidente estadual do Tucanafro de Mato Grosso do Sul, secretariado negro do PSDB.

Mariana Castelar de Oliveira, 35 anos, jornalista, nascida em Niterói/RJ, atualmente mora em Campo Grande/MS. Presidente estadual do Tucanafro de Mato Grosso do Sul, secretariado negro do PSDB.

Introdução por Mariana Castelar

Minha mãe contou que uma vez me pegou esfregando meu braço com a bucha querendo tirar a minha cor que era suja. Ao perguntar o motivo, falei que minha amiga não quis comer meu lanche porque eu era preta. Eu tinha entre 3 e 4 anos.

Aos 12 perguntaram quanto eu estava cobrando para cuidar de criança porque viam o amor que eu tinha pelo bebê que eu estava cuidando. Este bebê era o meu irmão.

Aos 15 fizeram uma lista de meninas mais bonitas da sala e quando um menino citou meu nome, o outro disse: mas ela é preta.

Aos 22 fui impedida de sacar o dinheiro da minha própria conta porque a gerente achou que havia um valor alto para uma menina da minha cor. Pediu que eu me retirasse senão chamaria a segurança.

Ouvi minha vida toda que eu tinha sorte porque eu era morena da cor do pecado e tinha traços de branco, como o nariz e a boca fina. Sem falar das piadas quando você veste uma roupa escura ou “só podia ser coisa de preto”.

Um homem estava incomodado comigo no metrô e quando perguntei ele passou o dedo no braço se referindo a cor da minha pele.

Aos 26, andando com a minha filha com quase 1 ano de idade, perguntaram há quanto tempo eu cuidava dela. Essa situação se repetiu por anos.

Tiraram sarro da minha filha porque ela tinha mãe com cor de empregada, cor de pano de chão sujo.

Quando vi minha filha com os olhos cheios d ´água me contando esta situação aos 5 anos de idade, chorei muito e vi que era hora de dar um basta naquilo. Sabia que aquelas situações eram comuns quando conversava com amigas negras. Ali entendi que o que eu passei foi humilhante e ninguém deveria passar, mas não era nada perto das mortes, das prisões e das agressões só por conta da cor da pele. A partir daí comecei a estudar, ler, conhecer a minha história, a história do meu povo, a parar de me esconder, de ter medo, vergonha de falar sobre este assunto e me reconheci como mulher preta. Fazer parte do secretariado, no qual estou à frente há um ano foi conseqüência desta caminhada, na qual sei que há muito ainda que se aprender.

Com vocês Mariana Castelar!

O filósofo Cornel West em entrevista à BBC, falou que os Estados Unidos são um experimento social falido: “Quando se trata de pessoas negras e pobres, sua economia capitalista falha; o Estado militarizado falha; sua cultura mercantil, em que tudo e todos estão à venda, falhos”. Mediante essa fala, você pensaria que aqui no Brasil também somos um experimento social falido?

Castelar:

Sim, sem sombra de dúvida. Costumo perguntar às pessoas: quantas pretas e pretos eles conhecem no seu meio social, que frequentam os mesmos restaurantes, bares, teatros, que sejam médicos, juízes, engenheiros, advogados, que estão ou ocupam os espaços de poder? Se fizer esta análise verá que há muito pouco de nós ocupando esses lugares, a representatividade ainda é mínima.  Esta reflexão mostra a desigualdade racial em que vivemos. De acordo com o último Atlas da Violência de 2017, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Isso reflete o retrato desigual racial e discriminatório no país. Falar que a meritrocracia funciona para nós não é verdade, falar que temos os mesmo direitos também não. Hoje lutamos pela oportunidade a ter direito, que é algo bem diferente.

Obama declarou seu apoio aos jovens manifestantes e deu uma declaração onde o Linkezine pinçou essa frase: “Está ocorrendo uma mudança de mentalidade, um reconhecimento maior de que nós podemos fazer melhor!”, palavras de Obama. Aqui no Brasil, acredita que alguma mudança de mentalidade está ocorrendo? E como se poderia fazer melhor?

