Arroz vermelho ressurge em Minas e reconecta mesa, memória e território
Grão histórico volta às cozinhas
Durante décadas, o arroz branco reinou absoluto nas mesas brasileiras. Prático, produtivo e alinhado ao modelo agrícola dominante, ele ofuscou variedades que carregavam histórias mais antigas. Entre elas, o arroz vermelho — grão de origem asiática trazido pelos portugueses no período colonial, adaptado ao semiárido e, por muito tempo, relegado ao esquecimento.
Agora, ele retorna ao centro da mesa em Minas Gerais. Não como moda passageira, mas como escolha consciente de chefs que enxergam na cozinha um espaço de permanência cultural. Em Belo Horizonte e na Lapinha da Serra, três nomes conduzem esse movimento: Agnes Farkasvolgyi, Ju Duarte e Marina Leite.
A relação de Agnes com o arroz vermelho começou há cerca de 20 anos, quando participou de uma pesquisa do Slow Food sobre a Arca dos Alimentos, iniciativa dedicada à preservação de ingredientes ameaçados. “Ele foi sendo substituído pelo arroz branco, que interessava mais aos colonizadores”, relembra. A textura firme e o sabor marcante conquistaram espaço definitivo em sua cozinha há 15 anos. No restaurante A Casa da Agnes, o grão brilha em pratos como o arroz caldoso com bochecha de porco, costelinha defumada, ora-pro-nóbis e bacon caramelado — receita que virou assinatura.
Na Cozinha Santo Antônio, Ju Duarte encontrou no arroz vermelho uma pergunta histórica: por que o arroz se consolidou como base alimentar, se milho e mandioca eram predominantes? Ao investigar, descobriu que o grão vermelho foi uma das primeiras variedades consumidas no país. “É um alimento que conta uma história de resistência”, afirma. Desde 2019, ele integra seu repertório, como no prato Terra à Vista, versão vegana que valoriza o sabor amendoado e a identidade visual intensa do ingrediente.
Já na Lapinha da Serra, o restaurante Casulo transformou o arroz vermelho em eixo central da proposta. Marina Leite enfrentou o desafio técnico de substituir o arbóreo importado por um grão integral cultivado por famílias locais. Foram testes, ajustes e diálogo com o público até que a transição se tornasse definitiva. “Optamos pelo nosso ‘arroz de quintal’, mais saboroso e fruto da agricultura familiar”, explica.
Mais do que resgate, o movimento revela um reposicionamento da gastronomia mineira. O arroz vermelho conecta campo e cidade, tradição e contemporaneidade. Ao voltar ao prato, ele reafirma que memória também se cozinha — e que o futuro pode nascer de sementes antigas.
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