“Coringa: Delírio a Dois” — Uma Continuação Que Subverte Expectativas, Mas Decepciona os Fãs
Desde o lançamento do premiado drama de 2019, “Coringa”, dirigido por Todd Phillips e estrelado por Joaquin Phoenix, uma pergunta vem intrigando o público: quando o Coringa realmente assumirá seu papel como o arqui-inimigo do Batman? O filme original dedicou duas horas para contar a história sombria de Arthur Fleck, sua infância difícil, seus problemas mentais e sua transformação em um assassino com rosto pintado de palhaço, mas sem mostrar o personagem realizando os elaborados crimes que o tornaram o maior vilão de Gotham City.
Agora, com a chegada de “Coringa: Delírio a Dois”, dirigido novamente por Phillips, muitos esperavam finalmente ver o vilão em plena ação, planejando roubos e destruindo rivais — e talvez até confrontando o Batman. No entanto, essa não foi a escolha do diretor.

Uma Decisão Corajosa, Mas Problemática
Phillips e o co-roteirista Scott Silver optaram por continuar explorando a trajetória de Arthur Fleck, antes que ele se torne completamente o Coringa dos quadrinhos. Essa escolha subverte corajosamente as expectativas dos fãs, mas resulta em um filme pesado e frustrante.
Grande parte de “Coringa: Delírio a Dois” se passa no Asilo Arkham, onde Fleck está preso, e no tribunal central de Gotham, onde sua sanidade é julgada. A cidade de Gotham, como um todo, é apenas um pano de fundo esmaecido. Em Arkham, Fleck é ridicularizado por um guarda (Brendan Gleeson) e entrevistado por um repórter (Steve Coogan). No tribunal, sua advogada (Catherine Keener) debate com o promotor (Harry Lawtey) se Joker e Fleck são, de fato, duas personas distintas.
A inclusão de Harvey Dent, futuro vilão Duas-Caras, como promotor distrital pode agradar os fãs de quadrinhos, mas não faz o longo debate no tribunal ser mais envolvente. De forma semelhante, a introdução de Lee Quinzel, interpretada por Lady Gaga como uma nova versão da personagem Harley Quinn, adiciona mais uma quase-vilã ao elenco, sem grande impacto.

O Papel de Harley Quinn e o Grande Truque do Filme
Lady Gaga assume o papel de Lee Quinzel, uma admiradora do Coringa que o encoraja a abandonar seu estado recluso e sedado, transformando-se novamente no seu alter ego caótico. A interação entre Fleck e Lee conduz ao “grande truque” do filme: números musicais e fantasias de musicais de Hollywood, onde Phoenix e Gaga cantam e dançam. Embora Gaga brilhe com interpretações de clássicos românticos americanos, os interlúdios musicais não possuem a imaginação selvagem esperada de personagens como Coringa e Harley Quinn, e em vez de moverem a narrativa, acabam por desacelerá-la.
Essa escolha levanta a suspeita de que Phillips não tinha material suficiente para preencher duas horas de filme sem recorrer a esses momentos musicais.
Desmistificação do Coringa: Uma Ousadia ou Presunção?
O resultado final é um filme que pode ser considerado decepcionante, mas que parece intencionalmente construído para ser assim. Phillips parece responder diretamente à forma como Arthur Fleck foi percebido pelos fãs após o lançamento do primeiro filme. Enquanto para muitos Fleck sempre pareceu um homem infeliz e passivo, que causou caos quase por acidente, outros o viram como uma figura revolucionária, um Robin Hood dos tempos modernos.
Em “Coringa: Delírio a Dois”, Phillips não quer deixar espaço para interpretações heroicas de Fleck. O diretor dedica sua sequência à mensagem de que Fleck é um covarde egocêntrico, um personagem que sabota tudo e todos ao seu redor. Dependendo de como você encara, esse exercício de desmistificação pode ser visto como ousado ou presunçoso — mas, no final das contas, não é muito divertido.
Um Filme Que Faz Você Se Sentir o Alvo da Piada
Ao terminar “Coringa: Delírio a Dois”, a sensação predominante é a de que Phillips está rindo da audiência que, da última vez, poderia ter se deixado levar pela autoimagem messiânica de Fleck. Se esse era o objetivo, ele foi alcançado. Mas para aqueles que esperavam finalmente ver o Coringa em toda a sua glória vilanesca, o filme pode parecer uma oportunidade desperdiçada.

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