Entrevista com Kamila Bandeira, Pesquisadora de Vertebrados e Divulgadora Científica
Hoje temos o prazer de conversar com Kamila Bandeira, uma pesquisadora cuja carreira e dedicação se destacam no estudo da Zoologia e Paleontologia de Vertebrados. Kamila é associada ao Laboratório de Sistemática e Biogeografia, no Departamento de Zoologia do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes da UERJ. Com um doutorado (2022) e mestrado (2015) pelo Programa de Pós-graduação em Zoologia do Museu Nacional/UFRJ (PPgZoo-MN/UFRJ), Kamila atua especialmente na área de Anatomia Comparada de vertebrados, com uma ênfase particular em saurópodes — um grupo fascinante de dinossauros herbívoros.
Além de suas pesquisas focadas em osteologia, taxonomia e sistemática, Kamila Bandeira também contribui para a divulgação científica, buscando aproximar o público do conhecimento paleontológico e promover a compreensão da importância dos fósseis para a ciência e a sociedade. Nesta entrevista, vamos conhecer mais sobre sua trajetória, as descobertas que marcam sua carreira e sua visão sobre o papel da ciência na educação pública.
A descoberta do Tietasaura derbyiana foi um marco importante para a paleontologia brasileira. Você poderia compartilhar um pouco sobre como foi o trabalho de análise dos fósseis, e como o contexto histórico e cultural inspirou o nome desse dinossauro?
Kamila: “Trabalhar na identificação da Tietasaura derbyiana, foi um processo muito marcante. Este pequeno dinossauro ornitísquio, o primeiro nomeado oficialmente no Brasil, tem um simbolismo especial: além de ter sido um dos primeiros fósseis de dinossauros coletados no nosso país, o nome “Tietasaura” é uma homenagem à personagem Tieta, de Jorge Amado, que traz toda a força da cultura baiana e o retorno de algo que um dia partiu. Já o nome “derbyiana” presta tributo ao geólogo Orville Derby, um pioneiro da paleontologia no Brasil. Achei emocionante “resgatar” esses fósseis, que saíram do país há tanto tempo, e ver como esse processo de identificação conectou ciência e cultura, dando uma nova narrativa aos fósseis brasileiros.”
A Bacia do Recôncavo, Bahia, revelou uma fauna pré-histórica diversa e com características raras, datando de cerca de 130 milhões de anos. Que impacto essa descoberta tem na compreensão da evolução e diversificação dos dinossauros, e como isso coloca o Brasil no mapa da Paleontologia mundial?
Kamila: “A descoberta da Tietasaura, além de ser o primeiro dinossauro nomeado da Bahia, ampliou o entendimento sobre como os dinossauros se distribuíam antes da separação dos continentes de Gondwana, cerca de de 130 milhões de anos. Foi inspirador ver como a fauna brasileira do período Cretáceo inclui uma diversidade de dinossauros comparável a outras regiões de mesmo período ao redor do mundo. Assim, a Tietasaura fortalece o papel do Brasil no cenário mundial da paleontologia e traz uma evidência significativa da riqueza e potencial dos nossos fósseis.”
Sabemos que muitos fósseis brasileiros estão hoje no exterior e que há uma discussão sobre a soberania científica do Brasil sobre essas peças. Quais avanços e mudanças seriam necessários para fortalecer a pesquisa e a preservação de fósseis no país?
Kamila: “Acho que preservar a soberania científica sobre os fósseis brasileiros é um tema urgente, e que não compete apenas aos paleontólogos. Isso vai além do meio acadêmico, e precisa de apoio e conscientização da população. Muitos fósseis nacionais estão no exterior, e trazê-los de volta seria essencial para o avanço das pesquisas no Brasil. Além disso, precisamos de políticas de preservação e incentivo ao nosso patrimônio paleontológico, da mesma forma que atualmente fazemos com biomas em perigo, como a Mata Atlântica. Ter nossos fósseis aqui significa não só maior acesso à pesquisa para cientistas brasileiros, mas também um passo importante para proteger a nossa herança científica e natural.”
Além do aspecto científico, como você vê a importância dessas descobertas na construção de uma identidade científica e cultural no Brasil, e como isso influencia a popularização da Paleontologia para o público brasileiro?
Kamila: “Vejo que a paleontologia tem um papel importante na construção de uma identidade científica e cultural. O nome Tietasaura já é um exemplo disso, pois se conecta com a literatura e a cultura brasileiras, tornando a ciência mais acessível ao público. É uma forma de mostrar que a paleontologia não está isolada nos meios típicos de pesquisa, como laboratórios e museus, mas faz parte da nossa história, cultura e do nosso patrimônio. Essas descobertas nos ajudam a criar uma conexão emocional com o passado e a valorizar a nossa própria biodiversidade – inclusive, a pretérita.”
Para os jovens que gostariam de trilhar o caminho da Paleontologia, quais as orientações e conselhos você daria?
Kamila: “Para quem deseja seguir a carreira na paleontologia, eu diria que é preciso muita dedicação e paciência, especialmente porque temos vivido tempos difíceis de desvalorização dos cientistas. Este é um campo que demanda estudo contínuo e, especialmente no Brasil, também é preciso determinação para perseverar em épocas com pouco incentivo financeiro e pouca valorização. Sem os paleontólogos para proteger nosso patrimônio natural, iremos continuar perdendo fósseis com grande importância científica. Mas, acredito fortemente que a paleontologia no Brasil tem um futuro brilhante, e os jovens são parte fundamental disso.”

Parabéns pela entrevista!
Parabéns pela sua entrevista!👏