Linkezine entrevista : João Candido Portinari
Filho de Candido Portinari revela a missão de preservar um legado universal
João Candido Portinari: a ciência a serviço da memória de um gigante da arte brasileira .
Filho de Candido Portinari e guardião de um dos mais importantes legados artísticos do Brasil, João Candido Portinari construiu uma trajetória que une excelência acadêmica e compromisso com a preservação da cultura nacional. Formado em instituições de prestígio como o Lycée Louis-Le-Grand, a École Nationale Supérieure des Télécommunications de Paris e o MIT, retornou ao Brasil em 1966 para integrar a PUC-Rio, onde foi um dos fundadores do Departamento de Matemática. Em 1979, idealizou o Projeto Portinari, iniciativa que se tornou referência internacional na pesquisa, catalogação e difusão da obra de seu pai. Nesta entrevista à Linkezine, João Candido Portinari compartilha memórias, reflexões e a missão de manter viva a arte e o pensamento de Candido Portinari para as novas gerações.
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João Candido, levar a obra de Candido Portinari ao Museu Nacional da China, com expectativa de mais de 4 milhões de visitantes, representa um dos maiores movimentos internacionais da arte brasileira nos últimos anos. O que esse momento simboliza para o senhor, pessoalmente, e para a projeção cultural do Brasil no cenário global?
João Candido: “Pessoalmente, sinto que estamos cumprindo uma profecia do destino. Ver meu pai, o filho de imigrantes italianos que pintou o café, chegar ao coração da milenar civilização chinesa é o fechamento de um ciclo épico. Para o Brasil, este momento simboliza a nossa maioridade diplomática através da cultura. Não estamos apenas exportando imagens; estamos ocupando o segundo museu mais visitado do mundo com uma narrativa de paz e humanismo, provando que a arte brasileira possui uma escala e uma profundidade que transcendem qualquer barreira geográfica.”
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A exposição “O Brasil de Portinari” apresenta diferentes retratos da identidade brasileira — do trabalho rural às festas populares, da fé ao drama social. Na sua visão, quais aspectos da alma brasileira o público chinês poderá reconhecer ou se conectar de maneira mais profunda através da obra de Portinari?
João Candido : “Acredito que o público chinês se conectará profundamente com o sentido de coletividade e a dignidade do trabalho que Portinari imortalizou. Tanto na China quanto no Brasil de Portinari, a terra e o povo são indissociáveis. Eles reconhecerão nas nossas festas populares, na nossa fé e até no nosso drama social, uma resiliência que lhes é familiar. Portinari não pintava indivíduos isolados; ele pintava a força de um povo, e essa gramática do esforço humano e da solidariedade é um idioma que os chineses dominam há milênios.”
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O senhor costuma dizer que seu pai retratou o povo brasileiro de forma tão verdadeira que acabou retratando todos os povos. Em um mundo cada vez mais marcado por tensões culturais e políticas, qual é a força da arte de Portinari como instrumento de aproximação entre nações tão distintas como Brasil e China?
João Candido : “A força de Portinari reside na sua capacidade de ser profundamente local para se tornar universal. Em tempos de tensões globais, a arte de Portinari atua como um ‘terreno comum’. Enquanto a política muitas vezes foca nas diferenças, as telas de meu pai focam no que é essencialmente humano: o sofrimento, a esperança e o desejo de paz. Levar o pintor de ‘Guerra e Paz’ para Pequim é um gesto político-poético que reafirma que, apesar das distâncias, a dor e a alegria de um camponês são as mesmas em Brodowski ou em uma província chinesa.”
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A exposição também traz uma experiência imersiva monumental, unindo tecnologia e patrimônio artístico. Como o Projeto Portinari tem trabalhado para aproximar as novas gerações da obra de Candido Portinari sem perder a essência humanista e histórica do artista?
João Candido : “O Projeto Portinari entende que a tecnologia não é um fim, mas um meio para democratizar a sensibilidade. A experiência imersiva ‘Portinari Imenso’ não substitui a obra; ela a amplifica para uma geração que lê o mundo através do digital. Nosso trabalho é usar essas ferramentas de ponta para ‘mergulhar’ o jovem dentro da pincelada de meu pai, permitindo que ele sinta o impacto emocional da obra. A essência humanista permanece intacta porque a tecnologia é usada para dar voz ao silêncio das figuras de Portinari, tornando o patrimônio histórico algo vivo e pulsante. E não poderíamos escolher melhor o curador desta parte: o genial Marcello Dantas, que criou aquele emocionante “Portinari Imenso”, apresentado no MIS Experience em SP em 2022, e nosso parceiro há muitas décadas.”
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Depois de décadas dedicadas à preservação e internacionalização da obra de seu pai, o senhor acredita que esta exposição na China inaugura uma nova fase para a arte brasileira no exterior? Que legado o senhor espera deixar para as futuras gerações a partir desse encontro histórico entre Portinari e o público asiático?
João Candido : “Sim, acredito que inauguramos uma fase de ‘extroversão’ da cultura brasileira, onde deixamos de olhar apenas para o eixo Europa-EUA para dialogar com o Oriente. O legado que espero deixar é o da paz através da beleza. Espero que as futuras gerações vejam este encontro na China como a prova de que o Brasil tem uma contribuição ética e estética fundamental a oferecer ao mundo. Que o encontro de Portinari com o público asiático sirva de inspiração para que nossos jovens sigam construindo pontes, e nunca muros.”
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