Entrevista com o professor Roberto Galery, engenheiro e docente da UFMG
Entrevista – Roberto Galery
Por Josué Bittencourt – Coluna Entrevista, Linkezine
Na coluna Entrevista da Linkezine, o jornalista Josué Bittencourt conversa com o professor Roberto Galery, engenheiro de minas e docente da UFMG com mais de 40 anos de experiência em beneficiamento mineral. Referência acadêmica e científica no setor, Galery aborda o papel estratégico do Brasil na transição energética global, explorando temas como extração responsável, competitividade internacional e o potencial das Terras Raras e outros minerais críticos. Ao longo da conversa, o professor analisa avanços e entraves da mineração nacional, comenta projetos de inovação tecnológica e aponta caminhos para que o país não apenas exporte matéria-prima, mas também agregue valor e desenvolva uma cadeia produtiva sólida e sustentável.
Como você avalia a situação atual da mineração responsável no Brasil, especialmente na extração de minerais estratégicos para a transição energética?
Galery :
“Há oportunidades claras, mas a mineração responsável precisa deixar de ser exceção e passar a ser a regra.”
A mineração responsável no Brasil tem avançado, mas ainda enfrenta desafios significativos — sobretudo quando falamos da extração de minerais como lítio, níquel, cobalto, grafita e terras raras.
Nos últimos anos, o país tem adotado exigências mais rigorosas de licenciamento ambiental, responsabilidade social e tecnologias limpas. O avanço, no entanto, ainda é desigual: enquanto algumas regiões e empresas seguem boas práticas, outras ainda convivem com informalidade, baixo controle ambiental e falta de transparência.
O Brasil possui reservas estratégicas para baterias, painéis solares e turbinas eólicas. Para transformar esse potencial em liderança global, é preciso investir em pesquisa, inovação, rastreabilidade da cadeia produtiva e um marco regulatório robusto.
O Brasil possui reservas significativas e capacidade para atender à demanda global por minerais críticos como lítio, níquel, cobre e terras raras? Em quais segmentos somos mais competitivos?
Galery :
“O lítio está em ascensão e deve se tornar um diferencial competitivo para o país.”
Sim. O Brasil conta com reservas expressivas de minerais críticos para a transição energética: lítio, níquel, cobre, grafita e terras raras. O Vale do Lítio (Vale do Jequitinhonha, MG) desponta como polo estratégico, com operações já em curso. Níquel e cobre têm produção consolidada, e as terras raras, embora ainda no início de exploração, apresentam grande potencial.
O ponto fraco está na capacidade tecnológica: ainda importamos a maioria dos produtos processados, mesmo com extração local. Universidades e centros de pesquisa, contudo, desenvolvem rotas tecnológicas nacionais.
Na logística, a dependência rodoviária dificulta o escoamento, mas, em minerais com tradição e infraestrutura, como ferro, níquel e cobre, a competitividade é alta. Hoje, níquel e cobre lideram a performance brasileira, o lítio cresce rapidamente, e as terras raras aguardam domínio tecnológico para disputar espaço global.
O setor mineral brasileiro já abastece cadeias de valor da energia limpa? Quais são as perspectivas?
Galery :
“O Brasil já abastece parcialmente cadeias de valor ligadas à energia limpa, e o potencial de crescimento é enorme.”
Sim. Exportamos lítio, níquel, cobre, grafita, terras raras e nióbio — insumos essenciais para baterias, energia solar e eólica, e mobilidade elétrica.
Em 2023, exportamos cerca de US$ 4,2 bilhões em minerais estratégicos, com mais de 50 projetos ativos. O lítio nos colocou como 5.º maior exportador mundial, e a Serra Verde (GO) iniciou a produção de 5.000 toneladas anuais de óxido de terras raras.
A conexão com a indústria global cresce: BYD, CATL e Volkswagen investem em projetos nacionais e no lítio verde. O uso do nióbio em baterias também avança, com a previsão de lançamento, em 2025, de um protótipo de ônibus elétrico equipado com essa tecnologia.
Segundo a IEA, até 2040, a demanda global por lítio crescerá +704% e por grafita +246%. Entre 2025 e 2029, o setor mineral brasileiro deve receber US$ 68 bilhões em investimentos. A participação em coalizões internacionais, como o Minerals Security Partnership, fortalece especialmente o segmento de terras raras.
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Quais são as principais diferenças entre a mineração tradicional (como ferro) e a de minerais voltados à transição energética? Essas modalidades enfrentam desafios distintos em termos de impacto socioambiental e regulação?
Galery :
Sim, existem diferenças importantes entre a mineração tradicional, como a de ferro, e a mineração de minerais estratégicos voltados à transição energética, tanto em termos de características técnicas quanto nos desafios socioambientais e regulatórios.
A mineração de ferro, ouro ou bauxita costuma operar em larga escala, com altíssimos volumes de extração e exportação. Já os minerais críticos, como lítio, cobalto, terras raras, grafita e vanádio, são extraídos em volumes muito menores, porém com alto valor agregado e maior complexidade tecnológica. Também, as jazidas de ferro estão geralmente em regiões já consolidadas, como o Quadrilátero Ferrífero (MG) ou Carajás (PA). Já os minerais críticos muitas vezes se localizam em áreas novas ou mais sensíveis, exigindo abertura de fronteiras minerais, o que demanda maior planejamento ambiental e social. Outro ponto é que a cadeia produtiva dos minerais críticos é mais sofisticada, exigindo tecnologias específicas para separação e purificação (como separação por solventes ou processos pirometalúrgicos). Isso eleva o custo inicial e a necessidade de capacitação técnica.
Embora a mineração tradicional tenha impactos maiores em volume, como barragens, movimentação de terra e geração de rejeitos, a mineração de minerais críticos pode ter impactos químicos e toxicológicos mais complexos, dependendo do mineral. O processamento de terras raras, por exemplo, pode gerar resíduos com elementos radioativos. Muitas comunidades e organizações ambientais associam a mineração a impactos históricos negativos, o que gera resistência, mesmo quando os novos projetos têm potencial transformador na matriz energética. Isso exige transparência, consulta prévia e inclusão social efetiva, especialmente em territórios indígenas ou áreas protegidas. A extração de minerais críticos é paradoxal: ela é essencial para tecnologias sustentáveis, mas só será verdadeiramente “verde” se for feita com baixo impacto local, rastreabilidade e justiça socioambiental.
A legislação brasileira ainda está mais preparada para lidar com a mineração tradicional. Falta um marco regulatório específico para minerais estratégicos, que incentive o desenvolvimento tecnológico nacional, atraia investimentos sustentáveis e evite a simples exportação de concentrados. Recentemente, o governo federal tem discutido políticas para incluir minerais estratégicos no planejamento da transição energética, com incentivos à produção de lítio verde, criação de zonas de processamento e parcerias com países interessados na diversificação da cadeia global de suprimentos.
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Parabéns pela entrevista!
Bom tema e parabéns pela entrevista 👏
Excelente entrevista!👏
Parabéns pela entrevista