A Última Chance de Veneza? Engenheiro propõe levantar a cidade para salvar sua história
A Última Chance de Veneza? Engenheiro propõe levantar a cidade para salvar sua história
Por mais romântica que seja a imagem de Veneza cortada por canais e navegada por gôndolas, a verdade é menos poética: a cidade está afundando — literalmente. Nos últimos 100 anos, ela cedeu 25 centímetros, enquanto o nível do mar subiu 30. Esse descompasso cruel entre solo e mar ameaça não só construções centenárias, mas o modo de vida e a identidade de um dos destinos mais emblemáticos do planeta.
Mas e se, em vez de esperar o inevitável, pudéssemos levantar Veneza do fundo?
Essa é a proposta ousada de Pietro Teatini, engenheiro e professor da Universidade de Pádua, que afirma ser possível elevar a cidade em até 30 centímetros — uma façanha que daria cerca de 50 anos de respiro à “Sereníssima”.
Ciência ou ficção?
A ideia de Teatini soa improvável, quase como roteiro de um filme-catástrofe. Mas o raciocínio é engenhoso: injetar água salina em aquíferos profundos sob a cidade. A mesma água que um dia foi extraída de forma desastrosa da região de Marghera, provocando afundamento, agora seria devolvida ao subsolo com objetivo inverso — fazer o solo subir de forma lenta, controlada e homogênea.
Segundo o engenheiro, o processo é semelhante ao armazenamento de gás natural praticado no Vale do Pó. Quando os reservatórios são preenchidos, o solo se expande. Ao aplicar essa lógica em Veneza, o solo sob a cidade se elevaria, criando uma espécie de “colchão d’água” invisível. A proposta, no entanto, não é isenta de riscos — rachaduras, instabilidades e falhas estruturais são possíveis se o método não for aplicado com extrema precisão.
Testes, dúvidas e esperanças
O plano envolve a perfuração de 12 poços ao redor da cidade, num círculo de 10 quilômetros de diâmetro. A ideia é iniciar com um teste em menor escala, em uma parte menos sensível da lagoa, durante dois ou três anos, ao custo de 30 a 40 milhões de euros. Caso funcione, o custo total do projeto seria cerca de um terço do já controverso sistema de contenção Mose, que custou 6 bilhões de euros.
O Mose, aliás, foi pensado para ser ativado poucas vezes ao ano. Na prática, ele já foi usado mais de 100 vezes desde 2020, e especialistas alertam que sua vida útil não deve passar de 40 anos. Isso torna o projeto de Teatini ainda mais relevante — não como solução final, mas como ponte para o futuro.
Preservar o passado, planejar o futuro
Veneza não enfrenta apenas a ameaça das águas, mas também a perda de sua população. Com menos de 50 mil habitantes, a cidade tornou-se palco de um turismo que sufoca sua vitalidade. Ainda assim, abandoná-la seria, como diz Teatini, “a opção mais extrema que podemos imaginar”.
O engenheiro vê a cidade como uma joia única, cujo valor transcende o financeiro. Para ele, salvar Veneza é uma responsabilidade histórica. “Ela deve continuar onde sempre esteve: entre os pântanos, com suas gôndolas e vaporettos.”
Com um plano ousado, décadas de pesquisa e um senso de urgência que ecoa em cada centímetro afundado, Teatini tenta o impossível: parar o tempo — ou pelo menos ganhar mais algumas décadas para que a humanidade decida, de forma mais sábia, o que fazer com esse tesouro à beira do desaparecimento.
disponível para venda na Amazon: https://a.co/d/0gDgs0S


Deixe uma resposta