Massas digitais aceleram polarização e criam novos riscos para a política
Pesquisador analisa como plataformas digitais transformam a ação coletiva
Massas digitais aceleram polarização e criam novos riscos para a política
Pesquisador analisa como plataformas digitais transformam a ação coletiva
A política entrou de vez na lógica das plataformas digitais. Em poucos segundos, uma opinião pode ganhar milhares de adesões, uma acusação pode atravessar diferentes grupos e uma narrativa pode se consolidar antes mesmo que os fatos sejam verificados. Esse novo ambiente é analisado pelo psicanalista Marcio Garrit no livro Ilusão Coletiva: Psicanálise, Massas Digitais e Ciberpopulismo, publicado pela Editora Pangeia.
A obra parte de uma questão central: o que acontece com o comportamento coletivo quando a multidão deixa de depender de uma praça, de uma organização ou de uma liderança presencial e passa a se formar nas telas?
Para Garrit, a digitalização criou uma configuração própria das massas. Pessoas geograficamente distantes podem se reconhecer instantaneamente em símbolos, crenças e emoções compartilhadas. A estrutura é mais veloz, menos previsível e capaz de mobilizar grandes contingentes em torno de acontecimentos políticos, disputas culturais e conflitos de opinião.
O efeito ganha relevância especial em períodos eleitorais. Nesse contexto, segundo o pesquisador, a velocidade das plataformas pode favorecer conteúdos que exploram medo, indignação e sentimento de pertencimento. A informação deixa de disputar espaço apenas com outra informação e passa a competir também com estímulos emocionais cuidadosamente adaptados à dinâmica das redes.
É nesse território que aparecem fenômenos como fake news, cancelamentos e ciberpopulismo. A promessa de respostas simples para problemas complexos encontra um ambiente propício quando usuários são expostos continuamente a conteúdos semelhantes aos que já confirmam suas convicções.
A análise proposta pelo livro recupera conceitos da psicanálise, especialmente as reflexões de Sigmund Freud sobre o comportamento das massas, para interpretar as transformações provocadas pelas plataformas. A diferença, agora, está na escala e na velocidade: a mobilização que antes exigia proximidade física pode ocorrer entre milhões de pessoas conectadas simultaneamente.
Para Garrit, o problema não está apenas na existência de opiniões divergentes, mas na redução dos espaços de elaboração e confronto argumentativo. Quando a identificação com um grupo se torna mais importante do que a disposição para ouvir posições diferentes, o diálogo público perde terreno.
A discussão ganha ainda mais peso diante da influência crescente dos criadores de conteúdo e das novas formas de liderança política nas redes. Nesse ambiente, visibilidade pode se converter rapidamente em autoridade, enquanto a repetição de uma narrativa pode produzir a sensação de consenso.
A política digital, portanto, não representa apenas uma mudança de canal. Ela altera a maneira como grupos se formam, líderes se projetam e conflitos se espalham. Com as eleições no horizonte, compreender essa transformação passa a ser também uma questão de preservação do diálogo democrático.
Quando a multidão cabe na tela, a política também muda de escala. Um novo estudo analisa como fake news, cancelamentos e ciberpopulismo estão transformando a ação coletiva. #Política #Democracia
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