Dopamina: como a busca desenfreada por estímulos pode afetar a satisfação na vida
Dopamina: como a busca desenfreada por estímulos pode afetar a satisfação na vida
Você já se pegou conferindo o celular apenas alguns segundos após guardá-lo no bolso ou comprando algo por impulso em uma promoção? Essas pequenas ações do dia a dia podem estar ligadas à maneira como nosso cérebro responde à dopamina, neurotransmissor responsável pela motivação e pelo sistema de recompensa.
Para a psiquiatra norte-americana Anna Lembke, esses estímulos constantes têm moldado a vida moderna, levando a uma sensação crescente de insatisfação. Lembke, chefe da clínica especializada em vícios da Universidade Stanford, é autora do livro Nação Dopamina: Por que o Excesso de Prazer Está Nos Deixando Infelizes e o que Podemos Fazer para Mudar (Editora Vestígio, 2022), onde explora como a busca incessante por prazer pode resultar em tolerância e compulsão.
O papel da dopamina no sistema de recompensa
A dopamina, descoberta em 1957 pelo neurofarmacologista Arvid Carlsson, é comumente chamada de “hormônio do prazer”, mas sua função principal está ligada à motivação e à busca por recompensas. Atividades e substâncias como chocolate, sexo, nicotina e drogas elevam os níveis de dopamina no cérebro em diferentes graus:
- Chocolate: +55%
- Sexo: +100%
- Nicotina: +150%
- Cocaína: +225%
- Anfetaminas: +1.000%
Após um pico de dopamina, o cérebro tenta equilibrar os níveis, o que pode gerar sentimentos de ansiedade, irritabilidade e depressão. Esse mecanismo explica a necessidade crescente de estímulos mais intensos para alcançar o mesmo nível de prazer, criando um ciclo de compulsão e tolerância.
O impacto da tecnologia e da abundância
Lembke observa que o avanço da tecnologia e o fácil acesso a estímulos digitais intensificaram essa dinâmica. Redes sociais, compras online e até mesmo o consumo de notícias ativam o sistema de recompensa, tornando-se uma espécie de “droga da novidade”.
“As mídias sociais são conexão humana em forma de droga. O que torna algo viciante? Algo que dispara dopamina no sistema de recompensa do cérebro de forma rápida”, explica a psiquiatra. Segundo ela, a exposição constante a esse tipo de estímulo pode gerar insensibilidade emocional e diminuir a empatia.
A própria autora compartilha sua experiência com a dependência de romances eróticos, que impactou sua rotina e bem-estar. Para ela, reconhecer esses padrões e adotar estratégias para reduzir a exposição a estímulos constantes é essencial para restaurar o equilíbrio emocional.
O papel do desconforto na construção da resiliência
Lembke defende que evitar a dor e o desconforto pode ter consequências negativas. A sociedade moderna busca eliminar qualquer sofrimento, seja através de estímulos prazerosos ou do uso excessivo de medicamentos. No entanto, enfrentar desafios é fundamental para o desenvolvimento da resiliência emocional.
Ela sugere práticas como banhos frios, que, além de trazerem benefícios físicos, podem ajudar a treinar o cérebro para lidar melhor com desconfortos.
“Evitar a dor nos priva de experiências que constroem os calos mentais para encarar desafios futuros”, afirma Lembke. Segundo ela, é essencial que os pais permitam que seus filhos enfrentem desafios e frustrações para que possam desenvolver resistência psicológica ao longo da vida.
Mudando a relação com os estímulos
A psiquiatra sugere que, ao invés de buscar constantemente novas formas de prazer para se adaptar ao mundo moderno, é mais benéfico modificar a relação com os estímulos. Praticar momentos de tédio, reduzir o uso de redes sociais e buscar atividades que exijam paciência e esforço são algumas estratégias que podem contribuir para um maior bem-estar.
Lembke reforça que, embora os medicamentos psicotrópicos possam ser úteis em alguns casos, seu uso excessivo pode levar à dependência e diminuir a capacidade de sentir emoções intensas e genuínas.
“A sugestão no livro é que, em vez de usar medicamentos para nos adaptar a esse novo mundo, devemos tentar mudar nossas experiências nele”, conclui.
disponível para venda na Amazon: https://a.co/d/0gDgs0S


Deixe uma resposta