Do desfile ao museu: alegoria da Vila Isabel ganha nova leitura
Escultura carnavalesca ocupa espaço expositivo
Do desfile ao museu: alegoria da Vila Isabel ganha nova leitura
Escultura carnavalesca ocupa espaço expositivo
O que acontece quando o brilho efêmero do carnaval encontra o silêncio contemplativo de uma galeria? Na Casa Brasil, no Rio de Janeiro, essa pergunta ganha forma concreta até o dia 8 de julho com a exposição “Casa Fluminense”. Entre as 97 obras assinadas por 60 artistas de diferentes regiões do estado, uma peça chama atenção por carregar consigo o eco da avenida: “Pierrô Apaixonado”, da dupla carioca Gabriel Haddad e Leonardo Bora.
Conhecidos por seu trabalho à frente do GRES Unidos de Vila Isabel, os artistas transportam para o espaço expositivo um fragmento do desfile de 2025, que homenageou o multiartista Heitor dos Prazeres. A escultura, originalmente parte do carro alegórico “O Bonde do Pierrô”, agora se apresenta sob nova luz — distante da bateria, do samba-enredo e da vibração coletiva que a moldaram.
A obra remete à célebre marchinha “Pierrô Apaixonado”, composta por Heitor dos Prazeres em parceria com Noel Rosa, figura emblemática de Vila Isabel. No desfile, o personagem surgia abraçado a um bonde, símbolo não apenas do transporte urbano no início do século XX, mas também das transformações culturais e sociais da cidade. O detalhe não é aleatório: a própria quadra da escola está localizada onde antes funcionava uma estação de bondes, reforçando a conexão entre memória urbana e identidade carnavalesca.
Esculpido por Alex Salvador, o Pierrô carrega ainda os traços de Heitor, que chegou a interpretar o personagem em uma apresentação histórica no antigo Copacabana Palace. Essa sobreposição de referências — música, teatro, pintura e carnaval — sintetiza a proposta da dupla, vencedora do Prêmio PIPA 2025, um dos mais relevantes das artes visuais brasileiras.
Para Haddad e Bora, não há fronteiras rígidas entre o que se convencionou chamar de arte carnavalesca e arte contemporânea. Ao deslocar a escultura da avenida para a galeria, o trabalho ganha novas camadas de interpretação. Fora do contexto festivo, a peça convida o público a observar detalhes, texturas e significados que, no desfile, passam em segundos.
A mudança de escala e ambiente provoca estranhamento — e é justamente aí que reside sua potência. O que antes era parte de um espetáculo coletivo torna-se objeto de contemplação individual. Ainda assim, algo da avenida permanece pulsando.
Com patrocínio da Petrobras, Ministério da Cultura e Governo do Brasil, a exposição reafirma a força da produção artística fluminense e sugere que, talvez, o carnaval nunca termine de fato. Em certos casos, ele apenas muda de endereço — e continua contando histórias.
Do samba ao silêncio da galeria: o Pierrô continua dançando 🎭 #ArteContemporanea #CarnavalCarioca
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