Geometria que pulsa: uma visita guiada ao universo sensível de Gilberto Salvador
Curadora conduz leitura da mostra no Paço Imperial
O Paço Imperial abriga, neste verão, uma exposição que convida o olhar a desacelerar. Entre planos recortados, cores intensas e volumes que parecem respirar, a mostra “Gilberto Salvador – Geometria Visceral” transforma a geometria em experiência sensorial. Nesta sexta-feira, 6 de fevereiro, às 16h, o público poderá atravessar esse percurso em uma visita guiada conduzida pela curadora Denise Mattar, com entrada gratuita e tradução em Libras.
A exposição ocupa os três salões do segundo pavimento do Paço e reúne cerca de 40 obras entre pinturas, esculturas e vídeos. É o reencontro do artista paulistano com o Rio de Janeiro após 17 anos sem expor na cidade — um retorno carregado de significado. Salvador mantém uma relação afetiva com a paisagem carioca, que surge em diferentes momentos da mostra, reinterpretada por recortes, cores e volumes que escapam do literal.
Com mais de seis décadas de trajetória, Gilberto Salvador construiu uma obra marcada pela tensão entre rigor construtivo e pulsão orgânica. Desde os trabalhos das décadas de 1960 e 1970, como Viu…! (1968), atravessado pelo contexto da ditadura militar, até as produções mais recentes, a geometria nunca se impõe de forma fria. Ela vibra, se dobra, dialoga com a matéria e com o tempo histórico. “A cor é discurso, o traço é denúncia”, observa Denise Mattar ao comentar esse período inicial.
A materialidade é um eixo central da exposição. Acrílico, metal, madeira, tinta e objetos da construção civil convivem de forma harmônica, em referência direta à formação do artista em arquitetura e urbanismo. Os recortes precisos e o uso de cores vibrantes evocam uma brasilidade que se manifesta tanto na paisagem quanto na memória gráfica. “O Brasil tropical é colorido”, afirma Salvador, ao relacionar seu cromatismo à flora, ao paisagismo e às imagens que o marcaram desde a infância.
A acessibilidade também faz parte do projeto expositivo. Salvador, que tem dificuldade de locomoção em decorrência da poliomielite, criou duas esculturas táteis para serem tocadas pelo público. “É fundamental que o visitante tenha essa experiência”, diz o artista, reforçando a dimensão sensível da mostra.
Organizada por conjuntos de linguagens, a exposição reúne séries que dialogam com o Rio de Janeiro, quadriculados que remetem às piscinas da memória e caixas de acrílico que abrigam objetos inesperados, como prumos, bolas de tênis e placas de chumbo. Na última sala, obras em acrílico polarizado parecem emitir luz própria, ampliando a sensação de imersão.
A visita guiada aprofunda esse percurso e revela camadas que nem sempre se mostram à primeira vista. Geometria Visceral segue em cartaz até 1º de março de 2026, oferecendo ao público carioca uma rara oportunidade de acompanhar, em plena maturidade, a obra de um artista que transforma forma em experiência viva.
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