Clara Ianni desmonta imaginários e abre fissuras na história latino-americana
Videoinstalação inaugura ciclo no MASP em 2026
Há imagens que parecem inocentes, quase didáticas, mas carregam camadas profundas de intenção. É a partir desse território ambíguo que Clara Ianni constrói Openings (2022), videoinstalação apresentada pelo Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand entre 6 de fevereiro e 22 de março. A obra inaugura o ciclo Histórias latino-americanas e marca a única monográfica dedicada a uma artista brasileira no programa anual do museu.
Na Sala de Vídeo do MASP, o público se depara com uma sequência de aberturas de filmes educativos sobre a América Latina produzidos pelos Estúdios Walt Disney ao longo do século XX. Organizados por Ianni, esses fragmentos revelam como entretenimento, pedagogia, política e economia se entrelaçaram na construção de narrativas aparentemente neutras, mas profundamente ideológicas.
Os filmes apropriados foram criados no contexto da chamada política da Boa Vizinhança, estratégia adotada pelos Estados Unidos para fortalecer laços diplomáticos com países latino-americanos. Voltados principalmente ao público infantil, esses materiais buscavam apresentar a região ao mundo, mas acabavam reforçando estereótipos e simplificações que moldaram imaginários distantes das realidades locais.
Em Openings, slogans como “Good Neighbor Family” e “Health for the Americas” surgem não como promessas, mas como pistas. Ao isolar essas aberturas, a artista evidencia mensagens sutis que atravessam décadas e ajudam a compreender como certos discursos se naturalizaram ao longo do tempo.
O vídeo articula animações clássicas dos Estúdios Disney com registros de viagens amadoras produzidos por corporações norte-americanas ligadas a atividades extrativistas na América Latina. A justaposição revela um uso recorrente de imagens recicladas, combinadas para criar narrativas pedagógicas que, sob o verniz educativo, operavam como dispositivos de propaganda.
A curadoria é de Daniela Rodrigues, supervisora de mediação e programas públicos do MASP, que destaca o sentido político da presença brasileira no ciclo. “O Brasil também é América Latina. A inclusão de uma artista brasileira afirma esse pertencimento, muitas vezes apagado por barreiras linguísticas e culturais”, explica.
A obra é apresentada em uma tela que remete a outdoors, evocando os formatos de difusão do cinema norte-americano e ampliando a reflexão sobre circulação, poder e visibilidade. Sala de Vídeo: Clara Ianni é a primeira exibição de 2026 no MASP e antecipa um ano que ainda contará com mostras de Oscar Muñoz, Regina José Galindo, Claudia Martínez Garay e Edgar Calel.
Ao revisitar imagens do passado, Clara Ianni não busca respostas fáceis. Abre frestas. E nelas, convida o público a olhar de novo — e com mais desconfiança — para aquilo que parecia apenas uma introdução.
Quando a história começa de novo, as imagens contam mais do que parecem. #ArteContemporânea
#MASP
disponível para venda na Amazon: https://a.co/d/0gDgs0S


Deixe uma resposta