Entre o couro e a escultura: a arte que nasceu na oficina de um sapateiro
Marcelo Gomes fala sobre suas origens.
Carioca de Vila Isabel, Marcelo Gomes construiu sua trajetória entre o ofício herdado do pai e a descoberta da arte como forma de expressão. Sapateiro desde os 13 anos, encontrou na escultura um caminho para transformar materiais do cotidiano em obras carregadas de memória, afeto e experimentação. Autodidata, desenvolveu uma linguagem própria que mistura sucata, cimento, madeira e imaginação. Hoje, sua história revela como criatividade e persistência podem transformar uma oficina em ateliê.
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Marcelo, você nasceu no Rio de Janeiro e começou a trabalhar ainda muito jovem como sapateiro em Vila Isabel. Como foi crescer nesse ambiente de trabalho manual ao lado do seu pai e de que forma essas primeiras experiências ajudaram a construir o olhar sensível que hoje aparece em suas esculturas?
Marcelo : Sim. Nascido Rio de Janeiro em vila Isabel no hospital Pedro Ernesto, crescer na sapataria do meu foi uma experiência muito marcante na minha vida. Des dos 10 anos eu convivia com cheiro do couro, as ferramentas e o trabalho cuidadoso de transformar algo simples em algo útil e bonito. Observando meu pai trabalhar, aprendi o valor da paciência, da dedicação e do respeito pelo trabalho manual. Dessa forma, o trabalho do meu pai me ensinou a enxergar a beleza no processo de criar com as mãos e influenciou muito como faço minha arte hoje.
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Em determinado momento da sua trajetória, você decidiu seguir o ofício de sapateiro aprendido com seu pai, mantendo viva essa tradição familiar. Como foi equilibrar esse legado com o desejo de explorar a arte e transformar suas habilidades manuais em expressão artística?
Marcelo: Eu cresci dentro da sapataria, na infância e adolescência . Depois segui outro caminho profissional e fui trabalhar em uma empresa de design. Em 1997, meu pai faleceu, surgiu o momento de decisão na minha vida. A sapataria iria fechar, eu senti que aquela história e aquele conhecimento não podiam simplesmente acabar. Foi então que resolvi sair da empresa onde trabalhava e assumir a sapataria, mantendo viva essa tradição que aprendi desde pequeno ao lado dele. Ao mesmo tempo, essa caminho acabou me aproximando ainda mais da arte. trabalhando na sapataria eu tenho a liberdade de organizar meu próprio horário. Depois que fecho a loja, vou para casa e me dedico a estudar e a produzir minhas esculturas e telas dessa forma, consegui equilibrar o legado do meu pai com meu desejo de transformar materiais em expressão artística. O ofício manual e a arte acabaram se complementando na minha vida.
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Mesmo enfrentando desafios e responsabilidades desde cedo, você encontrou caminhos para se aproximar das artes plásticas, estudando design, programação visual, fotografia e desenvolvendo esculturas em seu próprio ateliê. Como aconteceu essa virada que o levou definitivamente para o universo da arte?
Marcelo: A grande virada aconteceu depois do falecimento do meu pai. Diante dessa situação, enxerguei ali uma oportunidade de retomar aquilo que sempre fez parte da minha história: o trabalho artesanal e criativo. Foi então que comecei a dedicar mais tempo ao meu próprio ateliê, explorando esculturas, telas e diferentes matérias. Aos poucos percebi que a arte não era apenas um interesse, mas um caminho natural da trajetória uma forma de unir a tradição de 60 anos do trabalho manual que aprendi com meu pai com a vontade de criar e expressar ideias através da arte.
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Ao longo dos anos, você realizou exposições importantes, como “Afetos” no Sesc Engenho de Dentro e “Percepção do Olhar” na UERJ, além de participar de festivais e mostras em diferentes espaços culturais do Brasil. O que essas experiências de exposição significaram para a consolidação da sua carreira artística?
Marcelo: Ao logo da minha trajetória, as exposições tiveram um papel fundamental no fortalecimento da minha carreira artística. Participar de mostra como “Afeto ” no SESC do Engenho de Dentro, e ” Percepção do olhar ” na UERJ, Centro cultural dos correios, Casa França, Colégio Pedro ll de São Cristóvão e outros, foi muito importante porque me permitiu apresentar meu trabalho ao público e perceber como as pessoas se conectam com a arte que produzo. Esses espaços são momentos de troca muito ricos, onde o artista sai do ambiente do ateliê e entra em diálogo com diferentes olhares, interpretações e sensibilidades. Participar de exposições, fortalece minha identidade artística e dar mais visibilidade ao meu trabalho. Mais do que reconhecimento, essas experiências reafirmaram para mim que a arte é um caminho de comunicação e encontro, onde cada obra pode despertar sentimentos, reflexões e novas percepções nas pessoas.
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Olhando para sua trajetória, que une o trabalho artesanal e a produção artística, quais são os caminhos que você imagina seguir daqui para frente e como você pensa o futuro da sua arte e das novas possibilidades de criação?
Marcelo: Olhando para minha trajetória, que une o trabalho artesanal herdado da tradição familiar com pesquisa artística, eu imagino seguir aprofundando cada vez mais esse diálogo entre o ofício e arte. O trabalho manual sempre foi a base da minha formação, e hoje ele se transforma também em linguagem artística, em uma forma de expressão e reflexão sobre memória, identidade e transformação dos materiais. Para o futuro, penso em continuar explorando novas possibilidades de criação, experimentando materiais, formas e conceitos que ampliem o alcance do meu trabalho. Também desejo levar minha arte para outros espaços expositivos e de troca com o público, porque acredito que a arte ganha ainda mais sentido quando provoca encontro, reflexão e sensibilidade. Vejo o futuro da minha produção como um caminho aberto, de investigação constante, onde tradição e contemporaneidade caminham juntas. Quero continuar criando, aprendendo e permitindo que cada nova obra seja também uma descoberta.
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