Projeto quer cortar controle financeiro de agressores sobre vítimas
Proposta amplia proteção patrimonial feminina
A violência doméstica nem sempre deixa marcas visíveis — e, muitas vezes, é silenciosa, burocrática e registrada em papel. Procurações, autorizações e assinaturas que, à primeira vista, parecem rotineiras podem se transformar em instrumentos de controle. É nesse território menos evidente que um novo projeto de lei pretende atuar.
Apresentada na Câmara dos Deputados, a proposta do deputado federal Beto Richa (PSDB-PR) busca reforçar a proteção financeira de mulheres em situação de violência. A ideia é simples na forma, mas significativa no impacto: sempre que uma medida protetiva for concedida, a Justiça deverá verificar automaticamente se o agressor possui poderes legais para administrar bens ou movimentar recursos da vítima.
O objetivo é interromper um tipo de violência que opera longe dos holofotes, mas que compromete a autonomia e a segurança econômica. A chamada violência patrimonial já é reconhecida pela Lei Maria da Penha, mas, na prática, ainda encontra brechas. Muitas delas surgem justamente do uso de instrumentos jurídicos válidos — como procurações — que acabam sendo utilizados como mecanismos de dominação.
Pelo texto, ao identificar esse tipo de vínculo legal, o juiz poderá suspender imediatamente tais autorizações. A medida busca evitar que o agressor continue exercendo controle financeiro mesmo após o reconhecimento da situação de risco. Em paralelo, o projeto também prevê o uso de bases eletrônicas de cartórios para agilizar a identificação dessas relações, tornando o processo mais eficiente.
A proposta dialoga com uma realidade crescente: o entendimento de que a violência contra a mulher vai além da agressão física. O controle do dinheiro, a limitação de acesso a recursos e a dependência financeira forçada são formas de abuso que dificultam o rompimento do ciclo de violência.
Ao automatizar a análise dessas situações, o projeto tenta reduzir o tempo entre a denúncia e a proteção efetiva. Na prática, significa impedir que o agressor utilize a estrutura legal para prolongar o domínio sobre a vítima, mesmo após intervenções judiciais.
A iniciativa ainda será debatida no Congresso, mas já aponta para um movimento mais amplo de atualização das ferramentas legais diante das múltiplas formas de violência. Em um cenário onde autonomia também passa pelo acesso ao próprio patrimônio, proteger financeiramente é, cada vez mais, proteger integralmente.
E, nesse contexto, cada mecanismo que limita o poder do agressor representa mais do que uma medida jurídica — é um passo concreto na reconstrução da liberdade.
Nem toda violência deixa marcas visíveis — algumas passam pelo controle do dinheiro. E isso também precisa parar. #DireitosDasMulheres #ViolenciaDomestica
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