Entre o que se vê e o que sustenta: a transparência em camadas na nova coletiva da MITS
Exposição convida o olhar a atravessar materiais, gestos e processos
A transparência, em Através, não é promessa de clareza absoluta. É caminho, fricção e, sobretudo, pergunta. A nova exposição coletiva da MITS, que abre no dia 5 de fevereiro, propõe ao visitante um deslocamento sutil: olhar para aquilo que sustenta a obra antes mesmo que ela se imponha como forma final. O gesto é simples, mas o efeito reverbera. Ao reunir cinco artistas de gerações distintas, a mostra constrói um percurso onde o visível convive com o que normalmente passa despercebido.
Desde as vanguardas do século XX, a arte vem se afastando da obsessão pelo objeto acabado para se aproximar da estrutura, do processo e da matéria em estado de tensão. Em Através, esse movimento ganha corpo ao recusar a transparência como algo neutro. Aqui, ela aparece como conceito expandido — metáfora, matéria e operação crítica — revelando camadas que geralmente permanecem fora do enquadramento.
No centro da exposição está a pesquisa de David Batchelor, artista e teórico fundamental para pensar cor, luz e cultura urbana. Em três obras da série Concretos, blocos densos de cimento incorporam fragmentos de acrílico colorido e translúcido. O embate entre peso e luminosidade cria uma instabilidade visual que questiona ideias de permanência e valor. A cor emerge do residual, do banal, e a transparência expõe suas próprias contradições.
Essa lógica de revelar o que é ocultado atravessa também o trabalho de Maria Luiza Toral. A artista parte de resíduos tecnológicos descartados em etapas invisíveis da produção industrial, sobretudo materiais translúcidos. Ao transformar esses vestígios em superfícies pictóricas e escultóricas, Toral incorpora sistemas de fixação, gravidade e montagem como partes indissociáveis da obra, aproximando sua formação em antropologia de uma prática artística atenta aos bastidores da matéria.
Alexandre Canonico opera a transparência como método. Em trabalhos que transitam entre arquitetura, escultura e desenho no espaço, o artista utiliza materiais industrializados para expor decisões, limites e gestos construtivos. Nada é ocultado: o fazer se torna visível, quase didático, sem perder a complexidade poética.
Já Rafael D’Aló e Maria Tereza Bomfim exploram objetos residuais e sistemas abertos. Em Shutters (2025), D’Aló investiga fragmentos arquitetônicos e seus ritmos urbanos, tensionando abertura e bloqueio. Bomfim, por sua vez, transforma a parede em elemento ativo. Na série Arpejos (2025), fragmentos de latão suspensos desenham composições instáveis, onde montagem, espaço e percepção se confundem.
Através se afirma como exercício contínuo de revelação parcial. Um convite a observar o que sustenta a forma, o que antecede o objeto e o que permanece quando ele, sozinho, já não basta.
Nem tudo o que importa está na superfície. Através convida o olhar a ir além do visível, camada por camada. #ArteContemporanea #ExposicaoSP
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