Entrevista com Rita Ladeira

Linkezine convidou Rita Ladeira Cirurgiã dentista Especialista em saúde Coletiva Mestra em Relações Étnico-raciais Doutoranda em Bioética, e saúde coletiva Professora na pós graduação em Saúde Coletiva da faculdade odontologia da UFRJ Professora do curso de extensão, em relações etnico-raciais da faculdade odontologia da UFRJ. Nessa entrevista abordamos os temas Educação, Aborto e Racismo Estrutural. Com vocês Rita Ladeira !   

Estamos a quatro anos sem avanços em políticas públicas, sem interagir com as classes que sempre sofreram preconceitos e outras situações. Um dos temas que mais sofre descaso nesse atual governo é o sistema de cotas. Como explicar para quem ainda não entendeu, a importância do sistema de cotas dentro de um mecanismo que tritura quem vive em flagelo?

Rita: Eu acredito que esse trabalho de trazer à tona de forma intermitente o debate sobre a importância das ações afirmativas tem que ser coletivo entre os diversos movimentos sociais, órgãos de imprensa, instituições e universidades. Eu lembro bem que na época da aprovação das cotas, diversos segmentos, particularmente a grande imprensa, criaram uma espécie de alodoxia, ou seja, identificações equivocadas com o objetivo de criar erros de percepções na sociedade sobre esse tema. Então, falou-se em racismo reverso, meritocracia, sobre exclusão do branco pobre, entre outros vazios incoerentes e, de forma proposital e planejada, isso acabou por criar transmissões e significados desviantes da verdade. Cabe a todos nós em coletivo consertarmos isso, já que hoje temos diversos dados compilados sobre os impactos positivos sobre essas ações, não somente para a população negra ou em situação de vulnerabilidade, mas para a sociedade como um todo.

Ainda na questão educação, Paulo Freire dizia: “Se aprende na relação com o outro, no diálogo com outro, na aproximação dele com o conhecimento do outro.”. Quanto tempo vamos levar para chegar nesse nível de conhecimento?

Rita: Eu vejo que ainda vamos levar um bom tempo. Por um lado, vivemos num país que se vende ao mundo como harmonioso, mas que na verdade é um país profundamente racista, machista, preconceituoso e misógino, onde a branquitude, que é um lugar de privilégio, não possui muito interesse nessas trocas dialógicas nem na aproximação de saberes. O medo em perder a hegemonia da narrativa cujo repertório gira em torno de uma eterna relação de poder onde o outro é sempre subjugado faz com que a branquitude se posicione sempre em estado de alerta máximo, a ponto de colocar no poder um governo de extrema direita. Eles precisam manter o conhecimento e a história sempre contados pelo lado dos brancos. Na questão racial e étnica essa mesma branquitude brasileira inventou uma artimanha muito bem pensada denominada de democracia racial para na verdade esconder todas as mazelas e exclusões que causam até os dias atuais o sofrimento do outro. É bom lembrar que aqui a categoria outro é sempre o negro e o indígena e que estes são atravessados por intersecções de gênero e classe. Por outro lado, temos lideranças étnicas e raciais levantando suas vozes e trazendo seus conhecimentos, temos também na academia os saberes filosóficos africanos e indígenas tomando lugares de destaque. Dentro da área do conhecimento da Bioética, que tem como um dos seus princípios a justiça social, observamos algumas iniciativas que estão incorporando também um princípio de justiça racial fundamentada pelos conhecimentos da racionalidade filosófica ética africana e do Bem-viver proveniente dos povos indígenas andinos, são conhecimentos outros até então invisíveis nesse campo de conhecimento. Ainda que sejam iniciativas pontuais e de pouco volume, são motivos para grandes comemorações por terem a capacidade de transformar determinadas relações ao reconhecer o outro não mais como objeto, mas como sujeito dotado de conhecimento e racionalidade.

O Brasil foi surpreendido com a atitude de uma juíza ao entender que o melhor para a menor estuprada, grávida, era manter uma gestação, mesmo ela tendo 11 anos, ainda em formação corporal, emocional e mental, mesmo estando em choque sem entender direito a agressão que sofrera.  Qual o juízo de valor que se pode dar para esse caso?

Rita: Talvez essa seja uma das páginas mais indecorosa, abjeta e grotesca do nosso judiciário e no meu entendimento, resultado concreto dos delírios e da misoginia da extrema direita no poder. O que o judiciário fez, através do conluio entre a magistrada e a promotora de justiça, foi uma tentativa de implementar contornos de um discurso de moralidade em uma situação bioética garantida por lei, uma espécie de distopia fomentada por um fundamentalismo religioso que infelizmente está dando frutos sórdidos. A assembleia legislativa protocolou uma CPI sobre o aborto e o ministério dos direitos humanos e da mulher solicitou ao ministério público apuração para criminalizar a equipe médica envolvida na interrupção legal da gestação e a abertura de investigação contra o site que divulgou os áudios da juíza e as imagens que mostram, a meu ver, uma sessão de inquisição medieval. Não há qualquer preocupação desses poderes, judiciário e executivo, com a vida da menina e muito menos com a violência do estupro que ela sofreu, o que se vê é mais uma tentativa de esgarçamento dos poderes constituídos e o descompromisso com a dignidade da pessoa humana e com a ordem democrática.

