Entre sombras e estruturas, Cristiano Mascaro recorta São Paulo em exposição na Unibes Cultural
Fotografias revelam a cidade em fragmentos e permanências
São Paulo nunca se entrega por inteiro. Ela se oferece em camadas, frestas, cruzamentos inesperados. É desse jogo entre o que se vê e o que permanece que nasce Recortes, exposição de Cristiano Mascaro em cartaz na Unibes Cultural até 22 de março. A mostra percorre diferentes momentos da trajetória de um dos fotógrafos fundamentais da visualidade urbana brasileira, propondo um reencontro atento com a cidade que moldou — e foi moldada por — seu olhar.
Ao caminhar pela exposição, o visitante percebe que Mascaro não fotografa São Paulo como quem registra um cenário, mas como quem investiga uma arquitetura viva. Imagens analógicas e digitais ampliadas constroem uma narrativa visual em que o tempo não avança em linha reta. Ele se dobra. Fachadas, viadutos, sombras projetadas e vazios urbanos aparecem ora em planos abertos, ora em detalhes quase íntimos, revelando uma cidade que resiste às mudanças aceleradas justamente por meio de seus fragmentos.
Formado em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP, Mascaro iniciou sua relação com a fotografia ainda na graduação, influenciado pela obra de Henri Cartier-Bresson. Essa formação dupla atravessa toda a sua produção. Há rigor geométrico, atenção à escala e, ao mesmo tempo, sensibilidade para o cotidiano que escapa ao planejamento urbano. A câmera opera como ferramenta de leitura do espaço e também como memória.
Em Recortes, surgem lugares emblemáticos da paisagem paulistana — Avenida São João, Minhocão, Viaduto Eusébio Stevaux, Maternidade Filomena Matarazzo — não como cartões-postais, mas como organismos em constante negociação com o tempo. Em algumas imagens, a cidade se impõe em sua grandiosidade. Em outras, se revela em texturas, linhas e sombras que sugerem silêncio, pausa e permanência.
Com curadoria de Luiz Armando Bagolin e Flávio Cohn, a exposição propõe um diálogo entre diferentes fases da produção de Mascaro, evidenciando também as transformações tecnológicas da fotografia. Mais do que um recorte cronológico, a seleção constrói uma reflexão sobre São Paulo como território simbólico, histórico e afetivo, continuamente reinterpretado pelo olhar fotográfico.
Aos 81 anos, Cristiano Mascaro segue observando a cidade com a mesma curiosidade meticulosa que marcou o início de sua carreira. Recortes não oferece respostas definitivas sobre São Paulo. Prefere sugerir caminhos, provocar pausas e lembrar que, em uma metrópole em permanente mutação, ver com atenção continua sendo um gesto radical — e necessário.
São Paulo em detalhes, sombras e silêncios. Um convite para olhar a cidade de novo. #FotografiaBrasileira #ArteContemporanea
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