Entre o riso e o abismo: “A Linha Solar” estreia no CCBB SP
Peça explora conflitos e falhas na comunicação
Entre o riso e o abismo: “A Linha Solar” estreia no CCBB SP
Peça explora conflitos e falhas na comunicação
Ainda é madrugada quando o silêncio se rompe. Em cena, duas cadeiras, um casal e uma conversa que nunca termina — apenas se transforma. É nesse território íntimo e instável que “A Linha Solar”, texto inédito no Brasil do dramaturgo russo Ivan Viripaev, encontra seu ponto de partida para investigar algo que atravessa não apenas relações amorosas, mas o próprio tempo em que vivemos: a dificuldade de se comunicar.
Com estreia marcada para 24 de abril no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, a montagem dirigida por Marcelo Lazzaratto aposta na tensão entre o cotidiano e o absurdo. Interpretados por Carol Gonzalez e Chico Carvalho, os personagens Barbara e Werner transitam entre discussões domésticas e reflexões quase cósmicas, enquanto tentam responder a uma pergunta simples — e, ao mesmo tempo, impossível: ficar ou partir?
O que começa com traços de realismo logo escapa para uma atmosfera mais instável, onde o humor convive com a crueldade e o diálogo revela mais desencontros do que respostas. Viripaev constrói uma dramaturgia que tensiona o banal, expondo o quanto a linguagem falha mesmo quando as palavras não faltam. O relógio marca sempre cinco da manhã, como se o tempo estivesse preso naquele instante em que tudo pode desmoronar.
A encenação acompanha essa instabilidade com precisão. O espaço reduzido funciona quase como um tabuleiro emocional, onde cada movimento dos atores altera o equilíbrio da cena. A luz, também assinada por Lazzaratto, não apenas ilumina — ela reage, pulsa e traduz os estados internos dos personagens, tornando visível aquilo que não é dito.
Mais do que uma história sobre um casal, “A Linha Solar” amplia sua lente para refletir sobre o mundo contemporâneo. A incomunicabilidade que atravessa Barbara e Werner ecoa em escalas maiores: conflitos sociais, rupturas políticas e a sensação constante de desalinhamento entre indivíduos. Aqui, o amor aparece como tentativa — às vezes desesperada — de construir pontes onde só existem ruídos.
Ao mesmo tempo, o espetáculo não abandona o humor. Pelo contrário, é nele que encontra respiro e ironia, convidando o público a reconhecer, nas falhas alheias, algo profundamente familiar. Rir, nesse contexto, é também um gesto de identificação.
Com temporada até 17 de maio, a peça integra ainda uma programação formativa que inclui ensaios abertos e oficinas, ampliando o diálogo com o público e com artistas em formação.
No fim, “A Linha Solar” não oferece respostas fáceis. Em vez disso, propõe uma travessia: entre luz e sombra, entre o que se diz e o que nunca chega a ser dito.
Quando falar não é suficiente: “A Linha Solar” transforma um casal em espelho do nosso tempo.#TeatroBrasileiro #CulturaSP
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