Ainda na questão abusos sexuais. Uma atriz teve uma parte de sua vida intima revelada por dois profissionais de imprensa, sendo que um pediu desculpas e o veículo onde trabalha também pediu, já o segundo profissional apenas fez um pronunciamento sem pedir desculpas.  O tema é sério e profundo, bastante complexo ao meu ver. Qual é a sua visão para o tema aborto, e como você viu a atitude desses profissionais em expor de forma constrangedora a vida da atriz?

Rita: Esse episódio nos mostra que realmente nos transformamos numa sociedade líquida. As relações são frágeis, aéticas, egocêntricas e individuais. Por um lado, temos dois profissionais de imprensa que em troca de visibilidade, dinheiro ou fama, revelaram um episódio que faz parte do íntimo de outra pessoa que não autorizou a divulgação. Por outro lado, temos toda uma equipe de profissionais da saúde que violaram o código profissional de conduta ética ao repassar as informações sigilosas para a imprensa. Temos posto um festival de infrações éticas graves em todos os lados. Sinceramente, não acredito em pedidos de desculpas frente a tamanhas atrocidades. Espero que todo esse caso e suas especificidades sejam levados adiante tanto dentro do campo da justiça criminal quanto no campo ético nos conselhos de todos esses profissionais. Falar sobre o aborto é muito complexo por ser um tema que envolve questões religiosas, morais, filosóficas, éticas, biomédicas, científicas, judiciárias, entre outras. A minha visão pessoal é a da descriminalização para que possamos deslocar essa prática do campo criminal para o campo da saúde pública coletiva. É imprescindível colocar esse tema na mesa de debate sem hipocrisias para entender suas nuances que culminam em óbitos de centenas de milhares de mulheres pobres, porque as de classe mais privilegiadas, ainda que seja considerado crime, também abortam, mas não morrem.

Sérgio Camargo saiu da cadeira do Instituto Palmares como o pior gestor, e aquele que destruiu quase tudo que foi construído em um longo período. Quais as ações necessárias para tentar recuperar o Instituto Palmares?

Rita: Eu lembro que em 2019 esse que hoje está presidente do Brasil disse que veio para destruir tudo que tinha sido construído, e assim, ele tentou fazer, até com certo êxito. Ele minou nossas instituições e nossos institutos de duas formas para implodi-los por dentro. A primeira foi subfinanciando levando a quase falência e impossibilidade de gerência e a segunda forma foi a de nomear em cargos estratégicos pessoas contrárias as prerrogativas dos institutos e instituições. Então ele nomeou um racista para o Instituto Palmares, nomeou gestores ligados aos grileiros e assassinos de indígenas na FUNAI, nomeou quem odeia Educação e Saúde para esses ministérios, nomeou quem odeia feminismo e direitos humanos para o ministério das mulheres, quem odeia trabalhador e pobre para o ministério da economia e assim por diante. Foi uma estratégia de governar. Isso tudo fez muito mal ao país. Não será um trabalho fácil nem rápido, mas eu acredito que o próximo governo irá se empenhar bastante para recuperar o que quase foi destruído se cercando de profissionais dotados de excelência e comprometidos com a democracia e com as causas públicas.

A mesma situação vem acontecendo com a FUNAI, e agora com o episódio da morte de Bruno e Dom, deixou expostos conflitos, o que já se tinha ciência. Quais os reflexos que ainda veremos depois que Bolsonaro passar nas instituições brasileiras?

Rita: Em outubro teremos a chance de virarmos essa triste página de nossa história elegendo para o executivo e para o parlamento pessoas comprometidas com a estabilidade social, econômica e política do país. Acredito que vamos no livrar de Bolsonaro nas urnas, mas isso não significa que iremos nos livrar tão cedo do bolsonarismo que é uma ideologia prima irmã do nazifascismo. Muitos adoradores dessa seita ainda estarão dentro de nossas instituições ou permeando-as e vamos precisar cala-las dentro do estado democrático de direito através da Educação e, se preciso for, das leis e das nossas instituições judiciárias.

Sobre Josué Júnior (685 artigos)
Josué Júnior, carioca, pós- graduado pela faculdade Cândido Mendes. Atua no mercado com sua empresa Arte Foto Design é proprietário do site de conteúdo Linkezine. Registro Profissional: MTb : 0041561/RJ

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