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Ernesto Mané: entre raízes e descobertas no Mês da Consciência Negra

O físico e diplomata Ernesto Mané, brasileiro e guineense, chega ao Rio de Janeiro neste mês de novembro para lançar seu primeiro livro

O lançamento acontece em um momento simbólico — o Mês da Consciência Negra — quando o país volta seu olhar para histórias que resgatam memórias e afirmam heranças culturais. Em suas falas e encontros com o público, Mané convida à reflexão sobre o que nos constitui como indivíduos e como nação, revelando, com lirismo e lucidez, a busca por um lugar de origem que é, ao mesmo tempo, físico e afetivo.

O físico e diplomata Ernesto Mané, brasileiro e guineense, chega ao Rio de Janeiro neste mês de novembro para lançar seu primeiro livro, Antes do início, publicado pela Tinta-da-China Brasil. A obra, que marca sua estreia literária, é uma imersão sensível e profunda em temas como identidade, pertencimento e diáspora africana, explorando as conexões entre o Brasil e a Guiné-Bissau.

O lançamento acontece em um momento simbólico — o Mês da Consciência Negra — quando o país volta seu olhar para histórias que resgatam memórias e afirmam heranças culturais. Em suas falas e encontros com o público, Mané convida à reflexão sobre o que nos constitui como indivíduos e como nação, revelando, com lirismo e lucidez, a busca por um lugar de origem que é, ao mesmo tempo, físico e afetivo.

 Linkezine conversa com Ernesto Mané sobre sua trajetória, a força da literatura afro-diaspórica e o poder da palavra como ferramenta de reconstrução de identidade. Uma entrevista que promete atravessar fronteiras — geográficas e emocionais.

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Doutor em física nuclear e diplomata de carreira, o senhor transita entre o rigor científico e a sensibilidade literária. Como essas duas dimensões — aparentemente tão distintas — dialogam dentro de você e se refletem na sua escrita?

Ernesto :

Em Antes do Início, transcrevi meu diário de viagem à Guiné-Bissau, realizada em 2010. Naquela época, eu era um físico nuclear experimental, habituado a coletar dados em laboratório, analisá-los e tirar conclusões com base em experiências empiricamente constituídas. Esse treinamento, de forte base ocidental e eurocêntrica, moldou minha visão de mundo e influenciou a maneira como registrei minhas impressões no diário.
Por outro lado, já começava a enfrentar contradições internas ligadas ao fato de ser um homem negro, descendente de primeira geração de um africano, e, ao mesmo tempo, ter um total desconhecimento sobre a África — aquilo que passei a chamar de minha “outra metade”. Essas contradições geraram primeiro um incômodo, depois uma dor, que, acredito, despertaram em mim certa sensibilidade e me ajudaram a reconstruir minha identidade — não negando a visão de mundo que trago comigo, mas atualizando-a e expandindo-a para novos horizontes. Tudo isso faz parte da experiência humana e, portanto, é também matéria literária.
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Sua viagem à Guiné-Bissau foi, ao mesmo tempo, um retorno às origens e um confronto com memórias familiares e coletivas. Quinze anos depois, o que ainda ecoa dessa experiência em sua vida pessoal e na sua visão sobre identidade e pertencimento?

Ernesto: 

Nesses quinze anos, muita coisa mudou no mundo e na minha vida pessoal e familiar. As democracias, em diversas partes do globo, vêm sofrendo ataques sem precedentes às suas bases; o mundo tornou-se mais inseguro e belicista. Vivenciamos uma pandemia que tirou a vida de mais de 700 mil pessoas apenas no Brasil. Nesse período, perdi meu pai, meus avós paternos e outros familiares africanos. Tornei-me diplomata, casei novamente e sou hoje pai de dois meninos. Há apenas três anos concluí o processo de naturalização guineense.
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No livro, o senhor menciona o impacto de ter sido visto como “branco” pela primeira vez em Bissau. Essa inversão de perspectiva alterou de alguma forma sua compreensão sobre raça e as fronteiras simbólicas da negritude?

Ernesto:

O “negro” como representação de uma alteridade é uma invenção da branquitude e do colonialismo. Quero dizer com isso que o africano, antes do contato com o europeu, não se via como o “outro”. O colonialismo foi — e continua sendo — profundamente perverso porque conseguiu introjetar na mente dos africanos uma visão de si mesmos mediada pelo olhar do colonizador. O negro passou a enxergar-se com os olhos do branco, gerando uma forma de autoalienação, uma cisão interna que produz imenso sofrimento psíquico.  Minha ida à África foi, em grande medida, uma tentativa de reverter esse sentimento de autoalienação. Ter sido visto pelas crianças locais como “branco” foi, sem dúvida, uma experiência chocante, mas também reveladora, pois me mostrou que o colonialismo segue vivo, operando silenciosamente nas percepções e nas hierarquias simbólicas que ainda nos habitam.
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Como diplomata que já viveu em diferentes países, o senhor acredita que o Brasil tem avançado na forma de lidar com sua herança africana? E, se sim (ou se não), que caminhos enxerga para que essa reconciliação cultural se torne mais concreta?

 Ernesto:

Acredito que sim, tanto no plano interno quanto no externo. Internamente, o Brasil começa a se reconhecer, pela primeira vez, como um país majoritariamente negro — se considerarmos pretos e pardos. Externamente, o país tem retomado uma trajetória de reaproximação com a África, iniciada ainda na década de 1960, condição essencial para o fortalecimento de uma política externa independente e de vocação universalista.
Os próximos passos, a meu ver, envolvem o aprofundamento da consciência, por parte da sociedade brasileira, de que estamos ligados à África por um processo diaspórico multisecular. É preciso adensar e qualificar esses laços em todas as dimensões. Do lado africano, creio que, à medida que o continente avance em seu processo de regeneração após séculos de jugo colonial, de tornará uma referência e um polo de atração para todos os negros da diáspora.
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Ernesto Mané na Flup, Rio de Janeiro (mediador)
Data: quinta-feira, 20/11/2025
Horário: 18h
Local: Viaduto Prefeito Negrão de Lima. Madureira, Rio de Janeiro
Mesa: Beco da Memória – The Future of the Past
Participantes: Ana Maria Gonçalves e Felwine Sarr
Mediação: Ernesto Mané

Ernesto Mané na Livraria da Travessa Botafogo, Rio de Janeiro
Data: sexta-feira, 21/11/2025
Horário: 19h
Local: Livraria da Travessa Botafogo
R. Voluntários da Pátria, 97. Botafogo, Rio de Janeiro, RJ
Mediação: Ynaê Lopes e Celso Rocha de Barros

Sobre josuejr54 (4469 artigos)
Josué Bittencourt, carioca, pós- graduado pela faculdade Cândido Mendes. Atua no mercado com sua empresa Arte Foto Design é proprietário do site de conteúdo Linkezine. Registro Profissional: MTb : 0041561/RJ

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