Castelar:

Sempre fomos a maioria na população, mas crescemos em uma sociedade onde nosso cabelo, nossa cor, nosso fenótipo era visto como inferior. Nosso cabelo é ruim, temos cara de bandidos, macacos e a optar por um produto que tinha a ‘cor da pele’, pode ter certeza que nunca era a nossa. A verdade é que cansamos de ser invisíveis. Faltam políticas afirmativas, falta conscientização e é por isso e pra isso que os movimentos negros estão lutando para garantir isso.

Bolsonaro (fonte: site UOL) publicou uma resolução tomada por sete ministros que anuncia a remoção e o reassentamento de famílias quilombolas no Maranhão. A medida poderá atingir 800 famílias de 30 comunidades dos descendentes de escravos que habitam a região desde o século 17. Como é possível ter consciência étnica, quando se tem um governo com atitudes como essa? 

Castelar: Não se teve consciência étnica, elegeram um candidato que já tinha discursos preconceituosos e racistas, que já falava que se referia ao peso de um negro em um quilombola por arroba. Um homem que representa uma nação deveria ter no mínimo respeito, caráter e conhecimento para lidar com diversas situações, mas está claro que isso não são características do atual presidente.

O Presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, falou em áudio que Zumbi dos Palmares escravizava negros, e que o movimento negro é uma escória maldita que abriga vagabundos. Essa fala foi repudiada por todos, gerando uma ação da DPU (Defensoria Pública da União), para suspender Sérgio Camargo da Fundação Palmares. No seu entendimento a quem interessa, e por que, Sérgio Camargo ainda estar sentado na cadeira de Presidente da fundação?

Castelar: Tive o desprazer de encontrar Sérgio Camargo uma vez em Brasília, porém tive a oportunidade de dizer olhando em seus olhos que ele é uma vergonha para a nossa raça negra e humana. Ele sim é a escória, um ser repugnante que está lá achando que vai abalar ou querendo acabar com a credibilidade do movimento negro, mas isso só nos impulsiona a mostrar a nossa força. Nossa luta vem de séculos, e ela não vai se calar ou acabar por causa de um ser que não representa absolutamente nada para ninguém. E quando falo ninguém é ninguém mesmo. Quem o colocou lá tem tanto nojo dele como nós, mas duvido que tenha visão para ver isso. É um capitão do mato, como o próprio irmão dele já disse em uma entrevista.

O Presidente Jair Bolsonaro bebeu leite em sua live, e em seguida vários seguidores imitaram sua atitude. Sua defesa para esse ato foi que ele estaria sendo desafiado pela Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite). O chamado de “Desafio do Leite” era para que ele tomasse um copo do produto para incentivar a indústria leiteira no Brasil, nesta época de crise por conta da pandemia. Dá para acreditar nessa narrativa que foi proposta pelo presidente, em meio a um crescimento da extrema direita?

Castelar:

Aprendi trabalhando com assessoria de imprensa que, qualquer ato, propaganda ou desafio que possa gerar polêmica, desconforto ou ofender alguma classe não deve ser realizada. O atual presidente possui todas essas características.

Como podemos ter um Brasil mais justo para todos, na sua visão ?

Castelar:

Quando todos tiverem oportunidade a ter os seus direitos de fato. É um longo caminho, que a cada dia parece mais distante, mas nós não nos calaremos nem seremos sufocados.

Sobre Josué Júnior (397 artigos)
Josué Júnior, carioca, pós- graduado pela faculdade Cândido Mendes. Atua no mercado com sua empresa Arte Foto Designer, é proprietário do site de conteúdo Linkezine , @linkezine . Dentro do site abaixo é possivel ver um pouco da atuação da Arte Foto Designer no mercado : https://www.omnistore.net.br/

1 comentário em Entrevista com Mariana Castelar Presidente estadual do Tucanafro de Mato Grosso do Sul, secretariado negro do PSDB.

  1. Christian de Oliveira Camillo // 19/06/2020 às 4:50 pm // Responder

    Parabéns Mariana Castelar, como imaginava foi coerente, obrigado e sincera está sim representa muito bem o PSDB

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