Bitucas colocam praias brasileiras entre as mais poluídas do planeta
Filtros de cigarro dominam lixo marinho no país
Bitucas colocam praias brasileiras entre as mais poluídas do planeta
Filtros de cigarro dominam lixo marinho no país
O cenário é conhecido: areia clara, mar em movimento e o som constante das ondas. Mas, entre conchas e pequenos fragmentos naturais, um elemento discreto se repete — as bitucas de cigarro. Pequenas, quase invisíveis à primeira vista, elas se acumulam silenciosamente e transformam paisagens paradisíacas em pontos críticos de contaminação ambiental.
Um estudo internacional publicado na revista científica Environmental Chemistry Letters revela que praias brasileiras estão entre as mais contaminadas do mundo por esse tipo de resíduo. A pesquisa analisou dados de 130 estudos realizados em 55 países entre 2013 e 2024, incluindo ambientes urbanos e aquáticos. O resultado coloca o Brasil em destaque negativo: enquanto a média global é de 0,24 bituca por metro quadrado, algumas praias brasileiras registram densidades quase 40 vezes maiores.
Em certos trechos costeiros, as bitucas representam mais de dois terços de todo o lixo marinho coletado. O dado reforça uma realidade muitas vezes ignorada: os filtros de cigarro são hoje o resíduo mais descartado do planeta. Estima-se que cerca de 4,5 trilhões de unidades sejam jogadas fora todos os anos.
O impacto vai além da poluição visual. Produzidos com acetato de celulose — um tipo de plástico — os filtros podem permanecer no ambiente por décadas ou até séculos. Quando entram em contato com a água, liberam microplásticos e mais de 7 mil substâncias químicas, incluindo nicotina, metais pesados e compostos potencialmente cancerígenos. Uma única bituca tem capacidade de contaminar mais de mil litros de água, afetando desde organismos microscópicos até grandes espécies marinhas.
O levantamento também apontou que áreas com proteção ambiental apresentam níveis significativamente menores de contaminação. Em média, essas regiões registram índices cinco vezes inferiores, podendo chegar a quase dez vezes menos no Brasil. Ainda assim, nem mesmo esses espaços escapam totalmente do problema.
Para o epidemiologista André Szklo, pesquisador do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e integrante do estudo, a questão envolve também políticas públicas e conscientização. Segundo ele, durante décadas, a indústria do tabaco promoveu a ideia de que os filtros seriam biodegradáveis, influenciando o comportamento dos consumidores e ampliando o descarte inadequado.
A pesquisa é resultado de uma colaboração internacional que reuniu cientistas da Unifesp, Unesp, INCA, Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, e Universidad San Ignacio de Loyola, no Peru. O alerta é claro: pequenas bitucas, quase imperceptíveis, acumulam impactos gigantescos — e exigem respostas urgentes para preservar o equilíbrio dos ecossistemas costeiros.
Pequenas no tamanho, gigantes no impacto: bitucas de cigarro estão transformando praias brasileiras em áreas críticas de poluição. 🌊 #MeioAmbiente #Sustentabilidade
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