Telefonemas para Woody Allen

 

 

No livro “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J.D. Salinger, o protagonista, Holden Caulfield, diz a seguinte frase: “Bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler fica querendo ser um grande amigo do autor, para se poder telefonar para ele toda vez que der vontade”. Cito esta passagem para falar do que sinto quando vejo os filmes do Woody Allen.

 

Nos últimos anos, tive a oportunidade de assistir toda a filmografia do cineasta americano que foi lançada em DVD. Em diferentes graus, a obra de Allen sempre tem significados subjacentes que são captados na medida em que mudamos a forma com que olhamos o mundo. No entanto, o encanto permanece. O humor refinado, que varia do sarcasmo ao besteirol, sempre provoca uma sutil risada e uma reflexão.

 

O ambiente neurótico de seus filmes, paradoxalmente, traz um quê de paz. O frescor de uma nova paixão e os conflitos internos são elementos que tornam a ficção do americano palpável. Os belos cenários de Nova York, Londres, Barcelona, Paris e, mais recentemente, Roma servem de palco para as tramas que arrancam gargalhadas ou lágrimas dos espectadores.

 

A obra do americano não é rasa, longe disso. Questionamentos existenciais são constantes nos trabalhos de Allen. Os protagonistas de suas tramas são muito próximos às pessoas que encontramos por aí. Gente que enfrenta seus medos ou não, que procura a resposta para os dilemas, que busca encontrar a pessoa perfeita e por aí vai. Confuso, na versão cômica ou trágica, o personagem central está com a emoção sempre a mil por hora. As inquietações existenciais, espirituais ou meramente verbais (característica forte na obra de Allen, personagens que falam sem parar) são compartilhadas por boa parte do público que lotam os cinemas a cada lançamento.

 

A música é outro elemento que merece o parágrafo final do texto. Descobri o jazz assistindo aos filmes de Woody Allen. Profundo conhecedor e admirador do gênero (o diretor também é um clarinetista de primeira), ele escolhe com precisão a trilha sonora para as cenas que cria. Nos belos dias de sol, enquanto caminho pelas ruas e ouço algum jazz animado, sinto-me como se tivesse sido transportado para um filme do diretor. Parece bobagem, mas sinto uma energia boa quando isso acontece. São em momentos assim que, como Holden Caulfield disse, tenho vontade de ligar e bater um papo com o Woody Allen.

 

Sobre Antonio Munró Filho (15 artigos)
Formado em Jornalismo e Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Grande do Sul (PUCRS), tem larga experiência na área de comunicação. Entre 2001 e 2012 trabalhou na Zero Hora e O Sul, dois dos principais jornais do Rio Grande do Sul. Em 2012, deixou Porto Alegre para viver novos desafios no Rio de Janeiro, ao assumir a assessoria de comunicação de uma seguradora de atuação nacional. Cativado pelo universo corporativo, especializa-se na área de Marketing Digital pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Apaixonado por Literatura, mantém o blog cultural Alegria de Ser o que É (www.alegriadeseroquee.wordpress.com.br), no qual escreve sobre livros, filmes e música.

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